Obama e Trump, os divisores-em-chefe numa América sem rumo

Donald Trump é um dos presidentes norte-americanos menos populares, mas o seu antecessor não lhe ficou atrás noutra categoria: na de Presidente que mais divide o eleitorado dos dois maiores partidos do país. E há quem fale num “novo normal”.

Carlos Barria/Reuters
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Carlos Barria/Reuters

Se a maioria das pessoas que votam no Partido Democrata e no Partido Republicano mandassem na Casa Branca, Donald Trump já teria ficado sem acesso ao Twitter há muito tempo, a acreditar na mais recente sondagem da Universidade Quinnipiac. Mas esta é a única coisa em que os dois lados da barricada estão de acordo quando o assunto é o actual Presidente dos Estados Unidos: se nada mudar até ao fim do mandato, Trump está bem encaminhado para vir a ser o Presidente que mais dividiu o eleitorado no último meio século. Um pouco mais do que o actual detentor desse recorde: Barack Obama.

Como a profunda divisão que existe hoje em dia entre republicanos e democratas é vista muitas vezes como um fenómeno criado pela vitória de Trump em Novembro do ano passado, talvez valha a pena recordar as percentagens de popularidade de Obama no dia em que o Presidente norte-americano mais querido na Europa saiu da Casa Branca – com 83% de “gostos” no lado do Partido Democrata e 13% de carinhas sorridentes no Partido Republicano, foi o Presidente que mais dividiu os eleitores norte-americanos desde que há registos, segundo os estudos da empresa Gallup.

Fazer uma comparação nesta altura do campeonato não é justa para ninguém, mas se a média de Donald Trump nos primeiros oito meses se mantiver até ao fim do seu primeiro mandato, ou de um possível segundo mandato, então Obama perderá o estatuto de divisor-em-chefe: com 82% de aprovação entre os eleitores do Partido Republicano e apenas 8% entre os eleitores do Partido Democrata, Trump está a alargar o fosso da era Obama de 70 pontos para 74 pontos.

Ódio e paixão

Estes valores são ainda mais interessantes quando comparados com a média da clivagem provocada por todos os presidentes entre 1953 e 2009. De Dwight Eisenhower a George W. Bush, nenhum outro presidente chegou sequer perto de dividir tanto os eleitores do Partido Democrata e do Partido Republicano como Barack Obama e Donald Trump – em média, o fosso entre os dois lados durante aquele meio século foi de 40,6%.

Por outras palavras, nos 50 anos anteriores à eleição de Barack Obama, os eleitores do Partido Democrata e do Partido Republicano não eram tão acerrimamente contra ou a favor de um Presidente, fosse ele de que partido fosse – ou, pelo menos, não carregavam tanto ódio e tanta paixão quando respondiam às perguntas das empresas de sondagens.

Há várias tentativas de explicação para este fenómeno, e é verdade que o fosso entre eleitores do Partido Republicano e do Partido Democrata começou a alargar-se na década de 1980 com o Presidente Ronald Reagan, mas ainda assim nada que se possa comparar à divisão nas eras Obama e Trump.

“Nas últimas décadas, as avaliações que os americanos fazem dos seus presidentes estão mais fortemente ligadas às suas lealdades políticas do que no passado”, disse o director da Gallup, Jeffrey M. Jones, num comentário a um estudo sobre a taxa de aprovação dos mandatos de Barack Obama publicado no início deste ano. Por um lado, diz Jones, “isso pode reflectir o facto de que as acções dos presidentes mais recentes terem sido mais controversas ou apenas mais políticas, como as decisões sobre o uso de força militar, políticas económicas, tentativas de reforma dos cuidados de saúde e outros programas sociais, e as nomeações para o Supremo Tribunal”.

Por outro lado, também é verdade que os eleitores têm hoje acesso a muito mais informação do que em décadas passadas, incluindo a “fontes de notícias que muitas vezes influenciam ou reforçam as inclinações políticas” de milhões de americanos, diz o director da Gallup.

Mas esse aumento do acesso a fontes de informação também veio acompanhado de um aumento de possibilidades nas escolhas para a ocupação do tempo – e “quem não presta muita atenção à actualidade política, tendo por isso menos base para formar uma opinião, pode encostar-se mais às suas lealdades partidárias quando é questionado sobre a aprovação ou desaprovação do trabalho de um Presidente”.

Facebook e telemóvel

A divisão provocada por Barack Obama e Donald Trump na sociedade americana é também produto de uma época muito diferente daquela que ia fazendo a sua vida sem entrar todos os dias no Facebook e sem ouvir o telemóvel a apitar quando há uma notícia importante – ainda assim, é interessante recordar as sondagens feitas em épocas sem Facebook mas com muita tensão, como os anos finais do Presidente Richard Nixon.

Numa época em que o Presidente dos Estados Unidos da América resignou ao cargo só para não ter de passar pela humilhação de ser destituído, os eleitores americanos nunca estiveram tão divididos como em anos mais recentes. Depois de todos os escândalos, que se arrastaram por quase dois anos, Nixon saiu da Casa Branca com uma média de 75% de aprovação entre os eleitores do seu Partido Republicano e de 34% entre os eleitores do Partido Democrata – uma clivagem de 41 pontos, contra os 70 pontos no final da Presidência de Obama.

Nem mesmo Gerald Ford conseguiu chegar perto: no final do seu mandato, em 1977, o Presidente do Partido Republicano menos popular entre os seus eleitores desde que há registos só tinha 68% dos republicanos do seu lado, mas tinha também 37% dos democratas a dizer que ele se tinha portado bem. Um fosso de 31 pontos para um Presidente que viu a sua popularidade dar um trambolhão nos primeiros meses de mandato, quando tomou uma das decisões mais controversas da história política dos Estados Unidos: perdoar Richard Nixon do escândalo Watergate.

Mesmo com todas as diferenças entre épocas, quem estuda as sondagens admite que se possa estar perante um “novo normal”, como se lê no comentário da empresa Gallup. E, se esse “novo normal” veio mesmo para ficar, “os Presidente vão ter muitas dificuldades para alcançarem valores positivos nas taxas de aprovação” – algo que aconteceu também com Barack Obama, apesar da ideia generalizada na Europa de que o antecessor de Trump foi mais popular do que era habitual. No final dos seus mandatos, Obama teve uma taxa de aprovação média de 47,9%, e só teve valores positivos em três fases: no início do primeiro mandato, na altura da reeleição e na fase final do segundo e último mandato.

E é nesta mistura de “novo normal” com uma plataforma política quase oposta à que serviu de guião a Barack Obama que Donald Trump tem navegado. O resultado está à vista: Trump tem mantido, e até reforçado, a tendência dos últimos anos para dividir ainda mais os eleitores americanos, e é ao mesmo tempo um dos presidentes menos populares de sempre.

A mais recente sondagem da Universidade Quinnipiac sobre a popularidade de Trump foi publicada a meio da semana passada e não trouxe grandes novidades – quando se misturam eleitores do Partido Democrata e eleitores do Partido Republicano no mesmo saco e se tira uma bolinha com uma percentagem, apenas 36% dizem que estão a gostar da forma como Trump está a exercer o cargo, o que é um valor muito baixo para um Presidente em início de mandato mas que está em linha com os valores registados desde a tomada de posse, em Janeiro.

Nestes oito meses, o melhor que o Presidente dos Estados Unidos conseguiu nas sondagens da Gallup foi 45%, logo no início do mandato, e a partir daí foi sempre a descer. Bateu no fundo na última semana de Agosto, quando só 35% dos inquiridos disseram que estavam contentes com Trump na Casa Branca.

Para se ter uma melhor ideia da dimensão da falta de popularidade de Trump, basta recuar a 2001, até ao arranque do primeiro mandato de George W. Bush. Nessa época, mesmo depois de umas eleições que dividiram o país ao meio (com o Partido Democrata a acusar o Partido Republicano de ter cometido fraude na contagem de votos na Florida), Bush entrou na Casa Branca com 49,4% de aprovação – quase cinco pontos mais do que o melhor de Donald Trump até agora. E, em Abril de 2001, ainda antes da enorme subida de popularidade que os atentados do 11 de Setembro lhe trouxeram, George W. Bush já tinha chegado aos 55%.

Serve esta conversa toda para dizer que as sondagens indicam duas coisas, uma que salta à vista de toda a gente e outra que ficou esquecida lá para trás: no geral, Trump tem a popularidade de um mau cantor de karaoke numa noite particularmente desinspirada; mas a verdade é que o actual Presidente não tem concentrado muito mais ódio e amor do que o seu antecessor – ou, pelo menos, esse ódio e esse amor não aparecem em doses muito mais elevadas do que na era Obama quando se olha para as sondagens.

Movimentos populistas fortalecidos

Numa altura em que não se percebe qual é a estratégia do Partido Democrata para tirar Trump da Casa Branca nas eleições de Novembro de 2019 – nem se percebe sequer se a corrente mais progressista, representada por figuras como Bernie Sanders e Elizabeth Warren, vai impor-se à ala mais tradicional, onde o nome Clinton ainda mete respeito –, é cedo para dizer se as divisões vão continuar a aprofundar-se ou se já se chegou ao máximo que uma democracia aguenta.

O que se sabe é que o movimento populista e xenófobo, no lado do Partido Republicano, e o movimento populista e progressista, no lado do Partido Democrata, têm tendência para ficarem mais fortes à medida que as divisões se vão aprofundando.

Na semana passada, um republicano que já foi suspenso duas vezes do cargo de juiz presidente do Supremo Tribunal do Alabama venceu as eleições primárias do seu partido na corrida para um lugar no Senado. Roy Moore, o homem que mandou instalar uma estátua dos Dez Mandamentos no principal tribunal do seu estado, não foi apoiado pelo Presidente Donald Trump – ao seu lado, no momento da vitória, Roy Moore teve Stephen Bannon, o homem que é acusado pelos seus críticos de propagar ideias nacionalistas e de supremacia branca e que saiu da Casa Branca de Donald Trump há um mês.