Opinião

Os políticos são todos iguais?

Esta ideia corrói a democracia. Haja, pois, coragem para a combater e mostrar as diferenças.

Há um mal profundo na sociedade que corrói a vida democrática. Trata-se da ideia que os políticos são todos iguais. A aparente inocência deste pensamento contém em si um dos aspetos mais negativos no plano democrático, o de que sendo iguais, não vale a pena escolher. E, daí, as taxas de abstenção.

Claro que os políticos são mulheres e homens que choram e riem como todos os outros seres humanos. É certo que no exercício do poder local, parlamentar ou executivo enxameiam os lugares com gente da sua confiança, muitas vezes prevalecendo o “yes, sir” em vez do mínimo de competência. E aí pode haver igualdade.

Repare-se, no entanto, que bastou o PS mudar de rumo (em parte) para que a direita proclamasse o fim do mundo e a chegada do diabo para se notarem diferenças profundas entre uma coligação para empobrecer os pobres e enriquecer os ricos e uma convergência para devolver rendimentos e para estancar a política de empobrecimento geral.

A verdade é que nas eleições autárquicas continuou a ouvir-se essa lamentação para justificar a abstenção. É interessante, no momento em que certos eixos da política mudaram, apreender este fenómeno.

Uma das causas deste mal resulta da desconfiança nos políticos que prometeram tantas coisas positivas e, no poder, rapidamente as puseram de lado. O chamado “arco do governo” frustrou as expectativas de quem esperou pelo cumprimento das promessas anunciadas ao longo de anos em que PS, PSD e CDS se igualavam no mundo das promessas incumpridas.

Outra causa de que se alimenta esta ideia estriba nas sucessivas anestesias que vão sendo servidas em doses cavalares aos cidadãos entalados entre futebóis, telenovelas e revistas cor-de-rosa. As dificuldades dos cidadãos viverem uma vida cheia de problemas, desde que se levantam até que se deitam, percorrendo quilómetros para o emprego e outros tantos para casa, é propiciadora da fuga a esta realidade dura de roer. Na cabeça de quem a vive pode estar este juízo — que se lixem, não vou votar, amanhã nada muda.

Num mundo em que os tubarões são protegidos para comer os pequenos na linguagem do grande português, o Padre António Vieira, há um impulso primário para fugir à realidade e poder escapar a essa crueldade contra a qual parece não haver antídoto.

No entanto, interiorizar que os políticos são todos iguais traduz a ausência de qualquer disponibilidade para se ser ator da sua própria vida e aceitar que os outros decidam por si.

É um ato de covardia cívica, na medida em que se pretende justificar uma conduta com a dos outros. É a afirmação de não que vale a pena escolher. É uma forma consentida de auto-alienação do que se passa na freguesia, no município e no país. É virar as costas ao destino.

Todo o ser humano tem dentro de si impulsos para o melhor ou para o pior. Esta ideia vai no sentido do pior, própria de quem vive de títulos de jornais e de rodapés de televisão. Procuram-se títulos que justifiquem a inércia para que tudo fique como está e se não saia de si para fazer o amanhã diferente. É a desistência.

De outro ângulo, é interessante constatar que, aliada a este juízo, surge, muitas vezes, o de que os políticos são um conjunto de corruptos. Porém, paradoxalmente, há políticos condenados criminalmente por corrupção e, mesmo assim, os eleitores, nalguns casos, votam massivamente, levando-os a ter melhores resultados que partidos parlamentares.

Esta ideia, bem nociva para a vida democrática, é ainda falsa porque os que a proclamam sabem que há partidos que não estiveram nunca no poder nos últimos 40 anos. Para se saber se são todos iguais teria sido necessário que o PCP, o BE, o PEV ou o PAN tivessem estado no Governo e fizessem o que os outros fizeram. Daí a subtileza de, ao proclamar esta ideia, se esteja também a fazer de conta que os partidos que não estiveram no poder não existem.

Outras vezes, como foi o caso de França em que Macron foi ministro de Hollande e nunca se lhe conheceu divergências, são apresentadas pequenas diferenças que ampliadas pelos media servem para repousar as consciências dos que preferem ignorar o passado e ficar à espera de ver o que o futuro traz; só que o futuro exige esforço e nem sempre a disponibilidade vai nessa direção. Para que o sistema se reproduza, é necessário criar a diferença de pormenor, mas que se anuncia ampliando-a urbi et orbi.

Esta malévola ideia de que são todos iguais equivale a dizer que entre as propostas de Cristas e as de Catarina não há diferenças, o que é brutal. Ou que Passos é igual a Jerónimo, no plano político. É aceitar que a diferença deixe de operar por falta de coragem cívica. De um lado, o establishment gritando “Deus nos livre” das esquerdas radicais e, do outro, desmobilizando, grita “são todos iguais”.

Esta ideia corrói a democracia. Haja, pois, coragem para a combater e mostrar as diferenças. E essa cabe, em primeira mão, aos que apostam na participação cidadã na vida pública.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico