Comentário

Primeiro dia: Generalitat ganha, Rajoy perde

É nos símbolos e nas imagens que reside o sucesso independentista. Ao contrário, o Estado revelou a perda de controlo do território catalão e da polícia autonómica.

Foi apenas o primeiro acto de uma história interminável. É como tal que o episódio deve ser olhado — a pensar nos muitos e alucinantes “dias seguintes”. Ao fim da tarde deste domingo, os independentistas estavam em manifesta vantagem, cumprindo o guião traçado pela Generalitat. Inversamente, o Governo de Mariano Rajoy mostrou a perda de autoridade na Catalunha. O caminho pode estar aberto para uma Declaração Unilateral de Independência (DUI), o que não significará a efectiva independência da Catalunha.

O que aconteceu não foi um referendo — que exige legalidade e outras regras — mas uma intensa jornada de mobilização e propaganda. O mais importante para os independentistas não são os votos. A sua estratégia era ocupar os locais de voto para mostrar imagens como as de Carles Puigdemont (presidente da Generalitat), Oriol Junqueras (vice-presidente) ou Ada Colau (presidente de Barcelona) a votarem tranquilamente. 

É aqui, nos símbolos, que reside a vitória independentista. Nas imagens de longas filas de pessoas à espera de votar, apesar da polícia e da proibição dos tribunais. E, sobretudo, nas imagens da “repressão”, dos confrontos entre polícias e pequenas multidões que defendiam as urnas. E também imagens da passividade cúmplice dos Mossos d’Esquadra, a polícia catalã — e inclusive as de “mossos” a chorar. Estas imagens confortam a sua cultura de vitimização e já correm o mundo. Através delas, a Generalitat espera mudar a relação de forças no plano internacional. 

A voz de Madrid foi inaudível no domingo. A mobilização independentista foi um sucesso e o Estado mostrou que não controlava o território catalão. Os tribunais foram incapazes de fazer cumprir a lei. O Governo não conseguiu sequer manter a lealdade da polícia catalã. Escreveu o El Confidencial que “o Estado democrático está apetrechado para responder a ameaças externas, como o terrorismo, mas não está preparado para enfrentar uma sublevação nascida no seu próprio seio e que utiliza os instrumentos institucionais que o próprio Estado lhe concedeu para o destruir.”

Independência?

A independência catalã é uma realidade longínqua ou improvável. Pouco importa. O parlament catalão reúne-se na quarta-feira. A DUI é um tema que divide os nacionalistas. Mas não pode ser excluída. É tentador aproveitar um momento de mobilização com os sentimentos anti-espanhóis à flor da pele. Os sectores radicais podem impô-la. Diz-se que Puigdemont apreciaria ser o sucessor de Lluís Companys que proclamou, por poucas horas, um “Estado catalão” no dia 6 de Outubro de 1934. Não importa que seja mais um acto falhado. Seria mais um marco num “processo” que os nacionalistas concebem como permanente e interminável.

A aventura da DUI poderá seduzir a Generalitat. Primeiro, mudando o quadro da negociação com Madrid, que passaria a ser entre um Estado e uma região secessionista. Poderia também aumentar o pânico da Europa e, assim, tentar “mediações” internacionais. Mas poderia ter também um efeito de boomerang numa UE que teme uma catastrófica desagregação.

Negociação?

Não é arriscado dizer que as negociações para a resolução do conflito não estão na ordem do dia. Ninguém concebe que, depois de cortadas todas as pontes, Rajoy e Puigdemont possam negociar o que quer que seja. Em primeiro lugar porque é inimaginável que possam recuar. Isto significa a mais grave crise política em Espanha desde a Transição democrática de 1978. 

Tudo está em jogo e em aberto. Conseguirá Rajoy sobreviver e fazer aprovar o orçamento? Haverá eleições antecipadas? Que arranjos partidários se poderão antever? Não há resposta. 

E na Catalunha? O heteróclito bloco independentista só mantém a sua coesão em torno do tema da independência. Só se sustenta através da fuga para a frente. É como a bicicleta que não pode parar. Se houver fissuras quanto à táctica a seguir nos próximos tempos, as eleições autonómicas poderiam tornar-se inevitáveis, com grande risco de fractura do bloco independentista. 
Não podemos pensar apenas em Rajoy e na Generalitat. Na Andaluzia há visíveis sinais de nervosismo perante a hipótese de uma negociação entre Madrid e Barcelona. Mexer no sistema das autonomias e nas finanças é uma feroz discussão que envolve todas as regiões de Espanha.