Os Syrah do Monte d’Oiro de regresso às origens

Não é fácil pegar numa casta estrangeira, plantá-la em Lisboa e chegar onde o Monte d’Oiro chegou em apenas duas décadas.

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Luís Ramos

As provas verticais têm sempre uma vantagem incontestável: permitem-nos avaliar as mudanças produzidas pela natureza nas vinhas e, principalmente, a evolução dos conceitos das equipas que os criam. A Quinta do Monte d’Oiro, da família Bento dos Santos, celebrou por estes dias 20 anos e uma viagem feita até aos seus primeiros vinhos é suficiente para se constatar que o melhor palco do país para a expressão da casta Syrah reforçou o seu estatuto. Se há dez ou 15 anos, os reservas, ou os ex-aequo, eram magníficos vinhos tintos, a evolução operada nas últimas colheitas refinou-os, deixando exprimir de uma forma mais natural a garra tânica e a acidez da casta, salvando-a do excesso de barrica ou da maturação que lhe fazia aumentar a doçura. Caso para dizer que a Syrah do Monte d’Oiro está hoje mais perto do padrão da sua origem, Côtes du Rhône, do que no início da aventura.

Lugar onde se cultiva vinho desde o século XVII, propriedade do grande viticultor Visconde de Chanceleiros no século XIX, o Monte D’Oiro impressiona pela sua beleza singela. Adquirida em 1986, a sua renovação começou em 1992 com a plantação das primeiras vinhas inspiradas no Rhône – para lá da Syrah foram introduzidas áreas de Viognier, Petit Verdot, Marsanne, além das portuguesas Touriga Nacional e Tinta Roriz. Dos seus 42 hectares, 15,5 são vinha – há mais nove hectares plantados este ano. Com este potencial, a proposta de José Bento dos Santos e, desde há cinco anos, do seu filho Francisco era fazer vinhos ao estilo do Velho Mundo. Uma espécie de França transplantada para a região de Lisboa.

Uma viagem pelas colheitas da casa desde 1997 confirma a ideia de que os Monte d’Oiro devem ser incluídos na lista restrita dos grandes tintos nacionais. São vinhos com garra, carácter, boa aptidão para envelhecer e balanço ideal para se apresentarem à mesa. Da gama apresentada, apenas os Petit Verdot (vinhos moles, unidimensionais e sem alma) desmerecem o conjunto. Até os Madrigal, feitos a partir de Viognier, valem a pena, desde que se deixem crescer na cave durante um par de anos. Como o comprova a edição de 2009, um branco cheio de graça e delicadeza (89 pontos). Os rosés são secos e merecem igualmente atenção.

É, porém, nos tintos com base na Syrah que os Bento dos Santos mostram as suas artes. Os Lybra (cerca de dez euros) crescem bem, mas não são vinhos pensados para acolher a complexidade dos aromas terciários. A fruta jovem e franca recomenda o seu consumo até aos cinco/seis anos. Caso diferente são os Reserva, que custam cerca de 30 euros. O 2013 (93 pontos) é um modelo de elegância e precisão. O 2009 (93 pontos) está ainda numa fase ascendente. E o 2007 (92 pontos) garante ainda um aroma muito vivo, com notas de couro e erva seca e um final de boca intenso, marcado pela garra tânica e pela sua acidez.

Finesse e complexidade

No topo de gama, os ex-aequo, são ainda casos mais sérios. Feitos a partir de lotes de Syrah (75%) e Touriga Nacional, são vinhos de coleccionador – produzem-se entre 900 e 1200 garrafas nos anos em que se edita. Tanto zelo dedicado a tanto potencial só podia dar no que deu: num dos vinhos icónicos do país. O 2008 (94 pontos) começa a entrar na sua fase de aprimoramento máximo – é bebê-lo. O mais recente, de 2013 (94 pontos), é um tinto de perfil clássico, notas de ameixa seca intensas, garra e volume de boca, sofisticado, longo e grandioso. E o 2011 (95 pontos) é um monumento que está a evoluir de uma forma extraordinária. A sua finesse e complexidade, que obrigam a “mastigá-lo”, produzem sensações magníficas.

Vinte anos depois da primeira vindima, a Quinta do Monte d’Oiro é um belo modelo de empenho e de talento. É também um exemplo de intransigência perante padrões de gosto dominantes ou face às pressões do mercado – os seus vinhos são lançados após estágios mínimos que fazem envergonhar os produtores do Douro, entre outros. É afinal uma combinação entre paixão a visão a prazo que explica o seu sucesso. Não é fácil pegar numa casta estrangeira, plantá-la em Lisboa e chegar onde o Monte d’Oiro chegou em apenas duas décadas.