Obra coral-sinfónica de James MacMillan no encerramento do Centenário de Fátima

Duas encomendas do Santuário de Fátima a compositores contemporâneos são apresentadas este domingo em Lisboa. Uma delas, The Sun Danced, de James MacMillan, promete mesmo pôr os espectadores a dançar.

O compositor e maestro James MacMillan
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O compositor e maestro James MacMillan

Lisboa acolhe este domingo um concerto especial, no encerramento das comemorações do centenário das aparições de Fátima. À 3.ª sinfonia de Górecki juntam-se duas obras encomendadas pela Comissão Organizadora do Centenário das Aparições de Fátima aos compositores James MacMillan e Eurico Carrapatoso, já estreadas em Fátima no passado dia 13 de Outubro, em sessão solene, com a presença do Presidente da República.

James MacMillan é uma espécie de Bach dos tempos modernos: ele tem uma larga experiência de composição de música religiosa coral e instrumental, semana após semana, para a paróquia local e para diversas localidades na Escócia, onde reside.

Falámos com o compositor em sua casa, um refúgio no parque natural de Clyde, perto da costa ocidental da Escócia. “Escolhi viver aqui, por uma necessidade de solidão e silêncio. É a partir do silêncio que a música pode começar.” Escrever música é tão necessário para ele como “rezar, meditar e contemplar”.

Para James MacMillan, o desafio de escrever uma grande obra religiosa de encomenda para a Igreja Católica não é novo. Em 2010, compôs uma missa para a visita do Papa Bento XVI ao Reino Unido, e foi agraciado pelo Papa em 2012.

Este domingo, às 18h, poderemos ouvir na Fundação Gulbenkian a sua nova obra composta para Fátima, The Sun Danced (“o sol dançou”). A peça tem texto em três línguas diferentes: português, para a parte inicial da aparição do Anjo e um texto traduzido do próprio compositor; latim, para o Sanctissimae Trinitatis; e inglês, para as palavras de Maria (“I am of Heaven”).

Para James MacMillan, “não é tão diferente assim compor com textos literários e com textos da liturgia”. Contudo a particularidade de The Sun Danced é ser “um cruzamento de uma obra litúrgica e de obra de concerto”. O compositor entende que “não faz sentido que o mundo profano e o mundo secular estejam desligados”.

Católico, MacMillan participou contudo frequentemente na sua vida em celebrações da Igreja Anglicana, e tem uma perspectiva aberta em relação à necessidade de espiritualidade. “A religião não é uma coisa separada deste mundo e a música pode abrir uma janela para o sentido do divino”, diz o compositor, para quem a música e a religião são duas paixões interligadas. “A música tem um lado artesanal, mas há um lado misterioso também, que nos faz procurar de onde vêm as ideias e mergulhar na mente de forma mais profunda”, acrescenta.

James MacMillan espera que a sua obra possa contribuir “para que as pessoas da Igreja conheçam melhor a música moderna.” E afirma sem hesitar: “Sou um compositor moderno. Interessa-me profundamente a música do passado, de Bach e Palestrina, mas também a de compositores como Schnittke, Utvolskaya, Górecki, Pärt ou Gubaidulina. E, entre os britânicos, Britten, Tavener e Harvey.” E fala-nos da teologia de Stravinsky, Schoenberg e até de John Cage, lembrando que “o título original de 4'33'' era Silent prayer”. Mas o mais importante compositor para MacMillan foi Messiaen: “Foi ele que mais me disse acerca da procura do divino”.

Na obra agora reapresentada em Lisboa, para além do Coro e da Orquestra Gulbenkian, teremos Elisabete Matos, soprano, escolhida desde o início como solista para The Sun Danced. Na direcção musical, a maestrina Joana Carneiro.

E o sol dança mesmo, nesta obra do compositor escocês, que diz ter procurado “um sentido mais profundo para o milagre de Fátima”. Era sua intenção “amplificar o sentido das aparições de Fátima, cruzando um lado misterioso com qualquer coisa de vivo e físico.” Exactamente como sentiu quando visitou Fátima pela primeira vez: “A mensagem de Fátima não é só objecto de uma investigação intelectual e de uma interpretação, que sei que é controversa. As visões têm um sentido mais profundo. Quando visitei Fátima, achei impressionante o facto de haver muita gente e uma intensidade no viver o catolicismo diferente daquela a que estava habituado na Escócia: uma estranha e bela expressão meridional da religião.”

No concerto, às 18h, no Grande Auditório da Gulbenkian, poderá ouvir-se ainda uma obra de Eurico Carrapatoso, também ela encomendada para as comemorações do centenário de Fátima. Trata-se de um Salve Regina, texto ligado ao culto mariano. No programa do concerto, Carrapatoso confessa ter sido a sua escolha instintiva. “Era a oração preferida da minha mãe”, diz.

Salve Regina para Maria, por Eurico Carrapatoso, e The Sun Danced, de James MacMillan, prometem cruzar moderno e sagrado. Tudo junto, com a 3.ª sinfonia de Górecki, pode ser que faça mesmo o sol dançar.

O jornalista entrevistou James MacMillan na Escócia, viajando a convite do Santuário de Fátima.