Crítica

A vida dos famosos

Um curioso “filme do meio”, competente e profissional, sobre os primeiros tempos da cultura da celebridade e o seu impacto em atletas de competição.

Foto

Confessávamos não ter grandes expectativas para esta primeira longa de ficção do dinamarquês Janus Metz, que o marketing vende, enganadoramente, como uma recriação da rivalidade entre os tenistas Björn Borg e John McEnroe durante o torneio de Wimbledon de 1980. E enganadoramente porque, na Escandinávia, o filme chama-se apenas Borg — na verdade, é uma espécie de biografia do tenista sueco contada através dessa campanha de Wimbledon, “pico” de uma carreira fulgurante que o viu tornar-se num fenómeno mediático e de popularidade sem igual. McEnroe é uma personagem secundária que funciona como “espelho quebrado” de Borg – ambos começando como adolescentes dispostos a tudo para provar o seu talento para se tornarem em atletas de competição com problemas emocionais.

Borg vs McEnroe é filmado com toda a competência discreta e algo impessoal que reconhecemos à indústria escandinava, e o argumento não procura sequer evitar todos os rodriguinhos do cinema desportivo. Mas – e é aqui que as expectativas são invertidas — é agradável reconhecer um profissionalismo que não se fica pela superfície, uma inteligência de montagem que torna os constantes flashbacks significativos em vez de supérfluos, e uma curiosa pirueta de argumento que explica a relevância contemporânea desta história. No fundo, este é um filme sobre a exploração da cultura da celebridade que se tornou comum nos quase 40 anos desde os acontecimentos aqui contados, um olhar desencantado sobre o ponto em que o desporto deixa de ser apenas desporto para ser outra coisa, com os atletas como vedetas mediáticas globais apanhadas em engrenagens que os transcendiam e manietavam. Vai-se a ver, Borg vs McEnroe podia chamar-se Ronaldo vs Messi que era capaz de não ser muito diferente. Não é um grande filme, é certo, mas é um curioso “filme do meio”, com mais cabeça do que seria de esperar.