A crise, o caos e o hip-hop: outras escalas do FIMP

São 14 os espectáculos da edição 2017 do Festival Internacional de Marionetas do Porto. Eis três apostas internacionais.

<i>Ressacs</i>, pela Compagnie Gare Centrale
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Ressacs, pela Compagnie Gare Centrale

Ressacs, pela Compagnie Gare Centrale

Dia 14 às 21h30, dia 15 às 17h; Teatro Municipal Rivoli

Enfeitiçada por quinquilharia e bibelots desde sempre, sobretudo pelas miniaturas que reproduzem (e reduzem) a esmagadora parafernália do mundo em que vivemos a uma escala manuseável, mas não necessariamente dócil, Agnès Limbos, figura tutelar do teatro de objectos europeu, tem sabido dar uso a tudo o que foi acumulando em casa nos espectáculos da sua companhia, a Gare Centrale, que fundou em Bruxelas em 1984. Ressacs, a peça com que se estreia no FIMP, volta a juntá-la ao trompetista Grégory Houben, desta vez para recriar a história trágica (e no caso mesmo trágico-marítima…) da ascensão e da queda do capitalismo, recuando até aos pecados originais da escravatura e da predação colonial e avançando — com todo o humor negro que a má consciência belga aconselha, mas sempre com o ar de quem está só a brincar às casinhas… — até às crises só aparentemente financeiras do subprime e da dívida soberana que liquidaram a classe média tal como a conhecíamos.

Gobo. Digital Glossary, pelo Akhe Engineering Theatre

Dia 21 às 21h30; Teatro Municipal Rivoli

De regresso ao FIMP depois de uma primeira apresentação na edição de 2010, Gobo. Digital Glossary — “uma das mais importantes e icónicas peças de teatro visual do início do século XXI”, defende o director do festival, Igor Gandra — transplanta o questionamento existencial de À Espera de Godot (a peça perfeita de Samuel Beckett com que a personagem evocada no título não deixa simbolicamente de rimar) para um mundo caótico e desconcertantemente retrofuturista povoado por aquários, robôs, ecrãs, câmaras, raios laser e dúzias de outros objectos. Maksim Isaev e Pavel Semchenko, os orquestradores deste happening composto por cerca de 17 vinhetas (e da aventura muito particular que tem sido esta companhia estabelecida em São Petersburgo desde 1989), compõem dois “clowns filosóficos” que de novo é impossível não reconduzir à dupla da peça de Beckett — agora sob o efeito de anfetaminas e de uma desgovernada pulsão pirómana.

Puppetmastaz

Dia 28 às 22h; Hard Club

Caberá à autoproclamada primeira toys band do mundo encerrar esta edição do FIMP, com um concerto em que apresentará o seu mais recente álbum, Keep Yo Animal!, editado já este ano — e sim, será mais ou menos como ver uma crew de Marretas (agora a sério: trata-se mesmo de um bando de fantoches que se dedica ao hip-hop). Formados em 1996 e sediados em Berlim (Chilly Gonzalez já foi membro, assim como outros canadianos da diáspora), os Puppetmastaz lançaram o primeiro álbum de originais, Creature Funk, em 2003, a que se seguiram Creature Shock Radio (2006), The Takeover (2008), The Break Up (2009) e Revolve and Set Up (2012) e actuam regularmente em festivais europeus para lotações de milhares de pessoas — que aconselham a levar para os concertos, para fazerem número, as marionetas que têm em casa…

PÚBLICO -
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Gobo. Digital Glossary, pelo Akhe Engineering Theatre
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Puppetmastaz