Cauteloso, Jerónimo só prevê ganhar votos e mandatos. Câmaras logo se vê

O coração comunista aperta em Loures, onde a CDU termina a campanha a puxar pelos galões da sua gestão autárquica. Líder do PCP recusa leitura legislativa dos resultados de domingo.

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Jerónimo passou o dia em terriório comunista LUSA/NUNO VEIGA

Duas arruadas, dois jantares e o comício final em Loures. Depois da manhã no Barreiro, Jerónimo de Sousa andará esta sexta-feira numa roda-viva a partir da tarde entre o Chiado (Lisboa), Almada, Odivelas e, antes das doze badaladas que obrigam ao recato, Loures. A CDU escolheu precisamente o mesmo local de há quatro anos para encerrar esta campanha – o Pavilhão Paz e Amizade, de boa memória para Bernardino Soares que em 2013 reconquistou a Câmara de Loures para os comunistas depois de 12 anos de gestão socialista. Até porque agora o xadrez afigura-se ali mais complicado depois da ruidosa campanha de André Ventura, apoiado pelo PSD.

Talvez também por isso, Jerónimo de Sousa não quis na quinta-feira comprometer-se em fixar uma meta de novos municípios, acima dos actuais 34, para ter no final do dia de domingo. “Não faço essas contas com rigidez aritmética. Mais votos e mais mandatos. É esta a nossa linha de confiança e achamos que é possível esse objectivo”, disse, cauteloso, sem se aventurar a subir ao patamar seguinte – o da liderança de câmaras. Prefere concentrar-se no apelo ao voto do que “perder tempo a dar atenção a escaramuçazitas”, “arrufos” e “bocarras”, como aquela em que Passos Coelho disse que o PS vendeu a alma ao diabo (leia-se BE, PCP e PEV) para governar, que atribuiu à “dinâmica eleitoral”.

Não vê nos discursos mais inflamados ou no eventual roubo de autarquias da CDU pelo PS motivo para desentendimentos à esquerda e, como disse à Lusa, também não acredita que o resultado de domingo seja a mola para uma maioria absoluta socialista nas legislativas. “De avião?!... Não sei se o PS conseguirá essa onda, um voo tão célere, em termos de resultados eleitorais”, duvidou.

No tradicional almoço na vila do Couço com muitos dos camaradas da região que nos anos 60 e 70 fizeram ali a luta antifascista, Jerónimo defendeu as propostas do PCP para os reformados de 10 euros de aumento novamente em 2018 e a despenalização da reforma antecipada para quem já tem 40 anos de descontos como uma homenagem às “marcas de vidas de trabalho e luta” que a larga maioria dos camaradas tinha nas rugas do rosto. Uma curiosidade: a Coruche, que perdeu há 16 anos para o PS, a CDU candidata um independente que em 2005 concorreu contra si e que terá sido responsável pela perda do terceiro vereador que os comunistas tinham na câmara.

Já à noite, em Benavente, Jerónimo de Sousa fez o discurso mais voltado para a questão autárquica da última semana. Porque aquele município é liderado pela CDU desde 1979, o secretário-geral do PCP escolheu os bons exemplos da gestão camarária comunista – em Benavente, como na maioria das autarquias assumem a taxa mínima do IMI (que por proposta do PCP passou este ano para 0,45%), paga-se sem atrasos aos fornecedores, os equipamentos culturais e desportivos têm programação mensal, os funcionários trabalham 35 horas por semana e têm 25 dias de férias, e a câmara contratou mais 80 trabalhadores. E rematou, assertivo: “É por isso que nesta fase final do mandato, aqui em Benavente e em todo o país, podemos afirmar de rosto levantado: cumprimos.”

“Há por aí quem, à falta de propostas e conhecimento local, se reduza a repetir que há CDU a mais e que é muito tempo de CDU”, ironizou. “O trabalho, a honestidade e a competência nunca são demais”, acrescentou. “O poder local não é um espaço para lutas mesquinhas, é um espaço de realização, onde as populações sabem que encontram na CDU quem está sempre disponível para exercer as suas responsabilidades, contribuir para construir soluções e acolher o contributo de todos os que seriamente querem trabalhar.” Domingo se saberá com quem terá que o fazer em Loures.