Música portuguesa para novos públicos na temporada Música em São Roque

Até 19 de Novembro, 12 concertos ocuparão espaços emblemáticos do património histórico e artístico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. À atenção de todos os ouvintes, incluindo os mais jovens, para lá dos headphones.

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O Americantiga Ensemble propõe um concerto encenado que recua ao período das missões jesuítas na América Latina DR

A 29.ª edição da temporada Música em São Roque, promovida pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), inicia-se esta sexta-feira, às 21h30, com um concerto pelo Coro Gulbenkian intitulado De Profundis – as palavras iniciais do Salmo 130, associado às cerimónias fúnebres e ao Ofício de Defuntos, que ao longo dos séculos serviram de base a numerosas composições musicais, incluindo uma das obras mais recentes de António Pinho Vargas. Esta peça coral a cappella, editada em CD em 2017 e resultante do desafio que o maestro Paulo Lourenço lançou ao compositor para escrever uma obra para os seus alunos, constitui um dos destaques do programa desta noite de abertura, que recua até ao século XVII e chega até à actualidade de compositores como Allegri, Lotti, Verdi, Arvo Pärt, Eriks Esenvalds e Eurico Carrapatoso.

Até 19 de Novembro será possível ouvir 12 concertos em espaços emblemáticos do património histórico e artístico da SCML, como a Igreja de São Roque, a capela do convento de São Pedro de Alcântara e o Mosteiro de Santos-o-Novo, dando assim continuidade à aposta num programa diversificado que tem dado ao longo dos últimos anos um especial destaque aos repertórios e aos músicos portugueses.

Para a edição deste ano foram recebidas 48 candidaturas, das quais oito se viram seleccionadas por um júri constituído pelo maestro Filipe Carvalheiro, director artístico da temporada Música em São Roque há 28 anos; por Margarida Montenegro, directora da Cultura da SCML; e por António Jorge Pacheco, director artístico e de educação da Casa da Música. Entre os participantes dos 12 concertos que constituem o total da programação, incluem-se, além do Coro Gulbenkian, os agrupamentos Con Trastes, MPMP (Movimento Patrimonial da Música Portuguesa), Américantiga, Sete Lágrimas, La Batalla, L'Effetto Ensemble e o Coro Casa da Música, entre outros.  

“Quando implementámos o processo de candidaturas online o número de propostas cresceu, mas nos últimos anos tem vindo a diminuir”, contou ao PÚBLICO o maestro Filipe Carvalheiro. “Em contrapartida tem aumentado a qualidade e recebemos programas com maior adequação ao perfil da temporada.” Na selecção foram tidos em conta critérios como o “interesse e enquadramento do repertório proposto, o historial dos intervenientes, actividades paralelas como explicações introdutórias ou encenações, a componente da música portuguesa e os custos”. O director artístico refere que está bastante receptivo a “ideias arrojadas, com alternativas aos modelos tradicionais”, que possam proporcionar “concertos inovadores para o público conhecedor e cativantes para o iniciado”. Apesar de este tipo de propostas constituir uma percentagem reduzida, face aos modelos de concerto mais convencional, quando aparecem e mostram consistência suficiente têm sido incorporadas na programação.   

“Quanto aos intérpretes, temos procurado acompanhar e encorajar grupos com potencial, contribuindo assim para a solidificação da sua actividade e, por outro, dar oportunidade a novos agrupamentos”, diz Filipe Carvalheiro. “Trata-se de criar oportunidades para ouvir bons músicos e música portuguesa, nalguns casos em primeira audição, assim como oferecer um conjunto de concertos com uma paleta vasta de períodos e estilos.”

A temporada inclui música que vai desde a Idade Média — de que é exemplo o concerto do grupo La Batalla, de Pedro Caldeira Cabral, com Cantigas de louvor e milagres de Santa Maria em Terras de Portugal (Mosteiro de Santos-o-Novo, dia 5, às 16h30) — até aos nossos dias, nomeadamente com a actuação de L'Effetto Ensemble, que apresenta o programa Caprichos, preenchido com música de câmara para soprano, guitarra e percussão, e do qual faz parte uma obra de Nuno Côrte-Real em estreia absoluta  (dia 29).

Já no próximo domingo (Convento de São Pedro de Alcântara, 16h30), o Ensemble Con Trastes, formado por Sofia Diniz (viola da gamba), José Rodrigues Gomes (flauta de bisel e fagote) e Miguel Jalôto (cravo), apresenta um dos poucos programas que fogem ao mote da música portuguesa, sob o sugestivo título Ecos de Solidão – Música de câmara do barroco alemão. Ao lado de obras de Telemann e C.P.E. Bach, será possível descobrir música de grande qualidade de compositores pouco conhecidos como Johannes Schenck, Theodor Schwartzkopf e Christoph Schaffrath.

Quanto à música portuguesa, vários concertos despertam grande curiosidade, quer por proporem primeiras audições modernas, quer pela aposta em novas maneiras de as apresentar ao público. No primeiro caso destaca-se a estreia moderna pela Orquestra de Câmara de Sintra, sob a direcção de Cesário Costa, da oratória Salome, Madre de' sette martiri maccabei, de João Cordeiro da Silva, um dos mais importantes compositores ao serviço da Casa Real na segunda metade do século XVIII (dia 27) e o programa do Ensemble MPMP, dirigido por Jan Wierzba, intitulado Portugal 1800, com a Sinfonia em Ré maior (1805), de António Leal Moreira; o Te Deum de 1802, de Marcos Portugal; e a Missa em Mi bemol maior, de João José Baldi (dia 3).     

No segundo caso, o Americantiga Ensemble, dirigido por Ricardo Bernardes, volta a juntar-se à companhia teatral 33 Ânimos no concerto encenado Entre dois mundos, que propõe um diálogo filosófico durante um encontro fictício, em 1719, entre um indígena sul-americano, educado pelos jesuítas nas missões dos territórios em disputa pelas coroas espanhola e portuguesas, e o jovem D. João V. Repertório ibérico e italiano levados pelos jesuítas para a América Latina e outras obras escritas entre os séculos XVI e XVIII evocará os contextos em que viveram as personagens representadas (dia 12).

A diáspora portuguesa e a diversidade de culturas reflecte-se também no programa Parto triste saludoso do agrupamento Sete Lágrimas (dia 8) e algumas das mais belas páginas da música coral europeia, da autoria de Tomás Luís de Victória e Francis Poulenc, serão interpretadas pelo Coro Casa da Música (dia 17).

Apesar de alguns eixos comuns, esta variedade de propostas pretende chegar a públicos amplos. Filipe Carvalheiro sublinha que a temporada Música em São Roque se distingue também pela sua “missão cultural e social de tornar a música acessível a todos os públicos, qualquer que seja a idade ou estrato social”. Nessa perspectiva, o preço dos bilhetes é apenas de três euros.  A renovação de públicos tem sido, de resto, uma preocupação. “Nos últimos anos temos tentado alargar a faixa de público jovem e jovem-adulto. A criação de ateliers para crianças, que decorrem paralelamente aos concertos, é orientada para os jovens adultos que, por terem crianças pequenas, muitas vezes se vêem impossibilitados de frequentar este tipo de espectáculo.” O director artístico diz ainda que “gostaria de lembrar ao público mais jovem que não vai a concertos e cujo contacto com a música se limite a usar uns headphones que assistir a um concerto é sobretudo uma experiência humana": "Escutar a música, sentir o respirar dos músicos e seguir os seus movimentos pode ser uma experiência única e inigualável. Ousem experimentar!”