Crítica

Buika ao voo do pássaro

O concerto único de Buika em Lisboa, na noite de 29 de Setembro, foi uma demonstração demasiado à vol d’oiseau, talvez autêntica na intenção mas falha de intensidade e entrega.

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Concha Buika numa fotografia de promoção DR

O aguardado concerto de Buika no Coliseu dos Recreios (um concerto único, desta vez, só em Lisboa) foi algo desconcertante. Não que ela esteja a cantar pior, longe disso, teve até alguns momentos brilhantes; mas o uso insistente do scat, se por um lado a aproxima da linguagem do jazz (amolecida pela omnipresença do som do trombone de varas), por outro obscurece na dicção o entendimento das letras, que nas suas canções assumem importância vital. A acrescer a isto, a duração: uma dúzia de temas dificilmente faz um concerto, dir-se-ia antes um show-case alargado. Por antítese ao título de um dos seus discos (o menos conseguido de entre os vários e excelentes que já gravou), La Noche Mas Larga, esta foi em Portugal a sua noite mais curta. Nada a opor, se tal estreitar de tempo fosse compensado pelo fulgor e pela intensidade da actuação. Mas, ao invés do que sucedeu há anos atrás no CCB (na mágica e antológica noite de 16 de Dezembro de 2008, onde ela brilhou como uma jóia do melhor quilate), a sensação dominante neste concerto do Coliseu dos Recreios foi a de uma demonstração à vol d’oiseau, decerto autêntica na intenção mas falha de intensidade, de entrega, dessa coisa inexplicável e estranha que vem do fundo da alma e a que ela tão bem nos habituou, dando-lhe a volta agora.

Foi um mau concerto? Seria injusto dizê-lo. Mas foi pobre onde devia ostentar riqueza, não no brilho do vestuário mas na profundidade da interpretação. E foi pobre também nas soluções rítmicas, demasiado polidas e circunstanciais, de pouco nervo. O arranque, de embalo reggae, com Vivir sin miedo, pareceu promissor, mas logo esfriou num Si volveré abaixo das suas capacidades. O primeiro momento alto da noite não tardou, primeiro com Loca e depois com Nostalgia, ambos excelentes e ao nível do melhor que Buika é capaz de atingir. Mas o “desvio” para um Siboney arrastado e sensaborão reconduziu-nos a novos exercícios vocais, numa deriva incómoda e evitável. Andaram por ali, sentindo-se nalguns vocalizos, os fantasmas possantes de Betty Carter e Célia Cruz, mas raramente se corporizaram nela em plenitude. Love pouco adiantou e a tarantela Pizzica del Torchiarollo esteve abaixo da versão gravada no EP Para Mí, o mais recente disco de Buika e que deu origem à presente digressão mundial. Te camelo e Ojos verdes não desapontaram, sentiu-se neles até um fulgor renascido na voz da cantora, mas também não deslumbraram – e tê-lo-iam feito se o concerto tivesse tomado outro rumo.

E foi aí que o concerto terminou, surpreendentemente. Uma dezena de temas para uma noite? Não, o número subiria até à dúzia, depois de um encore exigido com uma ovação de pé, na sala quase cheia (alguns espectadores, não muitos, dirigiam-se entretanto já para a saída). Foi aí que se ouviram Ni contigo ni sin ti, um clássico de Manzanita aqui algo adocicado no refrão, e Jodida pero contenta, um dos clássicos de Buika, a que ela deu um último fôlego vocal digno de nota, espraiando-se em sugestões rítmicas de rumba.

Para Mí foi daqueles concertos com pressupostos mais interessantes do que a sua real concretização. O discurso da cantora extra-palco, nas entrevistas, prometia algo bem mais aliciante que por qualquer razão acabou por não cumprir. Expectativas demasiado altas? Sendo ela, sem grandes contestações, uma das maiores e mais estimulantes cantoras e intérpretes da actualidade, as expectativas serão sempre elevadas. Mas, sendo os músicos humanos e não máquinas, haverá sempre momentos mais baixos para aqueles que são capazes, pela sua entrega e arte, dos voos mais altos. Buika voa assim, quando quer.

Com Buika (voz) estiveram no palco do Coliseu Ramón Escobar (voz e percussões), Santiago Canada Valverde (trombone de varas e teclas), Josue Rodriguez Fernandez (baixo eléctrico) e Ricardo Moreno Montiel (guitarra acústica).

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