O inferno na plateia

Num regresso ao corrosivo texto de Jean Genet, Rogério de Carvalho encena no São Luiz e para o Teatro Griot Os Negros e volta a ocupar-se, até 15 de Outubro, desta coisa que é imaginar o lugar do outro e tentarmos ver-nos pela estranheza dos seus olhos.

Foto
Sofia Berberan

Desde que os membros do Teatro Griot decidiram montar uma produção de Os Negros, peça escrita por Jean Genet em 1958, os 13 actores do elenco e o encenador viram-se todos confrontados por uma pergunta estupefacta vinda de terceiros que os interrogava sobre o porquê de terem optado por montar o texto apenas com actores negros. É uma pergunta que Zia Soares, um dos quatro elementos fixos que compõem a companhia – cuja dimensão pontual varia em função de cada projecto –, acredita que será devolvida ao público do Teatro São Luiz, Lisboa, até 15 de Outubro. Mesmo que o texto de Genet pudesse ser inocente em relação a questões raciais – e não o é, obviamente, desde o primeiro segundo –, a simples decisão de um elenco de 13 negros em palco, porventura na primeira vez que acontece numa das principais salas de teatro de Lisboa, nota Zia, é ainda em si “um acto de excepção, um acto à margem, um acto de transgressão”.

Uma vez que a peça de Genet se ocupa constantemente, em várias camadas e com diferentes graus de corrosão e provocação, dessa ideia “simples” de humanidade que é procurar o olhar e o lugar do outro, bastaria essa pergunta repetida aos actores e ao encenador para se poder dizer que, em boa verdade, o espectáculo estaria já em marcha. De acordo com as indicações cénicas de Genet, o autor especifica que os quatro actores que compõem a corte (que assistirá à reconstituição do assassínio de uma rapariga branca) devem ser todos negros, escondidos por detrás de máscaras que lhes dêem rostos de brancos; os restantes serão “os Negros”.

Desta vez, são todos negros (como foi na versão cabaret de Bob Wilson em 2014, ou mesmo no acontecimento que foi a estreia absoluta por Roger Blin em 1959); mas não o foi na encenação de Peter Stein em 1984, muito menos na primeira visita que Rogério de Carvalho fez ao texto, no Teatro do Século, em 1986, em que os seus actores eram todos brancos. Enquanto o mundo assistia ainda à luta pelo fim do apartheid na África do Sul, Portugal lidava com um lento despertar do fim do seu período colonialista – e a leitura que então se podia fazer desse contexto associado ao texto era poderosíssima.

PÚBLICO -
Foto
Sofia Berberan

Se Genet põe na boca de Arquibaldo as primeiras palavras da peça e nelas se ouve uma interpelação directa do público, tratado como “Vós sois brancos. Sois espectadores. Esta noite, vamos representar para vocês” (tradução de Armando Silva Carvalho para os Livrinhos de Teatro dos Artistas Unidos / Livros Cotovia), em 1986, esta causticidade inicial era amplificada pelo facto de todo o palco ser ocupado por brancos – que faziam de negros mas também de negros que faziam de brancos (a impassível corte, de máscaras inexpressivas). E esta é, porventura, a força arrasadora do texto de Genet: todas as personagens são projecções e aderem a um jogo que as obriga em permanência a colocarem-se na pele do outro, acompanhadas de todos preconceitos daí decorrentes sobre como vêem o outro e como imaginam o que o outro os vê. A começar pelo próprio Genet.

O jogo resulta tão intrincado que Zia Soares admite a enorme dificuldade que é descobrir a forma de habitar estas personagens, elas próprias jogos de espelhos – em palco, Zia é a Rainha, rodeada da sua corte, uma negra a assumir o papel de uma branca, tal como foi escrita por um branco a imaginar como uma negra fingiria ser branca. “O tom certo não é algo que se possa decidir à partida; à medida que vamos avançando é que vamos percebendo”, diz a actriz. Mesmo para Rogério de Carvalho, na sua terceira encenação do texto (em 1986 no Teatro do Século, em 2006 no Teatro Nacional de São João e agora no Teatro São Luiz), a leitura de um texto pelo qual tem uma atracção evidente não resolve completamente a sua compreensão do que Genet deixou escrito. “Só mais tarde, quando os actores já têm as falas decoradas e começam a trabalhar dentro da estrutura dramática é que começamos a encontrar o sentido das coisas – e mesmo assim não é uma coisa conclusiva, fixa”, confirma o encenador ao Ípsilon. “Até porque à medida que vamos pegando nas peças a maneira de as olharmos transforma-se.”

Esta redescoberta contínua do texto não é caso único na longa carreira teatral de Rogério de Carvalho – que voltou várias vezes a textos de Tchékhov, Molière ou Howard Barker, com o qual diz ter aprendido a escalpelizar a densidade das palavras numa procura de sentido e de compreensão. “Acho que o olhar do Rogério acaba por ser muito novo”, confirma Zia. “Apesar de não ser a primeira vez que ele está a encenar o espectáculo, sinto muitas vezes que está a olhar o texto e cada cena como se não os conhecesse antes.” Muito possivelmente porque Rogério de Carvalho, aos 81 anos, continua a afirmar que o início do seu trabalho depende sempre daquilo que os actores lhe dão. “Parto sempre da prática, da performance do actor, só depois é que começo a construir as coisas”, diz.

PÚBLICO -
Foto
Não ignorando que na base do Teatro Griot estão textos que lidam com a identidade africana e europeia contemporâneas, Rogério de Carvalho guia-se pela intuição em relação ao momento de colocar em cena um texto tão deflagrador de questionamentos Pauliana Valente Pimentel

Por isso mesmo, nem encenador nem actores sentem que a versão anterior que Rogério dirigiu no São João, com três repetentes no actual elenco, pesa especialmente sobre os caminhos que Os Negros desta vez tomou. Para o encenador octogenário, os regressos a cada texto são tanto ditados pelo trabalho com os actores quanto pelas suas experiências passadas, pelos espectáculos a que assistiu e pelos outros textos que foi acumulando no seu percurso, citando Barker e Koltès como influências decisivas no seu teatro e, neste caso particular, “os textos trágicos franceses dos séculos XVII e XVIII, porque este texto tem mais ou menos o mesmo enquadramento, tem muito que ver com textos de Racine, que eram um labirinto”. Esse percurso implica também que agora lembre a sua primeira investida em Os Negros como “um espectáculo simples”, feito de uma ingenuidade da qual não só não se envergonha como lamenta ter perdido com a passagem os anos.

O inferno somos nós

“Esta noite vamos representar para os senhores”, diz Arquibaldo muito no início, novamente dirigindo-se ao público, já depois de sabermos que no centro do palco está o corpo de uma rapariga branca assassinada. “E para que se sintam confortáveis nas vossas cadeiras enquanto se desenrola o drama aqui em cima, para que sintam que esse drama não vai interferir nas vossas preciosas vidas, vamos ter ainda a gentileza, aliás aprendida convosco, de tornar impossível a comunicação.”

Os Negros tem as palavras apontadas permanentemente ao desconforto. No livro O Teatro do Absurdo em Portugal, citado também na folha de sala do São João na apresentação de 2006, Sebastiana Fadda enaltecia a capacidade de a primeira encenação do texto de Genet por Rogério de Carvalho “alcançar o objectivo de atormentar o espectador num espaço cénico despojado e sufocante, a que se acrescenta o mal-estar da temperatura estival elevada, a incomodidade dos assentos e a duração do espectáculo que supera as três horas.” Mas é um desconforto que, como notava então o crítico Jorge Listopad (falecido esta semana), é gerado por um uso da palavra que se torna “não um ornamento, mas um acto dramático, uma mola trágica que acciona céu e terra, e inferno que, em Genet, não é os outros como em Sartre, mas nós mesmos”.

Esse inferno que Genet pretenderia reflectir na direcção do público, esse inferno imaginava-o o autor francês (talvez usando da ironia ou do sarcasmo) que pudesse vir a esfumar-se, interrogando-se no prefácio à edição francesa da Folio, lembrado pelo São João, sobre o que aconteceria “a esta peça quando tiverem desaparecido, por um lado, o desprezo e a repugnância, por outro, a raiva impotente e o ódio que formam o fundo das relações entre as gentes de cor e os brancos – em suma, quando entre uns e outros se tecerem laços humanos?” O sentido do texto, no entanto, não se esgotou em 1958, nem em 1986 ou 2006, nem sequer em 2017 quando os conflitos raciais, as discriminações e os abusos de poder com base na cor da pele estão longe de ser exterminados.

Não ignorando que na base da fundação do Teatro Griot está uma assumida vocação para a apresentação de textos que lidam com a identidade africana e europeia contemporâneas, Rogério de Carvalho fala de se deixar guiar por uma intuição em relação ao momento de colocar um texto tão incisivo em cena e tão deflagrador de emoções e questionamentos, exacerbados por uma equipa cujo intervalo etário vai dos 22 aos 81 anos. De facto, o encenador realça a qualidade e a natureza poética do texto de Genet, defendendo que “esta revolução é mais poética do que outra coisa”.

Como é evidente, a poesia de Jean Genet não é macia nem inofensiva. É uma poesia ao serviço do teatro, talvez porque toda a reconstituição do assassínio da rapariga branca amontoa zonas de transição entre a ficção e a realidade, expõe a máquina teatral, atira o texto para uma zona de grotesco e quase de burlesco em que os sentidos de cada frase se multiplicam e, por vezes, é no reverso das palavras que parece estar a correr a peça. Mas é também este choque e esta aparente fricção entre o amor pelo texto de Rogério de Carvalho e uma postura mais militante do elenco que anima o espectáculo e lhe confere uma energia primeva, pouco acomodada, acentuando o tal desconforto que o público é convidado a sentir.

Ainda assim, reconhece Zia Soares, a peça é já “afirmativa por si só” na abordagem das questões raciais, nem que seja pelo simples facto de o elenco ser este. Se assim não fosse, não levantaria as interrogações que rodeiam o Teatro Griot acerca da necessidade de trabalharem apenas com actores negros.

Para Rogério, a peça opera sobretudo nessa fronteira entre a ficção e a realidade, confundindo aquilo que pode ter lugar no palco e aquilo que acontece longe da vista do espectador. E há mesmo um momento em que Genet se serve do teatro clássico grego para, no texto, advogar que os acontecimentos capitais acontecem sempre nos bastidores. Em certa medida, Os Negros é também isso – um desfile de caricaturas e de imagens a traço grosso, equívocas daquilo que o outro é, e em que terminado o espectáculo, devolvido à comodidade da sua vida, é o público que é responsável por aquilo que acontece fora do palco. A peça, poder-se-ia dizer, é um excessivo e grotesco motor de humilhação, de culpa e de responsabilização.