O economista que “tornou a ciência económica mais humana”

O prémio Nobel de 2017 foi para um norte-americano que tem vindo a mostrar que apenas em modelos os agentes económicos são totalmente racionais.

Richard Thaler é visto com dos pais da economia comportamental
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Richard Thaler é visto com dos pais da economia comportamental Reuters/KAMIL KRZACZYNSKI

Richard Thaler, acabado de saber que o prémio Nobel da Economia de 2017 era seu, explicou de forma sucinta aos jornalistas o que é que o seu trabalho das últimas três décadas tinha trazido de diferente para o estudo da economia: “foi o reconhecimento de que os agentes económicos são humanos e que os modelos económicos têm de incorporar isso”.

A primeira ideia, a de que “os agentes económicos são humanos”, parece ser uma ideia básica e óbvia, algo que está à vista de toda a gente e que não seria suficiente para ganhar grandes prémios. Mas a verdade é que, na ciência económica clássica, os modelos utilizados para fazer previsões sobre como a economia se irá comportar assumem, por questões práticas e de simplificação, que ao tomarem as suas decisões os agentes económicos agem sempre para maximizar seu interesse próprio e são calculistas e totalmente racionais. Isto é, muito pouco humanos.

Foi na tentativa de contrariar esta escassez do factor humano nos modelos, responsável por tantas falhas de previsões, que se desenvolveu a chamada economia comportamental. Ao contrário da economia clássica, este campo de estudo assume que algumas decisões – sejam de uma pessoa individualmente ou de uma empresa ou do Estado - pouco ou nada têm de racional. E que, por isso, é importante que se consiga, com recurso a outras ciências como a psicologia, encontrar explicações para a falta de racionalidade, para que se possa eventualmente passar a antecipar melhor como se comportam realmente as economias.

Richard Thaler, um economista norte-americano de 72 anos de idade, há muito que é visto como um dos pais fundadores da economia comportamental e, esta segunda-feira, a Academia Real Sueca das Ciências decidiu premiá-lo por isso, atribuindo-lhe o Prémio do Banco da Suécia para as Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel, mais conhecido como Prémio Nobel da Economia.

Desde os anos 80 do século passado que Thaler, actualmente professor na Universidade de Chicago, começou a mostrar como as decisões económicas, tanto vistas individualmente como a um nível mais macro, são tomadas muitas vezes relegando a racionalidade para um segundo plano e dando prioridade a emoções e sentimentos vários. Através de exemplos e de dados concretos, tornou claro que as pessoas pura e simplesmente não se comportam da forma como a teoria económica poderia fazer supor.

As pessoas dão valor a questões como a justiça. E estão dispostas a ser elas próprias penalizadas se se depararem com alguma coisa que consideram injustas. Se um vendedor de chapéus-de-chuva tentar aproveitar-se do facto de estar a chover torrencialmente para vender cada chapéu ao dobro ou ao triplo do preço, pode deparar-se com compradores que, numa análise racional poderiam considerar o preço justo, mas que, respondendo ao sentimento de injustiça, o forçam a redefinir os preços.

As pessoas têm problemas em controlar-se a elas próprias. E sentem necessidade de, logo à partida, comprometerem-se com um determinado tipo de comportamento, mesmo que ele venha a revelar-se, a certa altura, como pouco racional.

As pessoas têm estados de espírito diferentes em diferentes fases das suas vidas. E tomam decisões de acordo com aquelas que são as suas prioridades no momento. Algumas vezes mais a pensar no futuro, outras mais a pensar no presente.

As pessoas têm medo de se arrepender. E por isso, algumas vezes, mesmo que haja um caminho que seja mais lógico do que outro, preferem não tomar qualquer decisão, para não correrem o risco de errar.

As pessoas são dadas a euforias. Quando as coisas começam a correr bem, pode existir a tendência para pensar que tudo vai correr sempre bem. Richard Thaler foi chamado a mostrar isso numa breve aparição no filme “A Queda de Wall Street” (“The Big Short” no título original), em que surge ao lado de Selena Gomez, a explicar como é que um investidor, um apostador ou mesmo um jogador de basket tendem a acreditar, quando são bem sucedidos nas suas primeiras tentativas (investimento, aposta ou lançamento ao cesto), que tudo vai continuar a ser igual no futuro, persistindo em novas tentativas para além do que seria racional e conduzindo em alguns casos a perdas de grande dimensão.

Como as pessoas são tudo isto - ao mesmo tempo que tentam também ser racionais - desenhar modelos económicos que sejam certeiros e exequíveis torna-se uma tarefa extremamente difícil. Talvez por isso, Richard Thaler dedicou-se nos últimos anos a estudar de que forma é que é possível dar incentivos às pessoas para que estas se comportarem de determinada maneira. É aquilo a que chamou, num livro escrito em conjunto com Cass Sunstein em 2008, a “teoria Nudge”, uma espécie de pequeno empurrão que pode ser dado aos agentes económicos quando se pretende, por exemplo, reduzir o consumo de um determinado bem ou aumentar o nível da poupança.

Esta segunda-feira, em Estocolmo, os responsáveis da Academia Real Sueca das Ciências não pouparam na hora de medir o impacto do contributo de Richard Thaler: disseram que permitiu uma maior “compreensão da psicologia da economia”, que ajudou a economia comportamental a "passar da margem para o centro" da ciência económica e, principalmente, que “tornou a ciência económica mais humana”.

Richard Thaler, por seu lado, agora que faz parte da elite de economistas que receberam um Nobel, prometeu também ele continuar humano. Quando questionado sobre o que pretendia fazer ao prémio de nove milhões de coroas suecas que tinha acabado de receber, disse que iria tentar gastá-lo “o mais irracionalmente possível”.