Eduardo levou o autocarro pelo “túnel de chamas” e salvou 48 pessoas

Os incêndios de domingo levaram ao corte de parte do IP3, mas um motorista teve de passar pelo meio do fogo para evitar que as chamas consumissem o autocarro. À chegada a Coimbra, os passageiros aplaudiram e agradeceram-lhe a “coragem” de ter tomado a “decisão certa”.

Vouzela, no distrito de Viseu, após os incêndios do fim-de-semana
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Vouzela, no distrito de Viseu, após os incêndios do fim-de-semana ADRIANO MIRANDA

Na noite de domingo, considerado o “pior dia do ano” em matéria de incêndios, um autocarro que partiu de Viseu com destino a Coimbra (com meia centena de pessoas a bordo) viu-se cercado por chamas no IP3. Sem hipótese de inverter a marcha, o motorista tomou uma decisão e avançou para o “túnel de chamas” diante deles.

“Teve um fecho feliz e é o que importa”, conta Eduardo Botto, motorista da empresa Transdev, em declarações ao PÚBLICO. Admite estar cansado de dar entrevistas e da atenção mediática que recebeu nos últimos dois dias. Em relatos nas redes sociais e em declarações ao PÚBLICO, algumas das passageiras elogiaram a “coragem, bravura e lucidez do motorista”, que tomou a “decisão certa” e conseguiu evitar o pior. 

O autocarro partiu de Viseu por volta das 18h de domingo. “Já não se via o sol, havia muito fumo”, conta Ana Fonseca, de 22 anos, uma das passageiras do autocarro.

No IP3, já depois da zona de Santa Comba Dão e antes de Almaça, “o céu começou a ficar cada vez mais escuro”. A estrada estava ladeada por chamas. Os bombeiros no local sugeriram ao motorista que invertesse a marcha, mas este apercebeu-se de que seria impossível – e fazer marcha atrás também não era solução. Tomou então a decisão de avançar com o autocarro que transportava 48 passageiros – a maioria eram jovens – através do “túnel de chamas”, auxiliado por um pequeno grupo de bombeiros.

Dentro do autocarro, o pânico era evidente. Por entre gritos, choros, mãos dadas e telefonemas “de desespero e despedida” aos familiares e amigos, o autocarro foi avançando, sentindo-se o calor “e as janelas a ferver”, descreve Ana.

“Posso morrer aqui convosco, mas não vos abandono”, foi o que pensou Eduardo Botto ao seguir caminho enquanto as chamas batiam no autocarro, conforme recordou em declarações ao jornal i. O incêndio tinha começado na Lousã, mas rapidamente alastrou para Penacova e Mortágua.

Passada a zona das labaredas, a de maior perigo, os bombeiros alertaram que a parte traseira da viatura estava em chamas. “O motorista Eduardo foi impecável, pedia calma e foi ele quem ordenou para sairmos do autocarro quando estava a arder, sendo ele o último a sair”, conta Mafalda Lírio, de 20 anos, estudante de Direito.

Enquanto os bombeiros dominavam as chamas no exterior do autocarro, alguns dos passageiros puseram-se a caminho. “Começámos a ir a pé, a fugir. As malas ficaram todas no autocarro, ficou tudo para trás. Éramos um grupo de jovens a caminhar em frente, pela berma da estrada, completamente sozinhos e desorientados”, relata Ana Fonseca, licenciada em Biologia, que mora em Coimbra e tinha ido a Viseu visitar o irmão. 

Assim que o autocarro retomou a marcha, ela e outros passageiros voltaram a entrar na viatura e os restantes foram sendo apanhados pelo caminho. Algumas centenas de metros depois, as chamas voltaram a travar a marcha. Ficaram retidos na ponte da Aguieira, junto à barragem, com centenas de outras pessoas que esperavam que o fogo acalmasse para poderem seguir em segurança.

“Ficámos a ver tudo a arder”, diz Ana Fonseca. “Não vou esquecer: a estrada toda escura, só brasas. Foi desolador, não havia mais nada para arder.”

No meio do cenário negro, a estudante Mafalda Lírio, residente em Viseu, destaca o espírito de solidariedade que sentiu ao longo de toda a jornada: “Havia passageiros a tentarem ajudar aqueles que precisavam, a partilhar a pouca água que tinham, comida, os telemóveis, o seu tempo.”

Volvido o susto inicial, o IP3 foi reaberto por volta das 21h40 e o autocarro pôde prosseguir viagem até Coimbra. “Na chegada à estação, demos-lhe [ao motorista] uma salva de palmas, palavras de agradecimento e muitos abraços”, conta Mafalda Lírio ao PÚBLICO.

Ana Fonseca aproveitou para elogiar “a coragem, bravura e lucidez” do motorista de 49 anos, muitos deles passados atrás do volante de autocarros: “Há pessoas que criticam a atitude dele por ter avançado por entre as chamas, mas não havia maneira”, defende. “Foi um esforço conjunto e é também de elogiar a resposta imediata dos bombeiros. Fez a diferença e mostra a resiliência que diziam que não tínhamos.”