Reportagem

“Depois disto, o que é que nos segura cá?”

Na freguesia de Ventosa, concelho de Vouzela, contavam-se nesta segunda-feira quatro mortos e as suspeitas não confirmadas de uma quinta vítima mortal. Entre casas, carros, palheiros, animais domésticos e de criação, o fogo queimou “90% do que havia para arder”.

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Adriano Miranda/PÚBLICO
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Mal deu pelas chamas a ameaçarem-lhe a casa, pouco depois da meia-noite, Maria de Lurdes nunca mais parou. “Era uma ventania doida, todos a passar baldes [de água] de uns sítios para os outros. As bilhas de gás — pimba, pumba... — a estourar por tudo quanto era lado. Ardia tudo”, descrevia a sexagenária. Cabelo curto protegido por um boné e a bata suja de cinza, Maria chora quando se lembra que, nem somada à solidariedade instantânea entre os vizinhos, a sua azáfama valeu aos três moradores que, raiado o dia, descobririam carbonizados pelas chamas, algumas casas adiante.

Lugar de Vila Nova, na freguesia de Ventosa, a maior do concelho de Vouzela, distrito de Viseu. O casal que morreu dentro de casa era Laurinda Lourenço, de 62 anos, e Fernando Jesus Lourenço, de 70 anos. Uma irmã deste, Arminda Jesus Lourenço, de 78 anos, que morava na mesma casa, morreu também. E, umas portas mais à frente, uma idosa com mais de 90 anos também não conseguiu resistir ao fumo inalado enquanto uma nora a tentava pôr a salvo das chamas.

Na mesma freguesia de Ventosa, mas no lugar do Covelo, a Polícia Judiciária (PJ) admitia a existência de uma quinta vítima mortal: um idoso de 83 anos que terá ficado soterrado sob os escombros a que o fogo reduziu a sua casa. Porém, o facto de ainda haver brasas no local que ameaçava derrocada impedia, ao início da tarde desta segunda-feira, os técnicos da PJ de procederem às devidas averiguações.

Por toda a aldeia, o cenário era de devastação. Arderam casas, carros, maquinaria e alfaias agrícolas, animais domésticos e gado. Por onde quer que se passasse, viam-se placas de sinalização derretidas ou enegrecidas pelo fumo, cadáveres de ovelhas e cabras carbonizados, cães jazidos no chão presos à trela, quilómetros e quilómetros de terra escura a fumegar, pontuados por pequenas chamas que funcionavam como lembrete do cenário de horror que fora vivido durante a noite.

“Ardeu 90% do que havia para arder”, resume Jorge Paulo Almeida, sujo de cinza e olhos vermelhos do fumo e da noite que passou em claro a distribuir água num carro com dois bombeiros sapadores — os únicos a acudir aos quase 800 habitantes que, segundo os últimos Censos, habitam nesta freguesia. “O fogo parecia um tornado. Havia projecções de um lado para o outro e o vento tanto andava para a esquerda como para a direita, de certeza que a mais de cem quilómetros por hora”, descreve Jorge Almeida, que, feito cicerone, andou com o PÚBLICO numa contabilidade improvisada aos prejuízos: além das casas, anexos e armazéns agrícolas e canastros, como aqui se usa chamar aos espigueiros, arderam um aviário e uma serração.

“Isto foi uma réplica de Pedrógão Grande”, gritava de uma janela uma mulher que se pusera em fuga com um filho de dois anos e que continuou a andar mesmo com um pneu rebentado pelo calor, na povoação de Aguieira, em direcção ao centro da freguesia. O marido Nuno Almeida, de 38 anos, seguiu-a numa carrinha, “aos tombos por todo o lado”. “Não se via um palmo à frente. Mas pelo caminho ainda apanhei dois senhores de idade que estavam aflitos à beira da estrada”, descreve. Juntos, lá conseguiram pôr-se a salvo. Quando, de madrugada, regressaram a casa, descobriram-na incólume, excepção feita a uns barracões anexos.

“Tanta fazia chamar os bombeiros…”

“O fogo queimou as minhas três paróquias e matou-me quatro — não sei se cinco — pessoas”, contabiliza, por seu turno, o padre António de Sousa Fernandes, à porta da sua casa, feita de pedra. Apesar dos 80 anos, o pároco andou entre a 1h e as 11h da manhã a distribuir baldes de água por tudo quanto ardia. “Tanto fazia a gente chamar os bombeiros como não chamar, porque não havia ligações. Vi arder casas que podiam não ter ardido se houvesse meios prontos a actuar”, censura, antecipando “situações de muita dificuldade” entre os sobreviventes.

“Arderam plantações, animais de criação...”, prossegue, com o desalento estampado no rosto a condizer com a negritude à volta da sua casa que só conseguiu salvar porque tem “a sorte de ter água que não precisava de motor para a puxar”. É que a aldeia esteve, e deverá continuar por estes dias, sem electricidade. “Só espero que a Segurança Social ajude esta gente — quase tudo velhos — e não aconteça como em Pedrógão Grande, onde vergonhosamente não se sabe onde foi parar o dinheiro”, remata.

A preocupação pelo que vem a seguir é a que dança também na cabeça de Custódia dos Anjos Moita. É, além da irmã que vive com ela, a única habitante do lugar do Picoto. À volta, tudo destruído. “A nós valeu-nos um sobrinho que nos veio ajudar, porque a gente não se atrevia com este fogo”, descreve a septuagenária, lenço na cabeça, bata por cima da roupa. “Vocês andam a dar alguma ajuda?”, perguntara quando o PÚBLICO se aproximou da sua casa de vidros partidos pelo calor. Ficou sem palheiros e sem lenha para o Inverno. “A sorte é que aqui à volta as casas estão todas vazias. De certezinha que teria morrido mais gente se não fosse assim.”

Em aldeias há muito ameaçadas pelo despovoamento galopante, os mortos confirmados estavam todos ao pé da porta de Maria de Lurdes, no lugar de Vila Nova. “Sabíamos que as pessoas estavam lá, mas não imagina o que isto foi, com fogo por todo o lado. Ninguém conseguiu lá ir. Às tantas, dei por mim a pensar uma coisa que até me custou: ‘Já devem estar mortos.’ E mortos estavam, coitadinhos.” Quando via as notícias de Pedrógão, Maria de Lurdes, que tem nos vizinhos a família que, solteira e sem filhos, nunca teve, costumava benzer-se: “Nós aqui estamos no céu.” Afinal, não. “É um inferno como os outros. Depois disto, o que é que nos segura cá?”