Uma hora em Lisboa com Jonathan Franzen, as literaturas americanas e Trump

É feliz a escrever, e está a trabalhar num novo romance. “Lisboa é Portugal, com todo o respeito para o Porto, Coimbra” e outras cidades, disse “o grande romancista americano”.

Jonathan Franzen, esta terça-feira no auditório da FLAD
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Jonathan Franzen, esta terça-feira no auditório da FLAD MIGUEL MANSO

Jonathan Franzen ergue as sobrancelhas e indica que pode começar. Uma hora em Lisboa – “Lisboa é Portugal, com todo o respeito para o Porto, Coimbra e as outras. É aqui que está [tudo] a acontecer”, postula – para falar da América, país sem capital cultural e sem uma identidade literária una, defende. “Nunca houve um único lugar que contasse a história do país. Sempre foi uma literatura multivalente.” Foram-lhe colados vários rótulos grandiloquentes, mas “o grande romancista americano”, “o melhor romancista da sua geração” tem todo o gosto em desmontar o pedestal. Se não se distrair com o chilrear de um pássaro.

Uma conversa com Jonathan Franzen, um dos mais reconhecidos e bem-sucedidos escritores contemporâneos dos EUA, ao fim da tarde desta terça-feira na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Uma hora de perguntas da jornalista Isabel Lucas (colaboradora do PÚBLICO) e de questões da audiência, em torno de palavras. As que escreve, as que escolhe, no singular, para títulos dos seus romances, as que definem as várias emoções que evoca ou vive – pureza, desconforto, raiva, humor. O autor de Correcções, Liberdade, Purity e das memórias A Zona de Desconforto (as suas obras publicadas em português) está sobretudo feliz. Está a trabalhar num novo livro e a ler outro de que muito gosta.

“Prefiro estar a escrever um romance do que a fazer seja o que for”, responde à sua entrevistadora. Faz as contas a 35 anos de carreira, oito anos de alguma inércia, cinco romances e o tempo respectivo para os escrever – “houve sete anos em que estive feliz. Feliz da mesma forma como fico quando encontro algo que quero ler”, como The Mill on the Floss, da britânica George Eliot, que encetou no voo para Lisboa. Não foi o único escritor que surgiu na conversa, de Elena Ferrante a F. Scott Fitzgerald passando por William Faulkner. Mas a única pergunta a que não quis responder (“odeio essa pergunta”) foi sobre quem e quais foram as suas influências e inspirações.

O “bom liberal”, como se autodenominou a certa altura, também optou por falar o menos possível de Donald Trump, embora não resistisse a brincar com as preocupações de outros escritores e intelectuais sobre a ameaça que Trump representaria à liberdade de expressão. “A sério? Liberdade de expressão é o problema dele. Não vai impedir-me de tweetar, ele não quer outra coisa senão que eu não faça outra coisa” — em tempos, Franzen considerou o Twitter “o expoente máximo do meio de comunicação irresponsável”. Preocupa-o sim, diz entre o humor fácil e o perigo real, “que ele tenha os códigos nucleares”. E se “não vai a lado nenhum com a sua agenda legislativa”, pondera, “tem alguém eficaz para chefiar a sua agência ambiental” onde, teme, pode fazer estragos reais. É uma das suas causas, que tem como sintoma a paixão pelas aves e pela sua observação.

Jonathan Franzen, no seu fato escuro e camisa bege sem gravata, mantém-se próximo do mundo — um mundo povoado pelas suas personagens. “São todos partes de mim.” Sente-se demasiado auto-analítico e é cuidadoso com as palavras ao falar em “criar personagens femininas nesta era de políticas de identidade”, responde, sabendo que se trata de uma das críticas que frequentemente lhe são apontadas. Diz-se relutante em eleger a dona de casa Patty Berglund de Liberdade como uma das suas personagens predilectas, e resiste sobretudo a dizer: “Porque ela era feminina, pude pôr muito de mim nela”. Mas di-lo.

“Não tenho muita consideração pela divisão feminino/masculino”, afirma, totalmente enquadrado, afinal, na corrente de políticas identitárias que defendem, tal como ele remata, que tais convenções têm “fronteiras muito fluidas”. Fala depois de Alfred Lambert, o patriarca de Correcções, e remexe nas memórias familiares e da demência do seu próprio pai. E na sua própria personalidade, múltipla como essa sua América: “sempre fui uma pessoa velha, era uma pessoa velha aos sete anos, e sempre fui um miúdo, e sempre fui um pouco fêmea. São objectos psicológicos dentro da minha cabeça, é a minha relação com essas personagens. O que é a forma como toda a gente se move pelo mundo. Vemos o que projectamos nas pessoas, torno todo o tipo de pessoas na minha mãe ou no meu pai.”  

A televisão é nossa amiga

Bem-disposto mas sempre atento às reacções que as suas palavras provocam, Franzen enfrentou uma sala quase cheia por dezenas de admiradores, alguns jornalistas e outros tantos escritores, como João Tordo ou Rui Zink. Chamaram-lhe então “o grande romancista americano” e há ódio nessa história, a da capa da Time de 2010, após o seu romance Liberdade, porque há subjacente ao título a ideia de “grande romance americano”, explicou, com o qual não concorda dada a vastidão e variedade étnica, de género ou de experiências encapsulada num país de 320 milhões. Há literaturas americanas, e não literatura.

“O problema era precisamente a multiplicidade da América. Os romances têm de ser mundos completos e autocontidos e se tentam conter demasiado desfazem-se pelas costuras.” E porque sempre a ouviu “como trocista”, como aquele comentário sardónico que alguém, quando ouvia o Jonathan Franzen de 20 e poucos anos dizer que estava a escrever um livro, soltava sob a forma de “ah, o grande romance americano”.

Conduzido através de vários temas, falou do seu amigo David Foster Wallace e de ter ficado zangado quando do seu suicídio e da emoção de espalhar parte das suas cinzas no mar ao largo do Chile. Falou das discussões dos pais sobre a “zona de conforto” indicada no termostato do ar condicionado de sua casa e que deu origem ao título A Zona de Desconforto. E de como os títulos dos seus três romances de maior sucesso vieram em parte da irritação. “A irritabilidade é um traço dominante meu”, disse em modo auto-depreciativo, mas esperando o riso da audiência. Ouvia a palavra “correcções” no sistema prisional ou no mercado bolsista. Ouvia “liberdade” num anúncio de carros ou nas ideias de George W. Bush sobre o que invejavam os terroristas na América. Ouvia os jihadistas, o Tea Party ou os libertários de Silicon Valley falar de pureza (“purity”, em inglês).

A sua relação com essas palavras continua até hoje. Liberdade (2010) foi o título que lhe deu o estatuto que hoje tem, mas que criou “esperando que percebessem que era um grito irónico”; já quanto a Correcções, “de forma louca, seis dias depois de ter sido publicado, houve uma gigantesca correcção sob a forma do 11 de Setembro. Foi um livro escrito na expectativa do 11 de Setembro e depois aconteceu o 11 de Setembro. Ainda não recuperei verdadeiramente disso.”

A hora chegava ao fim e do público chega a pergunta sobre o seu manifesto literário na revista Harper’s, de 1996, em que sentia que a cultura já não guardava muito espaço para a literatura. Hoje mudaria alguma coisa? “Via a televisão como o inimigo e agora vejo-a como nossa amiga. Vejo a boa televisão por cabo como parte do romance. Tem estado a fazer o que nos faltava culturalmente há mais de um século com a morte dos grandes romances sociais e seriais do século XIX, coisas directamente ligadas à realidade contemporânea, que têm personagens complexas e que seguimos semanalmente — é o que faziam Dickens ou Dostoievsky.”

Depois do falhanço que foi o episódio-piloto que seria a versão televisiva de Correcções, gostaria de trabalhar numa série televisiva “que de facto seja feita”, diz, mas até estava na calha exactamente uma série baseada em Purity. “Parece improvável que seja feita”, revela, sem adiantar mais detalhes.

Jonathan Franzen veria depois uma fila formar-se para que as várias edições dos seus livros, em português ou inglês, fossem assinadas pelo autor. Defendeu que os autores não devem levar-se totalmente a sério — a certa altura, quando respondia sobre a importância do humor, foi interrompido e distraído pelo trinar de uma ave. Lembrou a “capacidade única e espantosa da palavra escrita, e em particular da palavra escrita narrativa”, de unir mentes, de o levar a Nápoles à boleia do cérebro de Ferrante. Ou de carregar os seus leitores até Saint Paul, a cidade do Midwest onde situou partes, e as suas partes que são parte das suas personagens, de Correcções ou Liberdade.