Habituemo-nos a Lucifer: o calor extremo vai tornar-se a norma

Cientistas indicam que o risco de uma onda de calor como as que atingiram a Europa em Junho e em Agosto aumentou dez vezes em relação ao início do século XX.

A onda de calor Lucifer foi sentido em vários países, como a Itália, em que, durante três dias e três noites, as temperaturas se mantiveram acima dos 30.º
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Em Agosto, a onda de calor Lucifer atingiu vários países como Itália, em que, durante três dias e três noites, as temperaturas se mantiveram acima dos 30.º Lusa / Giuseppe Lami

Ondas de calor como a Lucifer, durante a qual, no início de Agosto, as temperaturas subiram acima dos 40º e se mantiveram acima dos 20º à noite, em locais tão improváveis como a zona alpina da Eslovénia, ou fenómenos como o que assolou Portugal e Espanha em Junho, ajudando à deflagração de mortíferos incêndios como o de Pedrogão Grande, vão tornar-se a norma em meados do século XXI. Isto caso as nações do mundo se provem incapazes de agir para reduzir as alterações climáticas globais provocadas por acção humana. É este o alerta deixado num estudo agora divulgado pela World Weather Attribution, uma associação que reúne cientistas de todo o mundo na análise dos efeitos das alterações climáticas na recorrência de fenómenos naturais extremos.

Ainda que as alterações climáticas não possam ser responsabilizadas de forma directa e isolada por cada um dos desastres naturais que têm ocorrido, existe uma relação entre o primeiro fenómeno e o facto de os segundos acontecerem cada vez mais frequentemente. Comparando a recorrência recente de fenómenos extremos com os registos históricos e com modelos informáticos de evolução do clima num ambiente simulado sem a influência das emissões de carbono, a World Weather Attribution conclui que as alterações climáticas já estão a ter impacto na frequência de eventos extremos. 

A organização indica que o risco de uma onda de calor como a que atingiu Portugal e Espanha em Junho tornou-se dez vezes maior em comparação com os resgistos do século XX. E que os Invernos quentes sentidos recentemente no continente europeu se tornaram num acontecimento 60 vezes mais provável, ou que o branqueamento em massa da Grande Barreira do Coral australiana, e consequente e grave fragilização gigantesca estrutura natural, se tornou uma realidade cuja probabilidade de acontecer aumentou 175 vezes relativamente à era pré-industrial.

“No início da primeira década de 1900, um Verão como o que vivemos agora teria sido extremamente raro”, afirmou em comunicado Geer Jan van Oldenborgh, investigador sénior no Instituto Meteorológico Real dos Países Baixos, citado pela Reuters, acrescentando que, neste momento, “em todo o sul da Europa, a possibilidade de assistirmos a uma onda de calor tão quente como a do Verão passado todos os Verões é de 1 em 10”.

Mais de 35 mil pessoas morreram na Europa como consequência da onda de calor de 2003, enquanto na Rússia, dezenas de milhares de mortes foram atribuídas a uma vaga de calor intenso registada em 2010. Em zonas mais quentes noutras zonas do globo, a ameaça, naturalmente, é ainda maior. “É urgente que as cidades trabalhem com cientistas e especialistas em saúde pública no desenvolvimento de planos de acção, porque o calor extremo tornar-se-á a norma a meio deste século”, alerta Robert Vautard, investigador no Laboratório de Ciências Ambientais e do Clima, em França.

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