Crítica

Louvor e lamento

Estará APV tornado um compositor religioso? Nada disso, está a usar textos religiosos de grandes tradições musicais.

António Pinho Vargas: uma discografia ímpar entre os compositores contemporâneos portugueses
Foto
António Pinho Vargas: uma discografia ímpar entre os compositores contemporâneos portugueses

Por notoriedade, grande persistência pessoal e alguma sorte, António Pinho Vargas possui já uma discografia ímpar entre os compositores contemporâneos portugueses. Eis agora que, com escassíssimo intervalo, há dois novos lançamentos, um numa major, a Warner, outro numa micro-editora, a Mpmp, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa (este num desvio da sua linha mais conservadora, como se infere da designação), mas atenção, com distribuição assegurada – o problema destas micro-editoras é suceder-lhes não terem essa distribuição, como escandalosamente sucedeu num disco anterior de APV, o de obras para percussão pelo Drumming.

Depois de um Judas (algo herético) e de um Requiem, eis agora um Magnificat e um De Profundis; estará APV tornado um compositor religioso? Nada disso, está a usar textos religiosos de grandes tradições musicais. E são obras agnósticas: o Libera Me final do Requiem não é uma imploração a Deus mas um canto dos homens pela liberdade, agora no Magnificat, no Gloria final, ele mantém apenas essa exaltação, cortando o resto do versículo (“ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo… Amen”). É uma obra celebrativa, encomenda da Culturgest para assinalar os seus 20 anos.

Se no Requiem a grande força musical e original reside no coro, a orquestra sendo como que um suporte, no Magnificat a escrita orquestral é muito mais elaborada. O compositor inclui mesmo um Introitus, puramente orquestral, e um Exodus, também basicamente instrumental, apenas regressando nos últimos compassos a exaltação de reafirmar o Gloria.

Comparativamente a esta obra maior, o De Profundis parecerá menor. Mas quase todos os compositores têm também obras “menores”, pelos intentos, circunstâncias e formação a que se destinam. No caso foi Paulo Lourenço, maestro do Coro Gulbenkian, que depois do trabalho conjunto no Requiem e no Magnificat solicitou a APV uma obra a capella, a primeira que ele compôs. Curioso caso de uma obra que é gravada e editada sem nunca ter sido feita em concerto! É uma imploração sobre a qual não deixa de pairar o espectro de um lamento, essa “angústia de temor latente” como já escrevi sobre obras de APV e ele cita nas notas ao disco.

E isso  dá-nos passagem à outra gravação, e ao extraordinário, mas deveras extraordinário, Concerto para Violino in memoriam Gareguin Aroutiounian, lembrando e homenageando um colega professor da Escola Superior de Música, que aliás havia estreado outra obra incluído no disco, Quasi una Sonata. Aos três andamentos tradicionais de um concerto, acrescentou APV um outro, propriamente o Lamento, mas de facto toda a obra o é. Diferentemente da tripartição tradicional, rápido-lento-rápido aqui o andamento “vivo, deciso” é o segundo e é também nesse aliás que se inclui a “cadenza”.

Sem qualquer pastiche ou citação mas também sem “restrições” modernistas, a obra faz-nos evocar outro famoso Concerto para Violino, que é também um lamento, o de Alban Berg, escrito “em memória de um anjo”, Manon, filha de Alma Mahler e Walter Gropius, e a sua opulência orquestral tem laivos de pós-romantismo. Extraordinária é a capacidade do compositor em logo ao 1º acorde ou 1º compasso de um andamento nos sugerir logo o clima de todo esse andamento.

Com uma solista excepcional e uma direcção empenhadíssima, eis uma grandíssima e extraordinariamente emotiva obra musical.

Depois de tais cumes podia-se temer uma quebra com as obras complementares, Quasi una Sonata e No Art. São miniaturas e APV é antes um compositor de grandes formas. Mas a destreza e a mestria de Tamila Kharambura (com Inês Andrade ao piano em Quasi una Sonata) são de tal modo que o complemento se torna óbvio.

Há variadas peças de APV de que gosto muito (e também outras, poucas, de que não gosto) como Acting Out, Estudos e Interlúdios, Os Dias Levantados ou o Requiem, mas nenhumas como Monodia, Quasi um Requiem, Six Portraits of Pain ou este Concerto para Violino, obras quase fúnebres, de dor ou um lamento, todas com essa “angústia de temor latente”, todas, ponto fulcral, obras de e para sentir, em nós suscitando uma ressonância interior.

O Concerto para Violino in memoriam Gareguin Aroutiounian não é “apenas” uma grande obra de música portuguesa ou, como é mais correcto, de autor português – é uma obra-prima, grandíssima e ponto final.