Como é que a febre no início da gravidez pode afectar o feto

Aumento da temperatura do corpo no primeiro trimestre de gravidez já tinha sido associado a um maior risco de alguns defeitos cardíacos e deformações faciais nos fetos. Agora, percebeu-se como isso acontece.

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Apesar de ser uma reacção de defesa do nosso organismo, a febre não é um bom sinal. Quando o nosso corpo “decide” aumentar a temperatura é porque há algo a combater, seja um vírus ou uma infecção. Já se sabia que o aparecimento de febre no início da gravidez aumenta o risco de defeitos cardíacos e deformações faciais, como a fenda palatina. Agora, um grupo de investigadores do Centro Médico da Universidade de Duke, nos EUA, percebeu como é que isso acontece identificando duas proteínas activadas pelo calor, que podem afectar o desenvolvimento do feto no primeiro trimestre da gravidez.

Primeiro que tudo, um esclarecimento que esperamos que seja tranquilizador: os autores do artigo publicado na revista Science Signaling sublinham que algumas malformações congénitas podem ser evitadas através de um uso cauteloso de antipiréticos, como o paracetamol. Dizer simplesmente que ter febre no primeiro trimestre de gravidez aumenta o risco de malformações no feto pode ser assustador. Mas, na verdade, há uma série de casos de bebés que nascem com defeitos cardíacos específicos ou com problemas como a fenda palatina que não são explicados por causas genéticas. Desde há algum tempo que se sabia que a febre maternal durante os primeiros meses de gestação era uma dos factores ambientais que poderia explicar alguns destes casos. Mas não se sabia como isto acontecia, se seria o próprio aumento da temperatura ou um vírus ou outra infecção que estava na origem das malformações, nota um comunicado de imprensa sobre o trabalho que quis esclarecer este mistério.

Usando modelos animais, como o peixe-zebra e embriões de galinhas, a equipa de investigadores nos EUA centrou-se em dois canais de iões sensíveis à temperatura (as proteínas TRPV1 e TRPV4) que são activados durante momentos críticos do desenvolvimento de uma população especial de células (células da crista neural) importante para a formação do coração e do rosto.

“Descobrimos que essas células da crista neural contêm canais de iões sensíveis à temperatura, que normalmente são encontrados nos nossos neurónios sensoriais. Estes são os canais que, quando colocamos a mão num copo quente, dizem ao corpo que a temperatura mudou”, explica o neonatalogista Eric Benner, um dos autores do artigo citado no comunicado do Centro Médico da Universidade de Duke.

Os investigadores fizeram uma série de experiências submetendo estas células da crista neural a condições que imitavam uma febre transitória. Os embriões desenvolveram malformações craniofaciais e cardíacas, incluindo um defeito no coração que forma um ventrículo direito com uma dupla saída (tetralogia de Fallot). Perceberam que o tipo de defeito depende do timing da febre, se ocorre durante a formação do coração ou da cabeça e do rosto. Porém, ficou por esclarecer qual o impacto de variéveis como a gravidade e a duração da febre.

“Sabemos desde o início da década de 1980 que as febres estão associadas a defeitos congénitos, mas era um mistério como isso acontecia”, sublinha Eric Benner. O especialista defende que a melhor forma de prevenir este risco de defeitos congénitos causados pela febre durante o início da gravidez é o recurso a paracetamol (acetaminofeno), sublinhando que as mulheres grávidas devem consultar os seus médicos. 

“Espero que agora, quando as mulheres estão a planear engravidar e os seus médicos aconselham o recurso a vitaminas pré-natais e ácido fólico, também se informem sobre o que devem fazer se tiverem sintomas de febre e considerem tomar paracetamol, que tem sido muito estudado, e que se concluiu que é seguro durante o primeiro trimestre de gravidez”, afirma Eric Benner. Mas nada, insiste, deve substituir a conversa e o conselho do médico assistente da grávida.