Reportagem

Os sonhos são para viver e não para pendurar nas paredes

A Gulbenkian de Paris imaginou e músicos como FM Einheit e Lee Ranaldo, cineastas como Gabriel Abrantes e Apichatpong Weerasethakul e artistas como Alexandre Estrela e Tim Etchells viram ser traduzidas as suas experiências em som. L’ Exposition D’Un Rêve, uma exposição sonora de sonhos.

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O músico alemão FM Einheit, conhecido por ter integrado os Einstürzende Neubauten, e por trabalhos a solo, nos Jardins da Fundação Gulbenkian Márcia Lessa

Entra-se nas salas expositivas da delegação francesa da Gulbenkian e estão esvaziadas. É verdade que, no tecto, estão dispostas 34 colunas, mas nas paredes, ou no chão, não se passa nada, a não ser uns pufes dispostos para quem se queira instalar. E no entanto aquelas salas estão repletas de uma inesgotável polifonia de sons, resultantes de experiências, emoções e sonhos de muita gente, inclusive dos visitantes.

“Não existe um autor, mas uma multiplicidade de autores”, diz-nos o curador da exposição, Mathieu Copeland, explicitando o seu ponto de vista. “A experiência que temos neste espaço é sensorial, tendo no processo da mesma participado múltiplos autores e formatos – textos, composições, desenhos – cada um deles introduzindo novas camadas de leitura, à qual também o ouvinte-espectador acaba por adicionar a sua. Nesse sentido esta é uma polifonia concebida por um autor-múltiplo.”

Esta é L’ Exposition d’un Rève (A Exposição de Um Sonho), que inaugurou no último sábado, aposta expositiva da delegação de Paris da Gulbenkian para os próximos meses – estará patente até 17 de Dezembro. Segundo o director da delegação, Miguel Magalhães, tudo começou nos jardins da fundação em Lisboa quando, em conversas com Mathieu, se desenhou a hipótese de uma exposição “em torno de uma imagem mental.” Foi daí que se evoluiu para os sonhos.

“A proposta que o Mathieu às tantas nos fez foi como dar forma aos sonhos que, no fundo, são imagens mentais. Depois encomendou-se sonhos a vários artistas, que os escreveram, vindo a ser musicados pelo alemão FM Einheit. Agora esses sonhos convertidos em música, que obedecem a desenhos geométricos, ou mandalas, que foram recuperados ou solicitados a artistas, podem ser ouvidos no espaço da exposição, num convite ao público para viver um sonho acordado.”

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Genesis P-Orridge (Throbbing Gristle, Psychic TV) foi uma das doze figuras convidadas para transcrever um sonho

Nos últimos anos Mathieu Copeland, que vive e trabalha em Londres, tem vindo a cultivar uma prática de curadoria onde procura subverter a ideia tradicional de exposição, tentando renovar as percepções do público, tendo co-comissariado Vides. Une Retróspective (2009) no Pompidou de Paris, e organizado outras mostras, como Soundtrack for an Exhibition (2016), no museu de arte contemporânea de Lyon, ou Alan Vega, Infinite Mercy (2009), uma retrospectiva à volta do venerado artista e cantor dos Suicide, que morreu o ano passado.

A sua ligação com o universo sonoro tem muitos anos. No caso da representação de sonhos, pela abstracção e carácter de transcendência, diz que música é talvez a arte que melhor se adapta a esse papel, embora olhe mais para a sua acção como sendo alguém que conecta diferentes disciplinas no processo. “Apesar de estarmos a falar de representações mentais existiram elementos precisos nesta dinâmica, pessoas que escreveram sonhos, outras que os musicaram e outras que recompuseram esses mesmos sonhos para nós, agora, podermos criar a nossa própria imagem deles, num contínuo de reinterpretações.”

Às tantas ouve-se no espaço a voz singular do músico, performer e poeta Genesis P-Orridge (Throbbing Gristle, Psychic TV), envolvida por um som espaçoso. A histórica figura da música inglesa foi um dos dois convidados a transcrever um sonho que optou por compor a sua música. O outro foi o americano Lee Ranaldo (Sonic Youth). O cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul, o artista e encenador inglês Tim Etchells, o artista plástico Alexandre Estrela ou o cineasta Gabriel Abrantes, para além de Susie Green, David Link, Pierre Paulin ou Susan Stenger, viram os seus textos, onde descrevem sonhos enquanto manifestação de desejos ou medos, veículo de vozes do inconsciente ou elemento constitutivo de mitologias, serem musicados por FM Einheit.

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Márcia Lessa

“Foi um grande desafio”, diz-nos o músico alemão FM Einheit, conhecido por ter integrado os Einstürzende Neubauten, por vários projectos colaborativos (de Diamanda Galas aos KMFDM) e diversos trabalhos a solo, em nome próprio, ou como Mufti. “O repto aqui era criar histórias sonoras a partir das histórias dos sonhos, levar essas histórias para Lisboa para lhes adicionar outras histórias e trazê-las para aqui para serem decompostas outra vez.” As doze peças compostas por FM Einheit – gravadas no Grande Auditório e no Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Gulbenkian, com a participação de vários músicos e do coro Gulbenkian – quando chegaram a Paris, foram sujeitas a mais uma interpretação do músico em função de mandalas.

“A organização espacial nem sempre foi fácil”, reconhece, com o som de cada música a ser gravado numa pista autónoma. “O objectivo era desenhar linhas abstractas que recriassem as mandalas”, afirma, ou seja, os diagramas geométricos encomendados a artistas como Phillipe Decrauzat, Myriam Gourfink, Olivier Mosset e Eduardo Terrazas e outros retomados de Almada Negreiros. “Usando e tendo como guia os desenhos das mandalas posso reinterpretar as minhas composições, fragmentando-as e colocando-as em salas diferentes. Existem inúmeras possibilidades, mas tentou-se seguir as mandalas.” Já o visitante poderá ter mais dificuldades em segui-las, mas a experiência imersiva é palpável, com a música envolvente composta por FM Einheit a atribuir imenso espaço ao ouvinte para este se deixar submergir.  

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As sessões de gravação

“A maior parte das pessoas que ouve a música reconhece nela unidade, talvez porque o ensemble com quem trabalhei, em bateria, baixo, tuba, trombone e flauta – para além do coro da Gulbenkian – seja o mesmo sempre, mas apesar das semelhanças, para mim cada canção é única até porque as histórias são muito diversas.”

Para além do catálogo, paginado com o design da colecção Textos Clássicos da Gulbenkian, contendo entrevistas e textos sobre os sonhos, foi também concebido um pequeno livro, que cada visitante recebe à entrada da exposição, com as imagens das mandalas e com os textos das memórias. Ou seja, pode-se deambular pelo espaço lendo os textos produzidos e ouvindo as doze canções ao longo de hora e meia, podendo até repetir-se a experiencia, porque será necessariamente diferente, com a música a ser tocada em função de outras mandalas.

Numa altura em que a experiência da música se banalizou, pela sua omnipresença nos espaços públicos e pela maneira como é consumida, esta é também uma oportunidade para reouvir verdadeiramente. “De alguma forma esse foi também um dos argumentos para esta exposição”, diz Mathieu Copeland. “Parece um paradoxo, termos que trazer a música para um espaço expositivo para lhe dedicarmos a atenção merecida, mas acaba por ser isso sim. Aqui existe tempo, espaço e atenção para uma escuta detalhada e isso vai sendo raro.”

Da mesma opinião comunga FM Einheit. “Com a digitalização a nossa percepção da música mudou, não só porque a audição se degradou, mas também pela forma como a consumimos, acumulando coisas que nunca ouviremos. Nesse sentido no futuro será possível apresentar música de diferentes formas proporcionado uma experiencia mais completa. Para mim esta é uma das formas de a voltarmos a valorizar.”

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Um das mandalas (José de Almada Negreiros, Relação 9/10, 1957) que foi utilizada como guia na reinterpretação das composições de FM Einheit

Apesar do dispositivo não ser novo, poderá ainda haver quem lhe resista, talvez esperando uma exposição mais convencional. “Os sonhos são para viver e não para ficarem pendurados nas paredes”, brinca Mathieu Copeland, numa alusão ao facto de não haver obras materiais, definindo o que pode ser experimentado como uma “paisagem metafísica” para a qual “contribuíram músicos, pintores, escultores ou cineastas que viram ser traduzidas as suas experiências em som.”  

Tendo assumido a direcção da delegação em Janeiro, Miguel Magalhães, também não vê na actual proposta uma fractura em relação ao passado recente da instituição em termos de programação. “Trabalhava de forma próxima com o anterior director, o Professor João Caraça, por isso não existe ruptura, mas apenas uma evolução que é natural e o mesmo tipo de preocupação: colocar artistas e criadores portugueses em diálogo com curadores e outros artistas não portugueses, porque acreditamos que a melhor maneira de mostrar o que está a acontecer em Portugal é fazê-lo de forma aberta e em diálogo com o resto do mundo.”

Do que não parece existir dúvidas é que, em França, neste momento, existe uma nova visão sobre o que se passa em Portugal, graças à visibilidade que o país, e em particular, Lisboa e Porto, foram tendo nos últimos anos. “A diferença é abissal e foi uma mudança rápida”, reflecte Miguel Magalhães, argumentando que a quantidade de franceses que nos últimos anos foi a Portugal ou se instalou no país é um dado importante. “Até há pouco tempo, de forma estereotipada, ainda estávamos ligados à emigração e nesta altura esse entendimento mudou, com muitos franceses a perceberem que existe uma cena artística que é relevante e que existem instituições com propostas meritórias, portanto temos beneficiado com essa maior visibilidade.”

É a contar com esse interesse sobre Portugal que a presente exposição se assume como aposta. “Existe uma vontade firme de nos implantarmos de forma cada vez mais sólida no contexto internacional e no plano artístico parisiense. Estamos no centro das redes e dos circuitos internacionais. Paris permanece uma vitrina para os artistas e para a arte. A questão é encontrar mecanismos que permitam afirmar a actividade da fundação e da criação portuguesa no contexto internacional.”

A presente exposição imaterial, pensada no Jardim Gulbenkian de Lisboa onde o sonho de Calouste Gulbenkian se vai materializando diariamente, constitui um desses mecanismos.