Crítica

Buika a meio caminho

Para Mí é um meio disco, compasso de espera para algo maior. Mas suficientemente intenso para agradar.

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Buika: Para Mí é um disco a meio caminho, compasso de espera para algo maiom CLÁUDIA ANDRADE/ARQUIVO

Buika é uma voz que se impôs e cativou pelo flamenco, não é uma voz exclusivamente flamenca. Desde o disco de estreia, Buika (2005), que isso é claro. Porém, o que depois gravou sob a supervisão de Javier Limón (três excelentes trabalhos, Mi Niña Lola, 2006; Niña de Fuego, 2008; e El Último Trago, 2009) impô-la como voz flamenca e a isso o mundo se habituou, mesmo quando cantava La Bohème de Aznavour ou standards em inglês. Mas esse lugar cimeiro sofreu um abalo com La Noche Más Larga (2013), disco onde um estranho desgarramento se sobrepôs à natural estranha visceralidade da sua arte, recuperando em Vivir Sin Miedo (2015), bem mais equilibrado e entusiasmante.

O disco que agora chega às lojas portuguesas, e que teve antes “primeira vida” nas plataformas digitais, mantém a força de Vivir Sin Miedo, mas é um meio disco, tal como o concerto dela no Coliseu de Lisboa, na noite de 29 de Setembro, foi um meio concerto: apenas 5 temas (um EP de cinco temas, dos quais três são versões) a par dos escassos 12, já com encores, interpretados ao vivo. Esta opção minimalista é compensada, no disco (muito mais do que no concerto), por interpretações emocionadas e intensas. Em regravações de clássicos flamencos (Ni contigo ni sin ti, de Manzanita; e Dios de la nada, de Camarón de la Isla), ela brilha no seu fogo antigo, e na tarantela Pizzica diTorchiarollo cumpre com desenvoltura num género que não lhe é familiar (só o trombone de varas, ali deslocado, irrita sobremaneira nos intermezzos instrumentais, o que não sucede com a guitarra flamenca). Por, fim, as duas composições inéditas, ambas com assinatura dela, valem o EP.

Para Mí, num sussurro ao ouvido, é uma balada de amor em combustão, e Hijos de la luna é um reggae universal, bilingue (em espanhol e inglês), dilacerado mas remotamente esperançoso. Buika justifica Para Mí com a escassez de tempo de que cada um dispõe para si próprio nos dias de hoje. Para Mí é, portanto, para que cada um de nós o ouça em recato, como um tempo ganho para cada indivíduo. E sintetiza essa ideia numa frase que pôs a abrir o seu site: “De repente, ter tempo para ouvir é complicado. Daí o título e as canções seleccionadas.” Mas teríamos nós mais tempo para ouvi-la do que ela dispôs para gravar. Para Mí é, assim, um disco a meio caminho, compasso de espera para algo maior.