Fundação e Caixabank rompem com Catalunha e deslocam-se para Palma e Valência

Em menos de 24h o território espanhol valenciano ganhou dois bancos de peso: o segundo banco de retalho de Espanha, o Caixabank, dono do BPI, e o quinto maior, o Sabadell. E com eles vão chegar a esta província os milhões de euros que as instituições catalãs pagam de impostos.

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LUSA/ENRIC FONTCUBERTA

Saímos da Catalunha: foi a resposta que Jordi Gual (Caixabank) e Josep Oliu (Sabadell, e ex-administrador do BCP) deram a Carles Puigdemont, por este decidir avançar com a declaração unilateral de independência. Uma acção articulada com o governo de Mariano Rajoy que, esta sexta-feira, aprovou em conselho de ministros um decreto-lei para facilitar a vida das empresas catalãs que pretendam partir para outras regiões de Espanha, sem necessidade de convocar os accionistas.

Depois de o Sabadell estar a caminho de Alicante (Valência), chegou a vez de o Caixabank, que na Catalunha rivaliza com o BBVA, anunciar que também mudará a sede social de Barcelona para a comunidade de Valência, com proximidade e fortes ligações económicas à Catalunha. Mas o CaixaBank optou pela capital Valência.

Na prática, a decisão pouco se vai reflectir no dia-a-dia dos dois bancos que continuarão a desenvolver a sua actividade normal na Catalunha, e no resto de Espanha, com os balcões, trabalhadores e os conselhos de administração a funcionar.

Mas trata-se de uma medida que é muito mais do que simbólica. Para além de contribuir para gerar instabilidade junto da população catalã, repercute-se nas finanças da Catalunha. Em contrapartida, vai encher os cofres das autoridades valencianas que vão passar a receber dos dois novos inquilinos a parte dos impostos que Madrid não arrecada.

Mas há mais. Ao optarem por saírem da Catalunha, afastando-se do risco político associado ao desafio soberanista, o Caixabank e o Sabadell tomaram uma decisão preventiva. É que a partir do momento em que Carles Puigdemont revelou que preparava a declaração unilateral de independência, ainda que com um período de transição, as instituições financeiras catalãs (bancos e seguradoras) puseram o pé no acelerador. E isto para acautelarem as dúvidas jurídicas que possam surgir sobre que entidade os supervisiona (o Banco Central Europeu) e a sua pertença à zona euro. E também para evitarem deixarem os clientes desprotegidos: em território espanhol os depositantes ficam abrangidos pelos fundos de salvaguarda das poupanças. Em Espanha, o Caixabank tem 15,8 milhões de clientes, 5468 balcões e 37 mil empregados.

Quer o Caixabank, esta sexta-feira, quer o  Sabadell, na véspera, explicaram que a transferência das sedes sociais para a comunidade valenciana se destina a defender os “clientes, os accionistas e os empregados". E a garantir os depósitos, debaixo de supervisão do BCE. Uma das preocupações é saber como, em ambiente de grande crispação, os clientes dos dois bancos vão reagir à “viagem” para a comunidade valenciana.

Para já a bolsa de Madrid manteve-se debaixo de água. E fechou a semana a desvalorizar dois por cento, e a descer para os 10.200 pontos. E os grandes protagonistas foram os dois bancos catalães. Depois de, na quinta-feira, terem subido em bolsa (após o Sabadell ter dito que ia para Alicante) voltaram esta sexta-feira a derrapar: o Sabadell caiu 1,89% e o CaixaBank  0,58%.

Este sábado, soube-se que a Fundação Bancária la Caixa, que controla a 100% a holding Criteria Caixa, o seu braço financeiro, que por seu turno é o maior accionista do CaixaBank, vão para Palma, em Maiorca, ilha do arquipélago das Baleares. E percebe-se o impasse que existe ao nível do topo da Fundação (chefiada por Isidro Fainé), uma entidade que pertence ao código identitário da Catalunha. E onde há uma divisão entre quem defende a via da independência de Espanha e quem prefere a continuidade da região no país, o espelho da sociedade catalã. 

Com o quadro de incerteza a aumentar nos últimos dias e a pressão dos investidores a subir, o anterior presidente da Generalitat, Artur Mas, avisou: a Catalunha ganhou o direito a lutar pela independência, mas faltam as condições reais para avançar. Mas já ao início da noite de sexta-feira, o ex-dirigente catalão veio negar ter dito ao jornal Financial Times que faltavam as condições para a Catalunha ser independente. O Fundo Monetário Internacional também se pronunciou, alegando que a turbulência prolongada em torno da Catalunha prejudicará a Espanha.

Perante o clima de incerteza, muitas empresas anunciaram que estão a estudar ou vão deslocalizar as sedes da Catalunha. Uma delas foi a Gas Natural, que decidiu ir para Madrid ainda que a título “temporário”. O grupo é detido em 22% pela Fundação Bancária la Caixa e o seu presidente Isidro Fainé alegou que as tensões que se vivem na Catalunha geram “insegurança jurídica”.

Os jornais espanhóis davam ainda como certo que a Abertis (que está em processo de fusão com uma empresa italiana) também sairá da Catalunha. Mas a empresa de gestão de auto-estradas, detida pela Fundação Bancária la Caixa, ainda não se pronunciou. Já a marca espanhola Seat, do grupo alemão Volkswagen, classificou de “um rumor” sem fundamento as notícias que apontavam para a mudança da sua sede social de Martorell, em Barcelona,  para Madrid. A Seat é um dos grandes empregadores e exportadores da região. 

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