Rui Rio a postos tenta unir os críticos para uma luta (só) a dois

Ex-autarca do Porto tem tudo pronto para desafiar a liderança, mas deixa a noite eleitoral para ouvir Passos. A aposta é unir os críticos e evitar uma terceira candidatura.

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fernando veludo/nfactos

“Em qualquer circunstância”. É precisamente com esta expressão que Rui Rio tem garantido a meio PSD, nas últimas semanas, que é desta que o partido o vai ver numa disputa pela liderança, já a seguir às eleições autárquicas. “Meio PSD” é uma expressão que, garantem os seus apoiantes, é literal: “No último ano e meio já correu 160 concelhos, incluindo as ilhas” - isto desde que Marcelo rumou à Presidência e Costa é primeiro-ministro. “Está tudo preparado, este é o momento”. 

Mas não será logo na noite eleitoral. No domingo, Rui Rio quer olhar para os resultados do PSD, que ele e muitos no partido prevêem trazer o pior cenário: uma derrota histórica em Lisboa, outra no Porto. “Até a sondagem do JN que dava o PS quase empatado com Rui Moreira piorou as coisas, pode levar muita gente do PSD a votar Moreira para evitar uma vitória do PS”, diz um dos cépticos da actual direcção. Em Lisboa, anota outra fonte, “vai ser uma transferência de votos para Cristas”. Em duas semanas, duas sondagens deram o cenário em quem ninguém queria acreditar - Cristas à frente de Leal Coelho - e o partido abaixo dos 15%. 

Nestes dias de campanha ninguém, mesmo na oposição interna, quis dar argumentos a Passos Coelho. E todos se juntaram na campanha, do próprio Rui Rio a Ferreira Leite, passando por Paulo Rangel. Todos não: faltou (para já) Morais Sarmento, um dos estará na primeira linha do ataque à liderança; e Feliciano Barreiras Duarte, que chegou a ser chefe de gabinete de Passos e seu secretário de Estado, foi recusado como candidato em Leiria e está agora a preparar terreno para o “assalto” à liderança.

Nestas semanas, meses até, a principal tarefa tem sido procurar garantir que não haverá mais candidatos às directas: apenas um Passos-Rio. “Está muito bem encaminhado”, anota um dos elementos mais próximos do ex-autarca. “Neste momento, quem aparecesse como terceiro elemento acabaria por se responsabilizar por uma vitória de Passos Coelho”, argumenta um “barão” do partido, que não sendo um entusiasta de Rio se diz inclinado a apoiá-lo.

Não será pelo entusiasmo que esta terceira via não aparecerá. Entre estes cépticos fala-se do regresso de uma geração que já passou, de um perfil ainda de austeridade, de um discurso muitas vezes crítico dos media e da independência do Ministério Público, que Rui Rio tem trazido. "Haveria espaço para uma alternativa", diz um social-democrata ao PÚBLICO, distante de Passos e de Rio. Haveria ou haverá? "Haveria". Porque há outro factor a ter em conta: poucos são os que no PSD acreditam que o partido terá hipóteses de vencer António Costa, seja com que líder for. "O timing não é atraente. Não é desconfortável ficar à espera", conclui. Assim sendo, os que podiam atravessar-se devem ficar de fora, como Paulo Rangel (eurodeputado, vice presidente do PPE, ex-candidato à liderança) ou Pedro Duarte (agora candidato à assembleia municipal do Porto). 

Mas o ex-autarca do Porto, esse, não teria outra hipótese: “Depois de dizer que não em 2009 e outra vez que não às presidenciais”, já ninguém lhe perdoaria outra - reconhece um dos ligados à candidatura. 

Na estrada, nestas semanas, a dúvida de que se fala é se Rio terá hipóteses de bater o actual líder. As respostas são pouco consensuais: na direcção nacional, garante-se que sim, agradece-se a “clarificação” - e estima-se uma divisão de votos nos 70/30%. Entre os críticos, pergunta-se antes pela dimensão da derrota de domingo. “Neste momento Rui Rio perderia. Mas se a derrota for mesmo grande, as coisas vão mudar. Porque uma coisa é recuperar para as legislativas partindo de 25%, outra é partir de menos de 20% dos votos.” Mas há quem veja tudo com maior ‘optimismo’: “As pessoas hoje, no partido, têm medo. E o trabalho que temos feito tem sido como nos tempos do PCP, quase na clandestinidade. Mas depois toda a gente vai desesperar e dizer o que pensa”, anota um dos apoiantes de Rio. "O silêncio interno é ensurdecedor, mas termina no dia 2 de Outubro", comenta um dirigente local do PSD.

A luta, todos sabem entre os críticos, não vai ser fácil. Mas contam-se já apoios, entre os históricos, as estruturas da JDS, alguns autarcas e líderes distritais. A este junta-se outro argumento: que o líder já perdeu a capacidade de mobilizar e unir. E foi por isso que Rui Rio, há poucos dias, se limitou a dizer isto aos jornalistas: “Até às eleições autárquicas, o imperativo é procurar a unidade. A partir do momento em que estiverem resolvidas as eleições autárquicas, outros temas se podem resolver.”

A verdade é que Passos anda também no terreno há meses. E agora não só no aparelho, também nas ruas, na luta autárquica que é também a primeira volta das directas no partido, que o presidente social-democrata já colocou no calendário: “Final de Janeiro, princípios de Fevereiro”. 

“Sou presidente do PSD, quando existirem eleições internas, a seu tempo, me apresentarei a essas eleições – não sou de virar a cara ou de me pôr ao fresco, mas também não estou agarrado a isto a qualquer preço.” Dentro da direcção nacional, mesmo os apoiantes de Passos temem que um cenário ainda pior do que o previsto possa aparecer na noite eleitoral: “O pior é se nem conseguirmos mais câmaras do que em 2013 e tivermos uma derrota grande em Lisboa e Porto.” E aí, o que aconteceria? Ninguém sabe - mas o terror será se Passos mesmo assim ficar. No círculo político próximo do líder, há uma resposta evidente para o “quem se segue” - será Luís Montenegro -, mas também se sabe que nem o ex-líder parlamentar, nem ninguém vai desalinhar de Passos enquanto este quiser ser líder. “Ele fez o mais difícil no Governo e ganhou as legislativas, ninguém é ingrato”, diz um dos apoiantes de Passos ao PÚBLICO. A resposta está válida, claro, até às legislativas de 2019.