Editorial

Auf Wiedersehen, herr Schäuble

Schäuble foi duro, preconceituoso e implacável na crise do euro. Mas é um europeísta – qualidade que o seu sucessor pode não ter.

Durante os anos penosos do ajustamento, o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, foi o político europeu que a maioria dos portugueses adorou vilipendiar. A sua pose hirta e inflexível sobre o drama económico e humano que afectou a vida de milhões de pessoas no Sul da Europa, a cobertura que deu ao discurso calvinista que tendia a justificar a crise com uma suposta inferioridade moral e cívica de uma Europa meridional laxista e negligente, a sua eterna pressão para usar a austeridade como uma vingança punitiva fizeram dele a caricatura ideal do mau da fita a dominar um tempo de chumbo. Ontem, soubemos que Schäuble não vai assumir a pasta das Finanças do próximo governo alemão e o que por lógica devia gerar uma sensação de alívio acaba por suscitar uma estranha ansiedade quanto ao futuro.

É verdade que, no último ano, Schäuble deixou de fazer avisos sobre a iminência de um novo resgate a Portugal, calou-se nos remoques e nas insinuações e começou até a elogiar o país como exemplo de um ajustamento bem sucedido. Não é isso, porém, que nos leva a encarar a sua partida do governo com uma réstia de condescendência. É antes o receio de que valia muito mais a certeza da sua inflexibilidade e da sua ortodoxia do que a incerteza gerada pelas opções políticas de quem virá a seguir. Entre Schäuble e um eventual sucessor proveniente das fileiras dos liberais, o primeiro tinha ao menos o mérito de ser um europeísta da estirpe de Kohl e dos líderes de uma geração empenhada em construir uma Alemanha europeia em detrimento de uma Europa alemã.

“A Alemanha mudou”, dizia um editorial da revista Der Spiegel na ressaca das eleições de domingo, e a mudança ameaça afastar o país ainda mais dessa matriz europeísta. Schäuble foi implacável na exigência do cumprimento dos programas de austeridade de Portugal ou da Grécia não apenas por razões de política interna, mas também porque acreditava que sem essa inflexibilidade e exigência o euro ruiria e a seguir ruiria a União Europeia. Podia ser um erro de percepção, até porque a austeridade foi longe de mais. Podia exprimir a impaciência algo xenófoba de um suposto racionalismo alemão superior contra o lastimável improviso mediterrânico. Mas, na essência, Schäuble acabava sempre por ter em conta o interesse do continente. Algo que o discurso eleitoral do FDP não deixa perceber. Muito pelo contrário.