Açores defendem restrições à pesca de tunídeos no Atlântico

Representantes de vários países debatem a pesca sustentável do atum, num congresso na Horta.

Há 590 embarcações licenciadas para pesca do Atum no Atlântico
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Há 590 embarcações licenciadas para pesca do Atum no Atlântico Mário Caldeira

O Governo dos Açores defende que a pesca de tunídeos no Atlântico deve estar sujeita a medidas "mais restritivas", para evitar a utilização de métodos de captura intensivos e impactos negativos nos ecossistemas.

"Propusemos à Comissão Europeia que, no âmbito da Comissão Internacional para a Conservação de Atuns do Atlântico (ICCAT), fosse aplicada uma limitação mais restritiva no uso de FAD [dispositivos artificiais agregadores de peixe] na pescaria de tunídeos, de modo a evitar a sobrepesca e diminuir os impactos negativos do seu uso na rota migratória destas espécies", afirmou esta segunda-feira o secretário regional do Mar, Ciência e Tecnologia dos Açores, Gui Menezes.

O governante, que falava na Horta, na sessão de abertura da I Conferência Internacional de Pesca de Atum de Salto e Vara, a decorrer até quarta-feira na ilha do Faial, insurgiu-se, sobretudo, contra a utilização excessiva de FAD junto à costa africana que, no seu entender, poderá estar a impedir a migração de atuns para os mares dos Açores. Para Gui Menezes, a gestão dos tunídeos, que é feita a nível internacional, deve "discriminar positivamente" artes de pesca mais seletivas, como é o caso do salto e vara com isco vivo, método utilizado pela frota atuneira açoriana e por muitas outras frotas internacionais que se preocupam com a sustentabilidade das pescarias.

"Pretendemos continuar a exigir a diminuição dos dispositivos concentradores de atum e a abertura de corredores migratórios livres destes dispositivos", insistiu o governante, que propõe, também, a criação de "faixas marítimas livres de dispositivos agregadores de peixe" como forma de preservar o futuro dos 'stocks'.
Gui Menezes referiu ainda que a ICCAT aprovou recentemente uma recomendação no sentido de limitar o uso destes dispositivos artificiais agregadores de peixe por embarcação, que passam a estar limitadas ao máximo de 1500 dispositivos a bordo.

"Na nossa opinião, este número é ainda demasiado elevado. No entanto, congratulamo-nos pelo facto de a ICCAT ter criado um grupo de trabalho para estudar o efeito destes dispositivos, embora saibamos que deverá levar algum tempo até obtermos algum resultado", admitiu o secretário regional que tutela as pescas.
Gui Menezes adiantou que nos últimos anos se tem assistido igualmente a uma "deslocalização massiva" das embarcações que pescam atum com a arte de cerco, o que "também está a afetar a abundância de tunídeos" em águas açorianas.

"Pretendemos, pois, que a Comissão Europeia proponha uma restrição no que respeita ao número de embarcações licenciadas a operar com a arte de cerco, destinadas à captura de tunídeos em todo o Atlântico", defendeu o secretário do Mar dos Açores, assinalando que estão licenciadas para este tipo de pescaria cerca de 590 navios.

Para o governante, é muito importante que se valorize artes de pesca mais selectivas, como é o caso da pesca do atum de salto e vara e com isco vivo, que já "faz parte do património social e cultural dos Açores", além de ter um papel "fundamental" para a indústria conserveira da região, que emprega cerca de 900 trabalhadores e labora cerca de 20 mil toneladas de peixe por ano. "Esta é uma indústria que gera, anualmente, cerca de 66 milhões de euros e que tem sabido criar novas linhas de produtos que se têm revelado determinantes na nossa afirmação nos mercados internacionais e cuja qualidade é amplamente reconhecida", destacou Gui Menezes.