Homem julgado por morte de gata nega autoria do crime

Animal foi encontrado enforcado num fio de nylon e pendurado num pau em Coimbra, em Junho de 2016.

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Rui Gaudêncio

O homem de 66 anos acusado de ter enforcado e pendurado num pau a gata da vizinha, em Coimbra, negou a autoria do crime e garantiu que não estava em casa na altura. O acusado, electricista da construção, responde no Tribunal de Coimbra por maus tratos a animais de companhia e quando questionado pelo juiz se teria sido o autor da morte, o arguido respondeu que só poderia "estar doido ou maluco" se o tivesse feito.

"Então ia fazer uma coisa dessas aos animais?", retorquiu, para depois acrescentar que "tinha um quintal atrás" onde poderia ter matado a gata sem que ninguém visse.

A 23 de Junho de 2016, a gata Camila foi encontrada enforcada num fio de nylon e pendurada num pau no logradouro do prédio onde reside o arguido e onde mora também a dona do animal, Ondina Ferreira, que apresentou queixa na PSP.

Nesta quinta-feira, o electricista negou ainda saber de quem era a gata e disse que só tomou conhecimento do sucedido quando um outro vizinho lhe contou, no fim-de-semana seguinte. "Não vi nem presenciei", afirmou o homem perante o tribunal, garantindo ainda que estava a trabalhar em casa de um amigo e que este o apanhava em casa por volta das 9h e só regressava às 20h30. "Não podia estar presente nessa altura".

Porém, Ondina Ferreira disse que nesse dia levou o carro à inspecção por volta das 18h15 e que viu o electricista de 66 anos na garagem do prédio antes dessa hora. A filha de um vizinho, que encontrou a gata já cadáver por volta das 19h45, testemunhou igualmente que viu o arguido no local antes dessa hora.

A queixosa sustentou que esta não foi a primeira situação de maus tratos a animais. Ondina Ferreira disse que já por duas vezes encontrou rolas mortas e um pato seu com um hematoma no abdómen.

A versão da filha do vizinho vai no mesmo sentido que as declarações de Ondina, ao contar que o arguido andava "sempre a enxotar os animais", mas ressalvando que nunca o viu a "fazer mal directamente". Acrescentou, no entanto, que teve animais que foram "morrendo e desaparecendo". A mulher referiu ainda que nunca se deu bem com o arguido porque este "implicava" com a sua família, sendo que a mãe já tinha ido "parar ao hospital por causa dele" e o pai tinha sido agredido.

Os achigãs e a raia

Os felinos não foram o único animal a constituir-se como tema na primeira sessão do julgamento. "De vez em quando faço umas pescas no rio", admitiu o homem de 66 anos. O facto de o animal ter sido encontrado enforcado com um fio de nylon ganha assim outra relevância no processo e foi explorado em tribunal.

O juiz José Carlos Ferreira chamou então o réu para observar as fotos do fio que constam no processo. Prontamente, o electricista disse que não usa aquele tipo de fio para a pesca e que não saberia fazer os nós. "Até eu, que não sou pescador, sei fazer esses nós", contrapôs o juiz, que pediu à oficial de justiça para ir buscar as provas. "Este nó já é de artista, dá para perceber que percebe", disse o magistrado em relação a outro nó. "Faz aí umas voltas que não é fácil", concedeu o homem.

A caixa de sapatos com o fio de nylon e o pau chegou pouco depois à sala, tendo o arguido comentado que "isso já não é um fio, é quase um cordel. É impossível pescar com isso." Afirmou ainda não ter nenhum fio daqueles em sua posse. "Já pesquei com um fio mais grosso", contrapôs mais uma vez o juiz. "A raia pesca-se com um fio mais grosso", exemplificou.

No entanto, o acusado voltou a argumentar que um fio com aquela espessura nem daria para fazer um lançamento, referindo que, como pesca "uns achigãs" no rio, usa mais fio de 0,30 milímetros. "Deus me defenda", proclamou.

Fake news

A defesa do electricista trouxe ainda uma incongruência no despacho de pronúncia, que indica que a gata foi encontrada no dia 28 de Junho, quando a gata foi morta no dia 23. A advogada queria apresentar duas notícias, com data de publicação anterior a dia 28, para juntar ao processo.

No entanto, o juiz não quis sequer olhar para os textos. "O que vem nos jornais para mim é irrelevante. Agora com as fake news? A senhora doutora quer provar um facto com notícias de um jornal?", questionou o magistrado.

O julgamento prossegue com audição de mais testemunhas a 26 de Outubro.