Vitorino canta aos amores inspirado por dois pianos

Com os pianos exigentes de Filipe Raposo e João Paulo Esteves da Silva, Vitorino vai cantar aos amores no Trindade. Sexta e sábado, às 21h30.

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Vitorino ANTÓNIO MARINHO DA SILVA

Uma voz, dois pianos: é assim que vamos ouvir Vitorino duas noites consecutivas no palco do Teatro da Trindade, ao Chiado, em Lisboa. Sexta e sábado (às 21h30) ele vai apresentar com os pianistas Filipe Raposo e João Paulo Esteves da Silva um concerto a que deu o nome de uma antiga canção de Tomaz Alcaide, O Amor é Cego e Vê. Este espectáculo faz parte do ciclo Há Música no Trindade, no qual já actuaram Tatanka, Yamandu Costa, José Manuel Neto e Dead Combo (Salvador Sobral estava anunciado, mas por razões de saúde o concerto foi cancelado) e onde ainda se ouvirão Frankie Chavez (27 e 28 de Outubro) e Mário Laginha com Tcheka (15 e 16 de Dezembro).

“São dois amigos que trabalham comigo há muitos anos”, diz Vitorino ao PÚBLICO. “O João Paulo fez comigo um disco de ruptura, que é memorável, Eu Que Me Comovo Por Tudo e Por Nada, com textos do António Lobo Antunes e com o apoio de uma pequena orquestra de câmara. Com o Filipe trabalho há menos tempo, porque ele é mais novo.” O trabalho com ambos tem sido intensivo. “O Filipe tem feito arranjos para orquestra e é impecável, é perfeccionista. E o João Paulo, enquanto estudante em Paris, ganhou o prémio de perfectionnement. Isso faz com que eu, que sou um preguiçoso profissional (se pudesse, mas isso já o Lafargue fez, fazia o elogio da preguiça como ideologia), seja obrigado a trabalhar, porque eles são muito rigorosos comigo: nos horários, no trabalho, nos ensaios. Mas é muito compensador, porque são de um bom gosto extremo. E há canções que, vestidas por eles, ficam de uma elegância absolutamente inesperada.” É, diz Vitorino, o caso de Vendaval, um tema que fez história na voz de Tony de Matos: “Vou fazer uma homenagem ao Tony de Matos, que era um grande amigo meu [foi Vitorino que o trouxe de novo à ribalta, em 1985] e é uma canção extraordinária.”

Dois inéditos

Vão tocar essencialmente a quatro mãos e os arranjos foram feitos, em grande parte, em conjunto. “Eu tenho ali quase uma orquestra. Vamos fazer dois inéditos, uma canção de cada um deles, para os quais eu fiz o texto. Aí, cada um toca a sua. Um chama-se Porta de Damasco (do João Paulo) e a outra Traz a água e o vinho (do Filipe).” Vitorino explica a razão de ser do tema do concerto, retirado literalmente da canção O amor é cego e vê, cantada por Tomás Alcaide no filme Bocage, de Leitão de Barros, de 1936 (e retomada por Eugénia Melo e Castro, que fez dela título de um disco seu, editado em 1990). “O Amor é Cego é um boneco de Estremoz. Um anjo cego, muito profano, lindíssimo. Inspirei-me mais no anjo, para o título. Então vamos fazer uma homenagem ao Tomás Alcaide, que é de Estremoz, e é provável que a canção tenha a ver com esse boneco.”

Joni Mitchell e Brel

O alinhamento foi, todo ele, acertado em conjunto pelos três. “Neste contexto”, diz Vitorino, “escolhemos canções mais de amor. Vou atrever-me a cantar em inglês pela segunda vez na minha vida (quando era adolescente é que cantava Bob Dylan), uma homenagem à Joni Mitchell, que está muito doente. Ela era muito querida em Portugal, mas veio cá pouco. Fizeram-lhe cá uma homenagem, cantoras portuguesas, uma coisa fantástica [Joining Mitchell, na noite de 14 de Novembro de 2013, no CCB]. Aqui vou homenageá-la porque sou um grande admirador. O Both Sides Now é todo ele uma obra-prima, o disco, os arranjos, a capa com um auto-retrato pintado por ela. Tem um talento extremo. Vou cantar num inglês tipo alentejano, macarrónico, Answer me, my love.”

Não só em inglês. Vitorino vai cantar também em francês, de Jacques Brel, La chanson des vieux amants. “Fica na lógica do Amor é Cego. Mas aqui já puxo dos galões, porque canto bem em francês. Vivi lá uns tempos e adaptei-me muito à cultura francesa que, muita gente esquece-se, é uma cultura latina e é muito mais fácil para nós.”