Opinião

A República Mundial das Letras

A lógica da globalização também chegou à literatura e os seus efeitos são bem visíveis. Por enquanto, não há grandes motivos para saudar a nova situação.

Em Portugal, o prémio literário que maior repercussão tem na imprensa, depois do Prémio Camões, é o Booker Prize, um prémio concedido todos os anos a um romance original em inglês, publicado no Reino Unido. Como é óbvio, contam-se pelos dedos as pessoas que em Portugal leram o romance premiado e não serão certamente em número maior as que acompanham, com tal grau de proximidade e actualidade, a vastíssima produção literária do mundo de língua inglesa. Para explicar este entusiasmo pelo Booker Prize não basta evocar o provincianismo que se dá ares de virtude cosmopolita. É preciso olhar para o funcionamento de uma instituição que tem pouco mais de um quarto de século e foi baptizada em 1999 como República Mundial das Letras, pela socióloga francesa Pascale Casanova. Esta república mundial tem o seu meridiano de Greenwich, está orientada para um centro onde passa uma linha imaginária que atravessa o Atlântico. A ecologia literária está sujeita à força poderosa de uma espécie monolingue. Ninguém lhe nega as qualidades universais, mas é tão hegemónica que abole a diversidade do mundo. Seria ingénuo alimentarmos a nostalgia de uma concepção romântica das literaturas nacionais, mas há uma escandalosa desproporção entre os livros de língua inglesa  — no espaço que ocupam na produção editorial, nas exíguas páginas de crítica e divulgação dos media, nas livrarias — e os de todas as outras línguas. Porque é que um escritor português como o Rui Nunes, que publicou este ano, quase simultaneamente, dois livros que têm uma dimensão quase testamentária e são uma experiência dos limites, tem um eco muito menos audível do que um livro em língua inglesa que é preciso não falhar para ganhar um ingresso na República Mundial das Letras? Porque é que um excepcional livro de poesia, como é o livro de Andreia C. Faria, Tão Bela Como Qualquer Rapaz (e aqui ainda é mais doloroso), morre silenciosamente nas duas ou três livrarias do país que o acolhem? Se a existência da literatura no espaço público surge cada vez mais afogada naquela coisa balofa a que chamamos “vida cultural”; se a literatura já não fornece espaço para a vida intelectual; se minguaram as páginas, as revistas e os suplementos que respondiam às exigências mínimas de um espaço público literário; se a proporção dos vários géneros literários na totalidade da produção editorial diminuiu de tal modo que constitui hoje uma parte menoríssima na vasta e próspera indústria do livro; se o pouco que resta, depois de passar por todas estas restrições, é maioritariamente de uma só língua — então, a lógica da República Mundial das Letras não é apenas a de integrar um espaço público transnacional (o que poderia ser uma coisa positiva), mas também a de tornar tudo homogéneo, abolindo a diversidade e repelindo o que não satisfaz os seus critérios de cidadania. É o que acontece com alguns géneros e espécies bibliográficas. Muita da melhor literatura que por cá se edita, assim como a quase totalidade da produção no campo das ciências sociais e humanas, mal chega às livrarias, quanto mais ao espaço da crítica. Nada disto é novidade e tem sido ciclicamente repetido. Não se trata já de identificar crises e anomalias, como há uns anos, porque esta situação tornou-se a regra e é irreversível. A questão está na dificuldade que ainda temos em saber definir esta novo espaço e em perceber se o que vai desaparecendo deixou pura e simplesmente de fazer falta e é um anacronismo tentar restaurá-lo. Como escreveu Gramsci, “o velho mundo está a morrer, mas o novo mundo tarda em aparecer”.