Como a imprensa olha para o “precipício” na Catalunha

Os editoriais dos jornais espanhóis sublinham as consequências que uma declaração unilateral de independência poderá trazer para a Catalunha.

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LUSA/ALEJANDRO GARCIA

Em dia de declarações do governo autónomo catalão pela voz de Carles Puigdemont no parlamento, os jornais espanhóis antecipam consequências graves para a Catalunha caso avance com uma declaração unilateral de independência. A repetição da palavra "precipício" é transversal às principais publicações e apela-se à reflexão ponderada.

La Vanguardia, “A hora da verdade”

O La Vanguardia desta terça-feira antecipa uma “fase de agitação social, turbulências de difícil controlo e com um potencial desastroso”. O editorial lembra que “já dissemos e repetimos que as soluções unilaterais não conduzem a um bom porto”. Escreve o jornal que “a opção independente não é hegemónica na Catalunha” e lembra os riscos económicos da decisão. “Por mais injusto que pareça a quem se deixa levar por determinado entusiasmo, para quem observa a situação do lado das instituições europeias é fácil compreender que o Governo central tente manter a união do país, amparando-se na lei”. “A independência é um projecto político legítimo como qualquer outro, no entanto perde a sua legitimidade quando se tenta impor acima do consenso legal”, advoga o jornal. “Enquanto escrevemos estas linhas é possível que o presidente Puigdemont [presidente do governo regional da Catalunha] esteja a ultimar o discurso de hoje”, continua o texto. “Escrevemos este editorial porque desejamos que a Catalunha restaure a sua coesão social e progresso. (...) É a hora da verdade. Estamos à beira de um precipício e não convém dar um passo em frente. Será um dia histórico.”
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El Mundo, “Espanha continua à espera da reacção de Rajoy”

“Uma amostra da débil e até agora estéril resposta articulada pelo Governo de Rajoy”, começa o editorial do El Mundo. O jornal escreve que “qualquer declaração de independência da Catalunha (…) deveria forçar de uma vez por todas o Governo de Rajoy a abandonar meias medidas e executar medidas legais oportunas, incluindo a suspensão da autonomia [da Catalunha] para restituir a ordem legal”. O jornal denuncia ainda episódios de “xenofobia” protagonizados por alguns independentistas que chamaram “turistas” ou “inadaptados” aos não independentistas ou a quem chegava a Barcelona a partir do resto do país. “Qualquer anúncio que não passe pela renúncia à secessão [separação da Catalunha do território espanhol] constitui uma intolerável intenção de liquidar a soberania nacional. Nenhum Governo pode negociar nada enquanto a Generalitat continue a vulnerabilizar a Constituição. Por isso, a falta de reacção do presidente é incompreensível.” Também o El Mundo compara a situação na Catalunha a um precipício, consequência da acção de “Puigdemont e dos seus parceiros”, avalia. “Confiar aos tribunais a resposta ao desafio soberanista é uma estratégia insuficiente”, continua. O jornal espanhol destaca também um artigo publicado esta terça-feira sobre a actuação dos Mossos d’Esquadra, a polícia catalã, que “não cumpriram as suas obrigações juntamente com o resto dos corpos de segurança do Estado, colocando a movimento independente acima do seu dever durante o 1-O”.

Sem poupar críticas à acção de Rajoy, o jornal escreve que o primeiro-ministro espanhol “continua sem entender que a acção legal e jurídica não chega para pôr termo ao avanço independentista”. “Faz falta também uma liderança política e coragem intelectual que dê isso a todas as ferramentas que contemplam o Estado de direito”.
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El País, “À beira do precipício”

O subtítulo resume a posição do El País: “Uma declaração unilateral abriria a porta a uma gravíssima crise”. O jornal descreve a decisão do governo catalão como um “plano suicida” e fala numa “absoluta irresponsabilidade de se ter lançado para o abismo de uma forma plenamente consciente”. O jornal antecipa o agravamento exponencial “dos danos económicos” e a “fuga de numerosas empresas emblemáticas”. “O auto-governo que custou décadas a conseguir pode perder-se em horas, com um enorme salto para trás”, continua a publicação. “O presidente Puigdemont, o seu Governo e as instituições que o apoiam chegaram a um abismo. Não devem saltar nem pensar em arrastar nada atrás de si.” “Pedimos a todas as forças políticas, incluindo aquelas que durante estes dias se manifestaram a favor do diálogo, que os levem a não tomar essa decisão. Que utilizem o apelo ao diálogo precisamente para interceder e terminar com o plano”, lê-se. “Puigdemont está a tempo de evitar uma catástrofe e começar um diálogo e negociação.” O jornal conclui que se a declaração de independência for apresentada esta terça-feira deverão ser chamadas as forças políticas que, “tal como pediu o rei Filipe VI”, se coloquem ao serviço da restauração da ordem constitucional.
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El Periódico, “Não em nosso nome”

“A Catalunha é muito mais plural e diversa do que o discurso nacionalista quer fazer crer”, escreve o jornal. “Se hoje se consumar a declaração da independência, será o culminar de uma irresponsabilidade histórica que terá efeitos gravíssimos sobre o governo catalão.” O jornal recorda que o referendo “não cumpre nenhuma garantia democrática e que por isso não pode ser aval de nenhuma decisão política”. “Caso se dê este salto no vazio, é obrigação do El Periódico dizer com firmeza e serenidade: não em nosso nome.” O jornal sublinha que “individual, política e institucionalmente o preço a pagar podia ser muito alto”.
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