Por entre ruas estreitas, a Beira Mar guarda muitas lendas e tradições

Aquele que é o bairro mais emblemático de Aveiro, e que já foi conhecido por “Vila Nova”, é um verdadeiro ninho de estórias e personagens míticas. À boleia da Explore Aveiro, mergulhámos nesses contos, vivências e costumes.

Sabe por que é que Aveiro é uma cidade tão ventosa? E por que razão a sua população acarinha de forma muito especial um “santo” que é de Amarante? E já ouviu falar dessa filha da terra que teve de se disfarçar de homem para combater no Norte de África ao serviço da coroa portuguesa?

Não tem por que se sentir constrangido se não souber a resposta a estas e outras perguntas do género — afinal, estamos a falar de factos e personagens que não constam dos guias turísticos tradicionais — mas registe esta nota: agora, fica mais fácil conhecer estas singularidades menos conhecidas da cidade da ria. Basta aceitar o desafio para participar numa das walking tours temáticas que começaram, há cerca de um ano, a ser promovidas pela empresa Explore Aveiro.

A Fugas aproveitou a boleia numa visita ao bairro típico da Beira Mar, com direito a sentir na pele (na verdade, no corpo todo) essa má fama da cidade — era uma manhã de final de Verão, mas a nortada era tão forte que mais parecia Inverno (não, não estamos a exagerar!) —, e que contou com a participação de gente da terra e, igualmente, de turistas. Era o caso de Fernanda e Marisa Paulino, mãe e filha, respectivamente, que viajaram de Setúbal até Aveiro para uns dias de descanso e passeio. “Vinha muito a Aveiro com o meu marido, fui muito feliz aqui. Quis vir recordar”, conta-nos Fernanda Paulino.

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O périplo tem início naquela que é conhecida como a “Ponte do Laço” (o nome advém do facto de a sua forma se assemelhar a um laço ou ao símbolo do infinito), junto a um dos principais canais urbanos da ria, o canal de São Roque, uma das imagens de marca do bairro da Beira Mar. “Já repararam que este canal tem o nome de um santo que não passou por Aveiro e nem sequer era português (mas sim francês)?”, alerta Suzy Caldeira, a guia de serviço — uma engenheira mecânica que decidiu deixar o sector automóvel para se dedicar à actividade turística, lançando a marca Explore Aveiro. “Como a cidade foi muito fustigada pela peste, levando a que cerca de dois terços da população tivesse morrido ou fugido, as pessoas acabaram por adoptar o nome deste santo francês associado à cura da peste para este canal, que chegou a ser um espaço de construção naval importante na época dos Descobrimentos”, desvenda a guia.

Um pouco mais à frente, ainda sobre o canal de São Roque, encontra-se uma das pontes mais emblemáticas de Aveiro. Em forma de arco, decorada com balaústres e com o brasão da cidade, a Ponte dos Carcavelos é uma das mais antigas de Aveiro — não obstante o facto de ter pouco mais de seis décadas de existência (foi construída em 1953) — e, inquestionavelmente, uma das mais bonitas. A origem do seu nome tem assentado em duas teses completamente distintas: há quem diga que a designação se deve ao facto de a ponte ter a forma da ferramenta usada pelos construtores navais; outros contam que na margem norte da ponte se encontrava uma salina com este nome.

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A Antónia que se disfarçou de António

Nova paragem, nova aula de História. O grupo é conduzido até ao início da Rua Antónia Rodrigues e é apresentado a esta figura ímpar aveirense, também conhecida como “Antónia de Aveiro”. Diz a placa toponímica que “a célebre Antónia de Aveiro, fugindo de casa aos 15 anos, foi, vestida de homem, combater gloriosamente os mouros em Mazagão, onde obrou prodígios de valor, conservando durante anos, com a sua virtude, o segredo do seu sexo”. Antónia Rodrigues (nascida em 1580) foi, durante grande parte da sua vida, António Rodrigues e só deixou de o ser quando quiseram que ele(a) se casasse com a filha de um fidalgo. “Aí, foi obrigada a revelar que era mulher”, relata a guia, antes de conduzir o grupo, por entre ruas estreitas, ladeadas de casas forradas a azulejo, até à Capela de São Bartolomeu, pequeno local de culto (datado de 1568) que só abre ao público uma vez por ano (24 de Agosto, dia consagrado àquele santo) e onde “mora” a explicação para Aveiro ser tão dada a ventos fortes.

“Costuma dizer-se que o vento é obra do diabo e, aqui, em Aveiro, os mais antigos dizem que quando há muito vento é porque a porta da Capela de São Bartolomeu está aberta, uma vez que há a figura de um diabo acorrentado ao santo”, explica Suzy Caldeira. “Este que era um dos 12 discípulos de Jesus tinha, segundo a lenda, poderes exorcistas, uma espécie de cooperação com o diabo, e é muito estimado pelos habitantes deste bairro”, acrescenta a guia, lembrando alguns dos rituais que as gentes da Beira Mar continuam a cumprir com preceito. Para os crentes fica apenas um exemplo: quando alguém é roubado deve ir, à meia-noite, bater à porta da capelinha e dizer três vezes “São Bartolomeu, desprende o teu moço, que faça guerra aquilo que é meu”, e deixar uma moeda preta por baixo da porta.

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Cavacas em nome do santo

Neste passeio pelo pitoresco bairro da Beira Mar — e que, contrariamente ao que se possa pensar, até nem é das zonas mais antigas da cidade, razão pela qual chegou a ser chamado de “Vila Nova” — os visitantes são ainda conduzidos a um outro local de culto de referência da cidade: a capela de São Gonçalinho, o padroeiro do bairro e que, anualmente, no início de Janeiro, serve de pretexto para uma festa muito singular. Do alto da capela em forma hexagonal (e que terá sido construída em 1714), atiram-se milhares de cavacas (um pão doce muito rijo), que são apanhadas pelos populares que se amontoam no largo. Um ritual que, segundo os locais, serve para pagar as promessas ao “santo” — na realidade é beato (mas não ouse chamar-lhe isso junto das gentes do bairro) — que os aveirenses tratam como sendo o seu “menino”.

Curiosamente, “são Gonçalo de Amarante não nasceu aqui e também não existem evidências de que tenha passado por Aveiro”, explica a guia. “Muitos aveirenses querem acreditar que sim, assumindo que ele visitava as ilhas onde se encontravam os doentes, isolados, e lhes lançava pão para que não passassem fome. Podia ser alguém em nome do santo, uma vez que os historiadores contestam que ele alguma vez tenha vivido aqui”, argumenta Suzy Caldeira. Tendo ou não vivido por terras aveirenses, a verdade é que São Gonçalo é acarinhado de forma muito especial por estas bandas e as tradicionais festividades aí estão para o comprovar. Além do ritual de lançamento das cavacas, a festa é feita, ainda, de outras tradições peculiares, como é o caso da “Dança dos Mancos”, que decorre noite dentro, no interior da capela, no maior dos segredos. 

E como passear pelo bairro da Beira Mar é, também, sinónimo de poder apreciar alguns dos mais belos exemplares de Arte Nova de Aveiro, o périplo da Explore Aveiro dedica especial atenção à Casa Major Pessoa, edifício que alberga, desde há alguns anos, o Museu Arte Nova da cidade. Este imóvel, que foi mandado construir em 1904 por um burguês brasileiro — de nome Mário Pessoa —, merece uma visita e convida os visitantes a partirem à descoberta dos outros edifícios que compõem o roteiro dedicado a esta corrente artística.

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Terminamos a caminhada junto ao Rossio, onde é possível assistir ao vaivém de moliceiros ao longo do canal central da ria e à azáfama de turistas que chegam e partem com esta certeza: “Foi muito bom. Descobri muitas coisas que não conhecia”, avalia Fernanda Paulino, sem deixar de notar que teria gostado ainda mais “se as capelas estivessem abertas, acessíveis aos turistas e visitantes”. Terá de ficar para uma próxima, quem sabe numa nova walking tour — a Explore Aveiro oferece também visitas guiadas à Igreja de Santo António, Parque da Cidade, roteiro Arte Nova e ao bairro do Alboi.