Mattel desiste de babysitter robô que contava histórias e ensinava línguas aos bebés

Coluna multi-funções vigiava os bebés e interagia com eles substituindo-se aos pais: contava histórias para adormecer, ensinava línguas. Petição forçou fabricante a recuar.

O Aristóteles tinha uma coluna que interagia com a criança e um dispositivo de vigilância para os pais
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O Aristóteles tinha uma coluna que interagia com a criança e um dispositivo de vigilância para os pais Mattel

O projecto era uma babysitter quase completa, sendo que as excepções seriam a alimentação, a muda de fraldas e não conseguir impedir que a criança se mexesse. Mas o fabricante de brinquedos Mattel teve que guardá-lo na gaveta e desistir da produção de Aristóteles, uma coluna que funcionava como ama com inteligência artificial, depois da pressão de uma campanha de uma organização em prol da infância livre da pressão comercial (CCFC - Campaign for a Commercial-Free Childhood) e das preocupações expressas por congressistas e juristas sobre o impacto que o dispositivo poderia ter na privacidade, desenvolvimento e bem-estar das crianças.

Há dias, a Mattel anunciou o cancelamento do pequeno aparelho destinado à vigilância e acompanhamento de crianças que tencionava colocar no mercado no próximo ano por cerca de 300 dólares. Onde o fabricante via um dispositivo para “acalmar os bebés, ensinar-lhes boas maneiras e ajudá-los a aprender uma língua”, houve quem visse um objecto que substituía o carinho dos pais por um falso cuidado maternal e que recolhia informação sobre pessoas desprotegidas.

Apresentado em Janeiro, o dispositivo de babysitting dispõe de dois sistemas de inteligência artificial: um destinado aos bebés, denominado Aristóteles, em que podia contar histórias, passar músicas de embalar ou acender a luz do quarto a meio da noite para acalmar o choro da criança, interagir de forma mais activa ainda ensinando línguas ou respondendo a perguntas básicas, e fora até programado para ir mudando o tipo de actividades consoante a idade, chegando mesmo a poder ajudar um pré-adolescente a fazer os trabalhos de casa, descrevia a Mattel; e outro para os pais, Alexa, em que o dispositivo servia como altifalante e monitor áudio e vídeo para vigiar a criança e era controlável por bluetooth.

Um dos grandes desafios do projecto era fazer com que o sistema percebesse o significado do que a criança dizia. Mas ao mesmo tempo, Aristóteles ia guardando todo o tipo de informação sobre a vida da criança e da família.

A CCFC lançou uma petição pedindo que a Mattel não lançasse o Aristóteles, argumentando que as crianças e os jovens não devem ser encorajados a habituar-se e a banalizar o uso de dispositivos que recolhem dados sobre si. E criticava também o facto de o produto “substituir o cuidado, a percepção e o companheirismo dos membros de uma família por uma falsa sensação de cuidado e diálogo de um robô concebido para vender produtos e construir lealdade a uma marca”. “As crianças pequenas não devem ser cobaias para experiências de inteligência artificial”, acrescentava a associação. Juntou mais de 15.000 assinaturas.

E entretanto a causa recebeu alguns apoios de peso. Os senadores democrata Ed Markey (Massachusetts) e o republicano Joe Barton (Texas) escreveram à empresa considerando que o produto suscita “graves preocupações de privacidade” por permitir que a Mattel “construa um perfil detalhado das crianças e da família. Parece que nunca antes um dispositivo teve a capacidade de olhar tão intimamente sobre a vida de uma criança.”

Mas há outro tipo de preocupações em torno de Aristóteles. Citada pelo Washington Post, a pediatra Jennifer Radesky, que definiu para a Associação de Pediatras Americanos as directrizes sobre como devem as crianças até aos seis anos lidar com os media, considerou que a maior preocupação com esta babysitter digital é a ideia de que “um equipamento tecnológico se torne o membro mais responsável da família para cuidar de uma criança que chora, que quer aprender ou que quer brincar”.

Apesar do recuo, a Mattel não se deverá ficar por aqui no que diz respeito a brinquedos com inteligência artificial já que esta é uma tendência em que a empresa tem sido pioneira. Ainda que a penúltima invenção tenha também sido alvo de contestação: há dois anos percebeu-se que a boneca falante interactiva com wi-fi Hello Barbie podia ser alvo de pirataria informática que a transformasse numa câmara que gravasse imagens e sons sem que as crianças ou os pais dessem por isso. 

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