Editorial

O relatório de Pedrógão põe o Governo em xeque

Ao fim de três meses já sabemos o que aconteceu e quem é responsável. Só falta saber quando sai a ministra e alguém pede desculpa.

António Costa recebeu o relatório independente sobre Pedrógão Grande e decidiu falar aos portugueses depois de ler “a síntese que foi entregue aos jornalistas”. É uma triste imagem — mas era a única maneira de se poder mostrar ao país sem se esconder de vergonha, com a ministra da Protecção Civil e o das Florestas ao lado.

Vergonha porque o relatório põe em xeque o que o próprio Costa anda há um ano a dizer ao país: que foi ele, enquanto ministro da Administração Interna, que fez há dez anos a “grande reforma” do combate aos incêndios — e que agora o que era preciso era fazer outra “grande reforma”, a das florestas. Costa disse-nos isto antes e depois de Pedrógão. E agora lerá o oposto, no relatório dos técnicos: um atestado de falência ao nosso dispositivo de combate aos incêndios.

Os especialistas são claríssimos nisso: em Portugal combate-se o fogo com os pés. Ignoram-se os novos conhecimentos técnicos, despreza-se o conhecimento acumulado, afastam-se os competentes — para nomear os amigos —, não se profissionaliza os bombeiros, não se coordenam os meios, muda-se permanentemente o modo de governação do sistema.

Mas vergonha também pelo que se passou em Pedrógão. Durante estes três meses, a linha de defesa do Governo teve três argumentos: que o downburst foi a condição determinante para a tragédia; que o SIRESP tinha falhado; e que não tinha havido um problema de meios na resposta ao incêndio, só um excesso de ocorrências. A resposta do relatório mostra-nos o mundo ao contrário: a meteorologia foi importante, sim, mas só a partir das 18h; o SIRESP não está actualizado, mas não foi crucial; e a resposta da Protecção Civil e do sistema de combate, essa, foi pior do que alguém se atreveu a antecipar.

Em Pedrógão Grande, morreram (pelo menos) 64 pessoas. E já ninguém pode dizer, de consciência limpa, que se fez tudo o que era possível para o evitar. Todos sabiam que as condições no terreno eram de alto risco, todos ouviram os alertas do IPMA, mas o Estado não mobilizou mais meios, a Protecção Civil não actuou a tempo, nem avisou a GNR para salvar as pessoas.

Ao fim de três meses já sabemos o que aconteceu e quem é responsável. Já percebemos que Costa vai, afinal, mudar o combate aos incêndios e aceitar as recomendações dos peritos. Só falta saber quando sai a ministra e alguém pede desculpa. É isso: “Confessar fracassos, sem temores ou inibições, [reconhecer] o que correu mal ou muito mal — ainda que isso nos apareça como intolerável fragilidade própria.” Não foi isto que disse no 5 de Outubro, senhor Presidente?

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