Os insectos estão a desaparecer na Alemanha. E isso é perigoso

Em pouco mais de 25 anos, três quartos dos insectos voadores desapareceram (em número e em diversidade) das reservas naturais alemãs. Cientistas falam num “Armageddon ecológico”.

Foto
Se os insectos deixarem de existir, “tudo o resto colapsará”, diz um dos autores do estudo LUSA/FRIEDEMANN VOGEL

Ao longo de 27 anos, mais de 75% dos insectos voadores em áreas protegidas da Alemanha desapareceram, segundo os resultados apresentados num estudo publicado esta quarta-feira na revista científica Plos One. É certo que as melgas são incómodas e que quem tem medo de abelhas não se importaria que elas não existissem – mas os insectos têm um papel importante nos ecossistemas e a sua diminuição é perigosa e “alarmante”, dizem os cientistas, já que afecta as cadeias alimentares, a polinização e até o controlo de pragas.

Foi a primeira vez que se estudou a biomassa total aérea – a massa de seres vivos existente numa determinada superfície – de insectos. As amostras foram recolhidas entre 1989 e 2016 (entre os meses de Março a Outubro de cada ano), em 96 sítios distintos da Alemanha (pertencentes a 63 áreas protegidas do país), e os investigadores descobriram que houve, em média, uma redução de 76% do número de insectos voadores.

Esta diminuição pode ter implicações graves já que “os insectos possuem um papel fundamental numa variedade de processos”, como a polinização, a reciclagem de nutrientes e ainda como fonte de alimento para animais como as aves, os anfíbios e alguns mamíferos.

Estima-se que 80% das plantas selvagens dependam dos insectos para a polinização – o transporte do pólen para que as flores sejam fecundadas, que pode ser feita através do vento, das aves, dos insectos ou do homem – e que 60% das aves fazem dos insectos o seu prato principal. Os resultados do estudo são ainda mais preocupantes, dizem os cientistas, já que o estudo foi conduzido em áreas protegidas “que são feitas para preservar o ecossistema e a biodiversidade”.

PÚBLICO -
Foto
As joaninhas são conhecidas por ajudarem a controlar pragas como os pulgões ou os ácaros ENRIC VIVES-RUBIO

Há já algum tempo que os cientistas tentam mostrar que os insectos são cada vez mais escassos, não só em número mas também em diversidade – há estudos que indicam que as populações de borboletas europeias, de traças e de abelhas têm vindo a diminuir para quase metade, por exemplo – mas este estudo vem agora reforçar essa hipótese com novos dados. “Suspeitava-se há muito desta diminuição, mas ela aparenta ser bem mais grave do que se pensava”, disse o coordenador do estudo Caspar Hallmann, da Universidade de Radboud, na Holanda.

Pesticidas ou alterações climáticas? Causa é incerta

A causa exacta para justificar esta redução acentuada não é clara. Várias têm sido as possibilidades apresentadas, como as alterações climáticas, os fungos, o uso de pesticidas, a falta de alimento, a agricultura intensiva e a destruição de habitats (cada vez menos e com piores condições).

Os investigadores explicam que a insuficiência de insectos é “evidente independentemente do tipo de habitat” e dizem ainda que “as mudanças de temperatura, o uso da terra e as características do habitat não podem explicar esta redução generalizada”. Ainda que não possam assegurar qual a verdadeira razão para a diminuição do volume de insectos, argumentam que deverão estar envolvidos “factores de grande escala”.

Dave Goulson, um dos autores do estudo, foi taxativo: “Estamos a caminho de um Armageddon ecológico”, observou, citado pelo Guardian, admitindo que, se se perderem os insectos, “tudo o resto colapsará”. O investigador da Universidade de Sussex, no Reino Unido, disse ainda que os insectos constituem cerca de dois terços de toda a vida no planeta, o que faz com que esta diminuição seja ainda mais “terrível”.

Num tom mais jocoso, já há quem se tenha referido ao fenómeno como o “efeito pára-brisas”, pois com o passar dos anos parece não haver tantos insectos esmagados nos vidros dos automóveis como outrora. Em tom mais sério, os investigadores alertam no final do estudo que existe “uma necessidade urgente de descobrir quais as causas desta redução” e qual a sua extensão geográfica.