Bailarinos que dançam como galinhas decepadas

A partir das pistas recolhidas na vida do pioneiro do butô Hijikata Tatsumi, Marcelo Evelin cria em Dança Doente uma peça inspirada por uma pulsão de reorganização da vida. A ver no Maria Matos e no Rivoli.

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Marcelo Evelin criou este quadro a partir de uma declaração de Hijikata Tatsumi: “Quero pensar a minha dança como a dança de uma galinha decepada" MAURICIO POKEMON
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Num dos segmentos de Dança Doente, os corpos dos bailarinos movem-se sem cabeça. Uma tarja descida do tecto é colocada a uma altura que lhes parece roubar a razão e os deixa num descontrolo físico que é consequência natural da separação abrupta do pensamento. Os movimentos são como impulsos, destituídos de propósito, meros reflexos que a nada conduzem. É todo um quadro que o coreógrafo brasileiro Marcelo Evelin criou a partir de uma das impressivas declarações do japonês Hijikata Tatsumi, um dos pioneiros do butô: “Quero pensar a minha dança como a dança de uma galinha decepada.” Olhando para o palco do Teatro Maria Matos, Lisboa, e do Rivoli, Porto, onde o espectáculo se apresentará, respectivamente, a 29 e 30 de Setembro e 6 e 7 de Outubro, será impossível não ver Tatsumi a ser reclamado pelo elenco. Nesta deixa ou noutras do tipo: “A minha dança é como um cadáver em pé.”

Atraído pelo Japão desde criança, só já perto dos 50 anos Marcelo Evelin visitou pela primeira vez o país asiático, a pretexto da apresentação da sua peça Matadouro (2010). Foi esse confronto e a fascinação por “uma sociedade tão complexa e tão diferente da nossa”, diz Evelin ao PÚBLICO, que começou a pedir-lhe uma imersão artística naquele mundo. O seu interesse acabou por concentrar-se na figura de Hijikata – e não tanto no butô – e, consequentemente, nas propostas artísticas e políticas do coreógrafo e bailarino japonês. A pesquisa que se seguiu foi, por isso, impulsionada sobretudo por aquilo que se conta de Tatsumi, pelos seus escritos e pelas suas referências literárias, e pelo exemplo de alguém que defende “uma quase inversão das lógicas da dança, a dança como reinvenção do corpo”.

A pesquisa – que Marcelo classifica como “sensorial” – concentrou-se em aspectos que, à partida, poderiam parecer totalmente acessórios. Mas o coreógrafo quis viajar até ao lugar onde Hijikata nasceu – “Ele vinha da região mais isolada, mais pobre, mais erma, mais distante e mais fria do Japão, enquanto eu venho da mais isolada, mais feia e mais quente do Brasi”, justifica –, pisar os mesmos lugares que Hijikata pisou, beber nos mesmos bares. Dedicou várias semanas a passar os dedos pelo arquivo do japonês, a recolher expressões, palavras e uma “topografia das sensações” que lhe serviriam depois de mote para desencadear o movimento.

Uma das experiências mais singulares da pesquisa haveria de ser a sua participação num grupo de estudo organizado por uma prima de Tatsumi, e dedicado em exclusivo à leitura e à discussão da última obra do coreógrafo japonês. Na ausência de uma tradução de um livro que em português será qualquer coisa como A Dançarina Doente, a sua “autobiografia imaginária”, Marcelo assistiu a alguns dos encontros que acontecem todas as terças-feiras à noite e juntam uma pequena comunidade nesse labor de decifração. “É muito bonito”, diz, “e eu só fiquei com o som daquilo tudo acontecendo e o movimento das pessoas em volta de uma mesa, parando constantemente para entender, porque o livro é extremamente difícil de ler.”.

Para o brasileiro, o conceito de “autobiografia imaginária” é especialmente atraente, porque pressupõe uma construção da pessoa e da sua realidade. “Sinto que é isso que fazemos na vida, nos reinventamos a cada dia”, comenta. “O problema é que tem gente que vive tão limitada e o sistema é tão forte que temos a sensação de estar perdendo essa possibilidade. Neste momento, sobretudo no Brasil, é muito importante que a arte opere nesse lugar de reinvenção e de recolocação no mundo, porque a coisa está muito feia.”

Paralelamente, o seu entendimento do “estado de quase isolamento e de quase deslocamento” vivido nas relações actuais leva a que Dança Doente contrarie o trabalho “corpo a corpo, carne com carne” dos anteriores De Repente Fica Tudo Preto de Gente e Batucada. Aí havia uma dissolução no outro, um desejo de fusão dos corpos; aqui, quase não se tocam. E quando o fazem são violentos e desesperados.

A doença como reorganização

Há uma frase que Marcelo Evelin gosta de recordar, mesmo tendo apagado o nome do autor, e que resume a ideia de que “corpo que não adoece é um corpo preguiçoso”. Dança Doente espelha essa convicção de que a depreciação da doença reflecte a tendência generalizada das pessoas para “se vitimizarem o tempo todo”. “A doença faz parte da nossa experiência com o corpo e com a vida”, argumenta, “e é uma maneira de colocar em fricção uma série de assuntos e de reorganizar.” “Para mim, o mais forte de pensar a doença e a morte corresponde a uma reafirmação de vida.” Um tipo de vida mais subterrânea e mais brutal, distante da vida maquilhada que vê arrastar-se de forma automática à sua volta no dia-a-dia, “essa vida conectada a shopping centers, em que se toma um café, se vê Netflix e se manda uma mensagem por WhatsApp”.

A doença entendida como anomalia agasta Marcelo Evelin, enquanto sinónimo de falência de um mundo demasiado ocupado com a sua obsessão por ser saudável. “A saúde virou uma condição hegemónica”, nota, e estende a queixa à condição hegemónica que dita que “todo o mundo tem de produzir muito, tem de ser rico, tem de ser heterossexual e tem de ser saudável”. “Isso não é real”, denuncia. Se Hijikata dedicou alguns dos seus trabalhos a doenças específicas como a varíola ou a lepra, Marcelo quis ocupar-se da doença como sintoma de crise. Mas em resposta à recente decisão de um juiz no Brasil de legalizar as chamadas “terapias de reversão sexual” que se propõem “curar a homossexualidade”, Marcelo Evelin diz ponderar mudar o nome da sua peça para Dança Gay. Para tornar mais claro o seu dedo apontado na direcção do absurdo.