Canadá vai compensar financeiramente crianças aborígenes que foram retiradas das suas famílias

Governo canadiano vai pagar cerca de 509 milhões de euros para terminar com um "legado terrível".

Fotografia de 1960. As crianças aborígenes retiradas das famílias eram, na sua maioria, colocadas em escolas da igreja
Foto
Fotografia de 1960. As crianças aborígenes retiradas das famílias eram, na sua maioria, colocadas em escolas da igreja Reuters

O Canadá vai pagar cerca de 598 milhões de dólares (cerca de 509 milhões de euros) em compensações a milhares de aborígenes que foram retirados, enquanto crianças, às suas famílias há algumas décadas, deu conta uma fonte oficial nesta sexta-feira, prometendo acabar com este “legado terrível”.

Esta medida faz parte da política do Governo liberal de Justin Trudeau que pretende restaurar os laços com a população indígena canadiana, que alega ter sido vítima do racismo sistemático durante séculos.

Entre os anos 1960 e 1980, as autoridades retiraram cerca de 20.000 crianças aborígenes das suas famílias, colocaram-nas em abrigos e permitiram que fossem adoptadas por famílias não indígenas.

Este pacote de compensações tem também como objectivo resolver os muitos processos judiciais interpostos pelos sobreviventes afectados por esta medida, que argumentam que a sua retirada forçada os privou da sua herança, levaram a perturbações mentais, ao uso de substâncias adictivas e ao suicídio.

“Linguagem e cultura, desculpas, cura – estes são elementos essenciais para começar a corrigir o mal deste capítulo escuro e doloroso”, disse Carolyn Bennet, ministra canadiana responsável pelas relações com os povos indígenas.

Os 1,4 milhões de aborígenes canadianos, que perfazem cerca de 4% da população total, têm sofrido de elevados níveis de pobreza, uma proporção elevada acaba na prisão e têm uma esperança média de vida mais reduzida em comparação com os restantes canadianos. São muitas vezes vítimas de crimes violentos.

Os activistas indígenas têm acusado várias vezes Trudeau de falhar com as repetidas promessas de tornar as suas vidas melhores desde que começou a liderar o Governo em 2015. O primeiro-ministro reformulou, em Agosto, o seu gabinete para que fosse colocado maior ênfase na ajuda à população aborígene.

Numa conferência de imprensa onde teve muitas vezes de segurar as lágrimas, Bennett disse que ouviu “histórias de partir o coração” sobre a perda de identidade e de alienação.

Marcia Brown Martel, uma das líderes dos aborígenes e que encabeçou a campanha pelas compensações, lamentou o “roubo de crianças” e notou que alguns daqueles que foram afectados viviam tão longe como a Nova Zelândia.

“Pensem nisto como um puzzle, um enorme puzzle. Estão a faltar peças, pessoas”, afirmou aos jornalistas.

Otava aceitou o acordo depois de um tribunal canadiano ter decidido no início deste ano que o Governo quebrou o seu compromisso em relação aos cuidados das crianças.

Trudeau, além de outros líderes canadianas, pediu já desculpas pelos muitos abusos cometidos durante um período de 150 anos onde 150.000 crianças aborígenes foram forçosamente separadas dos seus pais e enviadas para escolas residenciais controladas pela igreja.

Em 2015, um relatório oficial concluiu que estas escolas fizeram parte de uma tentativa para extinguir a população aborígene como uma entidade legal, social, cultural, religiosa e racial no Canadá.