Crítica

Um estrangeiro chamado Amor

Turandot, em versão “concerto encenado”, empolgou o Coliseu de Lisboa e lembrou que a ópera pode ser um espectáculo para multidões. A última obra de Puccini teve a força necessária para derreter o coração mais frio. Derreterá o gelo também este sábado no Coliseu do Porto?

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NUNO FERREIRA SANTOS

Sobre o final de Turandot, Giacomo Puccini escreveu: "A chegada do amor deve ser como um meteoro brilhante enquanto o povo grita em êxtase". O compositor morreu em 1924 e deixou a ópera inacabada, mas Franco Alfano encarregou-se de lhe inventar um fim, para que o amor chegasse mesmo a derreter o coração mais gelado do mundo... com um beijo.

Turandot parece ter sido uma escolha feliz para abrir a temporada do São Carlos no Coliseu dos Recreios, que explodiu em aplausos ainda o último acorde se ouvia. Ópera muito popular e possível de fazer nesta versão de “concerto encenado”, Turandot triunfou, como se costuma dizer, naquele Coliseu onde a ópera já foi princesa. Com algumas (boas) soluções de recurso: coros no balcão, junto ao palco, à direita e à esquerda; cenografia mínima, com uma grande cadeira atrás da orquestra e opções muito simples à frente, com auxílio de pequenos bancos; ecrãs para os coros e os cantores poderem ver e seguir o maestro; luzes com simplicidade a condizer.

O primeiro acto, um arranque extraordinário de Puccini, moderno e directo ao assunto (sem abertura orquestral), é bem difícil de articular. A coisa compôs-se, mas não sem algumas confusões de tempo, entradas desfasadas e até uma ou outra desafinação (será que o coro não ouvia bem a orquestra? Lá vem a velha história da “acústica” do Coliseu...). O que é certo é que, a par e passo, os desequilíbrios se equilibraram, enquanto a ópera se deixava aquecer, a pouco e pouco, pela acção, pelas vozes, pela orquestra.

Primeiro com violência, sobretudo vinda de uma das personagens principais, que é o coro. Nesta ópera, ele tem olhos e ouvidos de povo (e de público, na astúcia “comercial” de Puccini). Ele é subserviente e tem medo, pode ser terrível multidão em fúria (“Morra! Morra!”), mas também deseja, tem compaixão, torce (como no desporto) e espanta-se. O poder vocal do Coro do São Carlos acabou por superar bem as dificuldades, enquanto as cordas, os sopros e as percussões da orquestra faziam do gelo fogo.

Turandot é uma princesa gelada, mas Elisabete Matos exagerou na tensão inicial do segundo acto, com vibrato excessivo e num estilo “sempre em esforço”. Estavam lá o drama, a crueldade, os freddissimi occhi (olhos gelados), mas na verdade ela foi muito mais certeira no terceiro acto, em que o gelo começa a derreter, depois de o “estrangeiro” Calaf (o excelente tenor Rafael Rojas) resolver os três enigmas que protegiam a princesa Turandot dos homens e do casamento, lá num império distante da China. Rafael Rojas cantou um Nessun Dorma de altíssima qualidade, para gáudio dos espectadores que soltaram ali o grande aplauso da noite. “Que ninguém durma em Pequim”, são as ordens do império. As “chinesices” de Puccini são certamente parte de um orientalismo estilizado modernista que era “ar dos tempos” no seu tempo. Mas elas permitem reflexões bem actuais sobre racismos, identidades, imagens do “outro”, opressões da mulher – questões do nosso tempo. Não foi por aí a encenação de Annabel Arden (mas também não fechou essas portas), procurando antes captar com procedimentos simples a questão fulcral: pode o amor derreter o mais frio dos corações? Pode, com uma ajudinha da inteligência, da coragem e de Liù.

Liù, a “outra” mulher, a escrava, é a verdadeira heroína de Turandot. E Dora Rodrigues construíu uma Liù admirável, brilhando no terceiro acto (“Ficando em silêncio, dou-lhe o teu amor/ Dou-to, Princesa, e perco tudo!/ Até a minha impossível esperança!..."), em que sacrifica o seu amor com letra minúscula, em nome de outro Amor, com letra maiúscula, ideal. Quem vence é a letra maiúscula e o Amor vem, meteoricamente. Tudo se derrete, incluindo a multidão que encheu o Coliseu.