A difícil travessia entre o Barreiro e o Terreiro do Paço

Na sequência de uma semana conturbada para os passageiros da carreira Barreiro-Terreiro do Paço, o Público foi ao local avaliar a situação e o desempenho da Soflusa perante as queixas dos passageiros

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Ricardo Lopes
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O relógio marcava 7h48 e a neblina matinal ainda envolvia a estação fluvial do Barreiro onde os passageiros se acumulavam perto das cancelas, na esperança de conseguirem embarcar o mais rapidamente possível. Foi uma semana difícil para os utentes da Soflusa, a quem a empresa não conseguiu dar resposta depois de ter reduzido a sua frota de seis para quatro embarcações para proceder a reparações. A redução da oferta gerou revolta e, apesar de ter havido um pequeno reforço, os ânimos continuam revoltados.

Depois de um início de semana atribulado, em que houve passageiros a sentirem-se mal o que obrigou a chamadas para o INEM e se assistiu a algum destruição parcial da estação do Barreiro, a empresa decidiu colocar na quarta-feira à tarde uma nova embarcação de reserva em circulação, embora mais pequena que as outras.

Mas na memória dos passageiros estão as imagens dos primeiros dias. Viveram-se momentos de pânico que Ima Amaro, de 38 anos, espera não ter de voltar a presenciar. “Vi que as pessoas se exaltavam de tal forma que fiquei assustada,” declara a tesoureira. “Saltavam as cancelas e até pensei que a Soflusa iria parar as carreiras por completo já que era quase impossível controlar a multidão”, acrescenta.

Para os residentes que têm que atravessar o rio para chegar aos seus empregos, a situação era desesperante já que não são muitas as pessoas que têm flexibilidade horária para evitar a hora de ponta, como a Soflusa pediu. “Todos os dias têm sido horríveis, todas estas supressões e nós como utentes sentimo-nos lesados pois pagamos passe”, acusa Cristina Santos, trabalhadora num call-center em Lisboa. “Se não pagamos passe somos multados. Portanto, se não há as carreiras, penso que a Soflusa devia pagar multas também, não?”

O sentimento de injustiça é comum à maioria dos utentes. E dizem-se revoltados com o pedido da Soflusa para mudarem horários e serem pacientes. “As pessoas têm que entrar a uma determinada hora no trabalho e acho incorrecto pedir isto quando é algo que vai claramente prejudicar quem se desloca, é difícil contornar horários de trabalho”, diz Rafael, estudante universitário.

Perto das 7h58, horário anunciado como de partida no quadro luminoso, não há qualquer barco à vista. Ontem, apesar de algum desconforto, os passageiros já parecem mais resignados com a situação, esperando pacientemente atrás das cancelas. A multidão vai aumentando, fruto da constante chegada de autocarros ao local. Uma embarcação acaba por chegar e quando volta a sair, as cancelas abrem mas nem todos conseguem entrar para a sala de espera que dará acesso ao barco seguinte. Quem fica do lado de fora mostra sinais de exasperação, como é o caso de Rute Mendonça, que se dirige à bilheteira a pedir explicações. Quando estas lhe são negadas, pede uma justificação para o atraso para entregar no emprego. É-lhe imediatamente entregue um papel, o que indicia que este passou a ser um pedido comum.

“Eu trabalho em Oeiras e a minha empresa não tolera, de maneira nenhuma, atrasos. Eu avisei no trabalho mas tenho que apanhar um shuttle no Marquês de Pombal. Se não o apanhar tenho que esperar uma hora até ao seguinte”, conta, frustrada. Pretendia apanhar o barco das 8h30, que segundo o quadro luminoso não existe e, entretanto, chega um barco por volta das 8h31 para o qual as cancelas já não a deixaram entrar. Resta-lhe esperar.

Esta travessia, num dia normal, costuma sempre ter uma grande afluência e muitas vezes chega mesmo a ter lotação esgotada. E apesar de já ter havido percalços na oferta, como a greve do ano passado, o que aconteceu esta semana foi mais grave. Mas apesar da situação continuar longe de regularizada, são sentidas algumas melhorias desde a adição do novo navio de reserva à frota.

No final da hora de ponta, a multidão começa a reduzir e o único sentimento que permanece é a incerteza sobre se vai ou não haver transporte para Lisboa. A viagem até ao Terreiro do Paço, feita na embarcação das 8h55 (que chega às horas previstas) já se faz sem atropelos. Fica apenas o apelo dos passageiros: o regresso à normalidade.

Texto editado por Ana Fernandes