Vasco Ferreira, o "leão" da serra que perdeu uma Taça para o Oleiros

Antes mesmo de medir forças com o Sporting, o clube beirão já fez história na Taça de Portugal.

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A perspectiva de eliminar o Sporting é garantidamente uma imagem bem mais nítida no imaginário de Oleiros quando comparada com a visibilidade da vila no mapa futebolístico. Desligados os holofotes da tragédia que atingiu a região, Portugal volta a centrar-se naquele pequeno fragmento da Beira Baixa, agora por motivos mais reconfortantes. Pelo menos por um dia, o verde promete cobrir de novo uma região oprimida pelo fogo e pelo fumo.

Aos “leões” espera-os, esta noite (20h15), na 3.ª eliminatória da Taça de Portugal, um tratamento VIP, a começar pelo tapete novinho em folha, uma espécie de presente envenenado. O sintético da ARC Oleiros configura, porém, trunfo risível, mesmo que venha a atenuar um pouco o desnível abissal entre um clube com pouco mais de uma época nos campeonatos nacionais e um histórico com o peso e tradição do Sporting.

Tudo somado, a grande vantagem dos homens da casa reside na união e espírito de solidariedade, o único sentimento capaz de derrotar estrelas e orçamentos de diferentes galáxias. Esta é, certamente, a convicção dos cerca de 2500 oleirenses, mas também de um jovem estudante de Economia, que diariamente cumpre duas horas de viagem (ida e volta) entre Coimbra e Oleiros, juntamente com quatro companheiros de equipa, para alimentar o sonho de um dia poder contar mais do que mera história... Uma verdadeira epopeia.

Por ironia, Vasco Ferreira, médio de 19 anos, nasceu numa família sportinguista. Mas os laços com os “leões” acabaram por não resistir aos últimos cinco anos de formação, divididos entre o Sp. Covilhã e a Académica. Vasco diz-se, antes, um “leão” da Serra, que até sabe o que é sofrer às mãos do Oleiros.

“Sou do Oleiros desde pequenino”, avisa, como que a armar um ataque fulminante à área adversária. “Agora a sério, agrada-me mais a ideia de ser adepto do clube da minha região do que de um grande. No meu caso, simpatizo obviamente com o Sp. Covilhã e não posso esconder, apesar de só ter chegado aqui esta época, um carinho especial pelo Oleiros. É este sentimento de união, confraternização e solidariedade que encontramos em clubes como o Oleiros que faz a verdadeira força e identidade dos clubes”, explica, recordando o primeiro contacto com o clube. “Há dois anos, ainda na equipa B do Sp. Covilhã, defrontei o Oleiros na final da Taça da AF Castelo Branco. E perdemos. Este ano já começámos a escrever uma história diferente e, se nos deixarem, vamos tentar uma surpresa”, adverte Vasco Ferreira.

“Autêntica revolução”

Pela primeira vez na história, o Oleiros, que compete na Série C do Campeonato de Portugal, não foi eliminado na primeira ronda da Taça e já deixou pelo caminho o Alcanenense e o Sousense. E o adversário que se segue não deixa ninguém indiferente. “A notícia provocou uma autêntica revolução. O jogo com o Sporting é um tema incontornável. Depois há as obras no estádio, a corrida aos bilhetes. Toda a gente quer ir ao jogo, mas não há bilhetes suficientes. As entradas esgotaram num ápice e isso é uma injustiça, pois ninguém quer faltar a este jogo”, declara.

O uso de um novo relvado sintético também tem motivado o debate pré-jogo, mas Vasco sacode a influência que possa ter no desfecho da eliminatória. “Se podemos tirar algum partido? Podemos. Mas a vantagem não é nossa. Com a qualidade do plantel do Sporting não será o sintético a decidir nada. Agora, não nego que todos os jogadores do Oleiros estão ansiosos e entusiasmados. No fundo, o importante é desfrutar, sejam 90 ou 120 minutos, e ver se conseguimos algo mais. Na verdade, não seríamos os primeiros tomba-gigantes”.

Apesar de tudo, a alegria e o entusiasmo não mitigam o sofrimento gerado pela tragédia de Pedrógão Grande. Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, anunciou já que o clube doará a receita — mais duas camisolas autografadas pelo plantel, para leiloar — aos bombeiros de Oleiros. “É um gesto nobre e importante. Os incêndios afectaram profundamente a região. O Oleiros já teve que cancelar um treino em Pedrógão porque a Protecção Civil ordenou o corte das estradas. Nesse momento não podemos apagar o que aconteceu”, concede, antes de recuperar um registo mais consentâneo com o espírito da prova-rainha, até porque este jogo pode ser uma oportunidade para muitos companheiros, independentemente das escolhas de Jorge Jesus ou da possibilidade de o Oleiros defrontar um Sporting “menor”.

“O que conta são as camisolas, a instituição. Daqui a 20 anos ninguém quer saber se jogou o Bas Dost ou um avançado da equipa B. A efeméride é a recepção ao Sporting. Pouco importam os nomes. A qualidade será sempre elevadíssima e o momento incrível. Só isso já seria suficiente para um dia contarmos aos nossos netos”, defende.

A tirar o curso de Economia, em Coimbra, o médio do Oleiros quer preparar atempadamente o futuro, mas sem fechar a porta a uma daquelas surpresas que por vezes acontecem no futebol: “Um jogo pode mudar tudo. Um golo ao Sporting pode fazer toda a diferença”, antecipa, sem querer dar trunfos ao adversário por revelar demasiado sobre as individualidades da equipa.

Mas com oito golos esta época (muito à custa de um póquer e de um hat-trick) o brasileiro Jackson  dispensa já grandes apresentações. E nem Vasco resiste a um comentário. “É daqueles jogadores que está claramente na divisão errada. Qualquer um percebe que podia estar na II Liga ou até na I”, remata, sem abdicar do tal sonho irrealista de imaginar festa de arromba na Taça.

 

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