Naassom Azevedo/Unsplash
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Sim, ainda estou casado!

Sim, contra as minhas expectativas, eu que nem queria casar com medo do divórcio, dos gritos, insultos e murros de outras vidas, de outras histórias, ainda estou casado

Sim, depois de oito anos, depois da crise dos sete anos (crise? qual crise, se gostamos tanto um do outro?), numa altura em que amigos e familiares próximos se chateiam e separam um do outro, uns atrás dos outros, continuamos casados. Porque, por mais incrível que pareça, gostamos mesmo um do outro. E não, ainda não tivemos um “acidentezinho” ou uma “doençazinha” que nos castigue por este amor continuado, o café e um beijo na cama pela manhã, um filme no sofá enquanto nos abraçamos à noite, e sim, esta relação, a nossa relação, isto que nós os dois construímos, fruto de tantos anos, tantos sacrifícios, tanto sangue perdido por entre as mãos e por entre a terra, mete mesmo nojo. Não porque o façamos de propósito, não fazemos, mas não tendo mais ninguém, estando tão longe de tudo e de todos, só nos temos um ao outro na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza em todos os dias da nossa vida, até que a morte nos separe.

Por isso continuamos casados. Mais. Porque fazemos coisas em conjunto, viajamos juntos, dormimos juntos, comemos juntos, planeamos juntos, construímos uma casa juntos, vivemos juntos. Afinal, e se bem me lembro, foi por isso que casámos, para que possamos, juntos, morrer juntos, daqui por muitos anos e depois de muitos anos, um pé de roseira e as nossas cinzas unas, indistintas, agora e para sempre.

O segredo? Voltem a ler o parágrafo anterior. E o diálogo, não esquecer o diálogo, a conversa, como é bom falar, planear, sonhar, deitar tudo cá para fora e dizer que te amo de repente, quando menos estás à espera, sem esquecer aquelas pequenas surpresas, aqueles pequenos presentes, flores à tua espera em casa, a refeição que se cozinha quando o outro está cansado, os teus olhos nos teus anos ou aquela prenda pelo Natal que mais ninguém compreende para além de ti, para além de nós.

O segredo? Voltem a ler os dois parágrafos anteriores. A relação, o tempo, a presença, o apoio, ouvir, beijar, abraçar, segurar-te, segurar-me para não cairmos, os risos e as lágrimas, as lágrimas de tanto rir, a rotina dos dias que urge quebrar, fugir e partir para parte incerta, os teus lábios e os meus e o vento como testemunha única do que não vos vou contar.

Sim, contra as minhas expectativas, eu que nem queria casar com medo do divórcio, dos gritos, insultos e murros de outras vidas, de outras histórias, ainda estou casado. O dia do casamento é a partilha do amor que nos une com todos os que nos rodeiam e amam. Disseram-me que no nosso casamento as ostras estavam óptimas. Nunca as vi, nunca as vimos, quanto mais comê-las. Fica para a próxima, no vosso casamento, quando vocês prometerem como nós prometemos à frente dos teus pais e dos meus, do teu irmão e das minhas irmãs, do meu avô e da minha avó, dos teus primos e dos nossos amigos, casar, viver e amar até que aquela “doençazinha” ou “acidentezinho” nos separe, para gáudio de todos os que nunca perceberam o que porra significa estar casado.