Crítica

Apologia do esquecimento

Ao segundo álbum os canadianos Alvvays arrancam uma sequência memorável de refrões extraordinários.

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Antisocialites é um disco cheio de tristeza mas que procura sempre o caminho mais curto para a beleza

Agora que o verão acabou, que regressamos à melancolia das canções outonais, dos casacos mais grossos, da vida como ela é, podemos começar a ter saudades das canções que, durante três minutos, nos fizeram esquecer o irs, os filhos, o trabalho e acreditar que, no intervalo de três minutos (ou um biquini), poderíamos viver apenas para aquele momento que (sabemos bem) não podemos perpetuar, aquele momento sem mácula, sem auto-consciência, de puro prazer?

Antisocialites, o segundo disco dos canadianos Alvvays é isso: aquele estado entre a dormência e a euforia, associado ao fim de qualquer coisa, quando a noite entra porta adentro mas ainda nos agarramos à escassa luz que morre nas frestas da persiana e esse bocadinho de luz ganha foros de sistema solar. É todo um programa, que é enunciado na décima e última canção de um disco que oscila entre o onírico e o frenesim: “Do you want to forget about life with me tonight?/Inhaling this undrinkable wine/ (Forget everything tonight)/ Forget about life with me tonight?”, canta Molly Rankin, talvez sem se aperceber que esta é a definição de pop: três minutos de êxtase fugaz que nos retiram do mundo dos problemas. Antisocialites entra de forma gloriosa, com a pop suja de In undertow a misturar os Jesus and Mary Chain e flautas pastorais, seguida da pop (perdoem a repetição: gloriosa) de Dreams tonite, canção sonhadora, repleta de teclados e coros, em que, como em quase todos os temas, se recorda um amor perdido (Alvvays, o primeiro disco, de 2014, era o princípio de verão, com todas as suas possibilidades; este é a ressaca).

Nessas duas canções há um modus operandi que se perpetua disco afora, entre a power pop de guitarras e as múltiplas camadas etéreas que os teclados trazem, numa inesperada ponte entre os Sundays e os Notwist. Que fazer perante a frescura de Your type, em que um refrão surge como uma luz a meio do túnel, ou Not my baby, que descamba numa intrincada e gloriosa rede de harmonias em crescendo? Estas duas canções, que surgem uma após a outra, numa sequência admirável, devolvem o indie rock de guitarras ao seu lugar de eleição: o da melodia que resplandece no meio da sujidade. Será assim até ao fim, melodias e mais melodias que brotam do cruzamento de guitarras, melodias que querem impor a precária alegria de um refrão enquanto o refrão for possível, antes do dilúvio. É essa a beleza de Antisocialites — um disco cheio de tristeza mas que procura sempre o caminho mais curto para a beleza, como um patinho feio que se torna admirável pavão na curva de um refrão. “Do you want to forget about life with me tonight?”, pergunta Molly Rankin. É para esta momentânea alegria do esquecimento que a pop serve.