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Os cães são mais expressivos quando são observados

Uma equipa de cientistas do Reino Unido revela que a atenção que os humanos dedicam aos cães influencia o número de movimentos faciais destes animais. Investigação confirmou que as expressões são uma forma activa de comunicação

Deitam a língua de fora, franzem o sobrolho, arrebitam as orelhas e até piscam os olhos quando estão na companhia dos donos: parece que a relação dos cães com os seres humanos provoca alterações na forma de comunicar destes animais. Embora as expressões faciais tenham sido consideradas "um sistema inflexível e involuntário de estados emocionais", as diferenças detectadas e referidas num artigo publicado esta quinta-feira, 19 de Outubro, na revista Scientific Reports (do grupo da Nature), sugerem que os cães produzem mais movimentos faciais quando recebem atenção por parte de um humano, principalmente quando a comunicação é estabelecida através do olhar.

Os autores do estudo descobriram ainda que não é a alimentação aquilo que mais afecta as expressões faciais dos cães, o que poderá querer dizer que se trata apenas de um estímulo para o animal que não altera, de forma semelhante, o seu comportamento.

“Agora podemos ter a certeza de que as expressões faciais dos cães estão dependentes do estado de atenção da sua audiência e não são apenas o resultado de cães excitados. No nosso estudo, estes animais produziram muito mais expressões quando alguém estava a olhar, mas ver comida não teve o mesmo efeito”, explica Juliane Kaminski, cientista no Centro de Cognição Canina da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, e principal autora do artigo.

Estas foram as principais conclusões da equipa de cientistas que observou a reacção dos cães à presença humana perante situações distintas. Estas oscilavam entre diferentes comportamentos humanos: uma posição frontal ou de costas voltadas para o animal, mãos posicionadas à frente do corpo ou atrás das costas e apresentar, ou não, alimento a cada um dos cães participantes. O objectivo deste estudo, assinalam os autores, é investigar “se as expressões faciais de cães domésticos estão sujeitas a efeitos de audiência e/ou a mudanças em resposta a um estímulo excitante (como, por exemplo, comida) por si só”.

Os cientistas usaram um "sistema de codificação anatómico" (chamado DogFACS) para captar as alterações ligadas ao movimento muscular dos rostos dos 24 cães de várias raças e idades envolvidos no estudo (13 machos e onze fêmeas). Neste caso, cada animal estava posicionado e preso a um metro de distância do participante humano e os seus movimentos e expressões faciais foram filmados durante situações distintas. Segundo os cientistas, até agora não era conhecido nenhum estudo que tivesse avaliado a influência da atenção do público nas expressões faciais de outras espécies, além dos primatas.

A maioria dos mamíferos produzem expressões faciais — consideradas uma parte importante do repertório comportamental de um animal —, relata o artigo na Scientific Reports. Há muito que se supõe que as expressões faciais de animais, mais do que tentativas para comunicar com outros, são involuntárias e dependentes do estado emocional, em vez de serem respostas flexíveis para o público, adianta o mesmo documento.

“As descobertas parecem apoiar evidências de que os cães são sensíveis à atenção dos seres humanos e que as expressões são tentativas potencialmente activas de comunicação, e não exibições emocionais simples”, conclui Juliane Kaminski. Segundo os autores do estudo, as expressões faciais dos cães podem ter mudado como parte do processo de domesticação, tornando-se “um sistema mais flexível que combina processos emocionais e potencialmente cognitivos”.

Em comunicado enviado pela Universidade de Portsmouth, Juliane Kaminski faz ainda referência a outros estudos relacionados com o comportamento animal em situações que envolvem contacto humano. “Agora sabemos que os cães fazem mais expressões faciais quando o ser humano está a prestar atenção.”

Além da influência da atenção humana nos movimentos faciais dos cães, os investigadores avaliaram se estes animais modificam os seus comportamentos dependendo do grau de atenção de um indivíduo. Mas não chegaram a uma conclusão. Apenas perceberam que a atenção humana não teve efeito em comportamentos não-comunicativos, como sentar e ficar de pé, o que parece apontar “uma função comunicativa específica dessa sensibilidade à atenção humana”. “Existem evidências substanciais que apoiam a importância da visibilidade dos olhos humanos para cães durante interacções comunicativas com humanos”, refere o resumo do artigo. É “impossível dizer se o comportamento dos cães neste e outros estudos evidencia uma compreensão flexível da perspectiva de outros indivíduos, constituindo, assim, uma verdadeira compreensão do estado mental” ou “uma resposta aprendida ao ver o rosto ou os olhos de outro indivíduo”.

Tendo em conta os resultados obtidos na experiência, os investigadores acreditam que “o aumento da produção destes movimentos em resposta à atenção humana pode ser benéfica para os cães" em situações de interacção com pessoas. No entanto, reforçam que as habilidades dos cães para usar a expressão facial como forma de comunicação com os seres humanos não foram examinadas sistematicamente. Se esta alteração é comum entre cães e outros animais, pode significar que a investigação neste campo poderá continuar e estender-se a mais espécies de mamíferos.

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