Testes de estrada de veículos automáticos começam em Lisboa em 2018

Projecto internacional em que participa a Universidade de Coimbra vai pôr veículos autónomos a circular na CREL.

Os testes também vão ser realizados em Paris e Madrid
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Os testes também vão ser realizados em Paris e Madrid DANIEL ROCHA

Os primeiros testes em Portugal com veículos autónomos em estrada vão começar em Outubro do próximo ano num trecho da A9, a Circular Regional Exterior de Lisboa (CREL). É uma antevisão de um futuro que poderá chegar dentro de poucas décadas.

A par com Madrid e Paris, a capital portuguesa será palco de testes do projecto AUTOCITS, apresentado esta terça-feira em Oeiras numa sessão de trabalho organizada pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) e pela empresa tecnológica espanhola Indra.

Cristiano Premebida, do Departamento de Engenharia Electrotécnica da Universidade de Coimbra, disse à agência Lusa que os testes vão decorrer em locais já determinados numa faixa de sete quilómetros entre a Avenida Marginal e o cruzamento da A9-CREL com a A16.

"Contamos ter veículos convencionais, instrumentalizados e autónomos", afirmou o investigador, adiantando que os testes decorrerão em "corredores de segurança", acompanhados por autoridades policiais, e sempre em carros com condutores a bordo.

"Esperamos não ter muita interferência com outros condutores, está provado que mudam o comportamento quando percebem que estão na presença de um veículo completamente automatizado, ficam nervosos, por exemplo", disse Premebida.

A par dos testes na CREL, a equipa multinacional vai ensaiar veículos sem condutor a fazer serviço de vaivém entre o parque de estacionamento e vários edifícios do complexo do Instituto Pedro Nunes, em Coimbra, num percurso de cerca de 500 metros.

Ao longo dos percursos, serão instaladas estações de sensores e transmissão de dados de que depende o sistema de veículos sem condutor para funcionar em segurança.

Obstáculos na estrada, condições meteorológicas diferentes, veículos avariados, manutenção a decorrer, veículos em marcha lenta são cenários que serão testados e que tornam essencial a comunicação entre todos os componentes do sistema.

Essas informações têm que chegar ao mesmo tempo a todos os veículos ligados ao centro de controlo de tráfego, e, num sistema automatizado, determinará acções como abrandar ou mudar de faixa.

Cristiano Premebida afirmou que ainda não está definido o tipo de testes que serão feitos. A sua complexidade dependerá do nível de maturidade e automatização dos veículos.

Virão carros de França, de Espanha e participará um veículo modificado pela Universidade de Aveiro e os testes serão também abertos a empresas e marcas automóveis que queiram participar.

O especialista em Direito Rodoviário Ricardo Fonseca, da ANSR, considerou que a circulação de veículos automatizados será uma realidade generalizada "dentro de vinte a trinta anos" e destacou todas as questões legais que levanta, desde a responsabilidade dos condutores à própria definição do que é um veículo automático.

A "principal urgência legislativa" para levar mais longe estes testes e chegar a essa realidade futura é criar "legislação para permitir testes sem condutor", defendeu Fonseca.

As convenções nas quais se baseiam praticamente todas as legislações rodoviárias são de 1949 e 1968 e, desde logo, estabelecem que só podem circular veículos com condutor.

Numa escala de 0 a 5, a automatização total ainda não existe, mas na estrada já são norma veículos com funções automáticas como a direcção ou travagem assistida ou os assistentes de estacionamento.

Num sistema de veículos autónomos, há três níveis teóricos possíveis, de complexidade crescente: uma via única, dedicada, em que os veículos automáticos circulam "fechados" atrás e à frente por veículos de controlo; duas vias simultâneas, em que se pode mudar de faixa, ou sem restrições, em que os automáticos circulam por entre outros veículos.