Editorial

A influência de um Presidente

O maior reflexo da sua influência será fazer com que este tema em particular e o interior do país em geral também se transforme em prioridade governamental.

No dia em que o Conselho de Ministros extraordinário anunciou uma série de medidas de reforma da prevenção e combate aos fogos florestais, acompanhada de várias manifestações na sequência das mortes dos últimos meses, o Presidente da República veio dizer que a sua recandidatura estará dependente da sua capacidade de influência nesta matéria. Com esta declaração, Marcelo Rebelo de Sousa reforça a pressão política sobre o Governo na gestão de um dossier que ganhou uma proporção imparável e desempenha uma função de escrutínio que os partidos da oposição, para além do tacticismo de uma moção de censura, não querem ou não estão em condições de exercer com a devida acutilância.

Ao fazer depender um segundo mandato da evolução que tiverem estas políticas de reforma da prevenção civil e de combate aos incêndios florestais, Marcelo assume um compromisso com as vítimas, com o interior do país, e chama a atenção para os problemas de um Portugal esquecido. Marcelo situa-se estrategicamente como alguém disposto a ser um porta-voz e provedor da indignação de quem acusa o Estado pelo falhanço de Pedrógrão Grande e dos incêndios do último fim-de-semana. No actual contexto político não existirá nesta matéria ninguém com mais capacidade de influência do que o Presidente. E Marcelo sabe disso. Basta acompanhar os seus passos pelos concelhos atingidos e observar as reacções que suscita nesse país martirizado, não urbano e longe de Belém ou de São Bento.  Marcelo representa o Estado nesse Portugal de luto.

O maior reflexo da sua influência será fazer com que este tema em particular e o interior do país em geral também se transforme em prioridade governamental. Sem a sua intervenção nesta semana, que conduziu à mini-remodelação, talvez o Governo não se sentisse tão obrigado a dar resposta a este problema com a importância e transversalidade com que o fez. As medidas anunciadas incluem decisões de bom senso, algumas das quais pecam por tardias, como a limpeza de todas as estradas e ferrovias, tal como a lei já prevê, o reforço do corpo de sapadores florestais, soluções mais rápidas para indemnizar familiares das vítimas mortais dos incêndios, linhas de financiamento para a reconstrução de habitações ou de apoio à actividade económica nas regiões afectadas, etc. É o que se espera de um Governo. E é o que se espera de um Presidente.