Opinião

Tancos é o novo fenómeno do Entroncamento

O caso de Tancos deixa assim os campos político e militar para entrar nos domínios da parapsicologia.

Por favor, substituam o hino nacional pela banda sonora da série Twilight Zone: Portugal entrou na Quinta Dimensão. O Expresso divulgou um misterioso relatório dos “serviços de informações militares” sobre Tancos que tece violentas críticas ao ministro da Defesa e onde se alinham dez cenários sobre os possíveis responsáveis pelo roubo. Ou melhor: nove cenários sobre assaltantes e um sobre a inexistência de assalto, atribuindo-o (e cito) a uma “encenação de militares descontentes por não terem passado à reserva”. Como se não bastasse mais esta subida de degrau no patamar da irrealidade, eis que no dia em que a notícia é publicada o próprio António Costa vem afirmar desconhecer em “absoluto” tal relatório, e que ele não foi produzido por “nenhum organismo oficial do Estado português”.

O caso de Tancos deixa assim os campos político e militar para entrar nos domínios da parapsicologia. Há quinze dias, o ministro da Defesa disse que se calhar o assalto não existiu. Há dois dias, o primeiro-ministro disse que o relatório não existe. O Exército garantiu que o seu Centro de Informações e Segurança Militar (CISMIL) nunca produziu tal relatório. O Expresso afirmou que nunca disse que o relatório era do CISMIL. E, de repente, eis Tancos reeditado – basta substituir os foguetes anti-tanque por um relatório secreto e estamos no mesmo nível de ignorância e de absurdo. Desta vez – triste originalidade – com a cumplicidade do mais prestigiado semanário português, que tem culpas no cartório. Não porque o relatório não seja notícia. Mas porque a notícia é outra.

Expliquemo-nos. Que o Exército está num estado lastimável, já percebemos. Que o ministro da Defesa é o cúmulo da incompetência, estamos carecas de saber. Que o primeiro-ministro anda a empurrar as conclusões sobre Tancos para as calendas, parece bastante óbvio. Mas, até por tudo isto, dava jeito que o jornalismo não enveredasse pelo mesmo caminho de silêncios e de histórias mal contadas, e fosse mais eficaz a dar explicações. O Expresso apresentou o relatório como “um documento secreto elaborado pelos serviços de informações militares”, que “teve como destinatários a Unidade Nacional de Contra-terrorismo da Polícia Judiciária e os Serviços de Informação e Segurança (SIS)”. Se o relatório não é do CISMIL, convinha que o Expresso, ao ser desmentido, dissesse claramente de onde provém – coisa que não fez na sua alegada clarificação. Claro que o governo também sabe e não diz, mas neste caso não é sua obrigação dizer. Se o relatório não é do CISMIL, nem do SIS, sobra o SIED (Serviço de Informações Estratégicas de Defesa), mas que não pode ser classificado como um “serviço de informação militar”. Em que é que ficamos, então? Há por aí secretas desconhecidas?

O jornalismo português abusa, e muito, das fontes anónimas. Convém não inventar agora o “relatório anónimo”. Não há relatórios anónimos. Uma coisa é um jornalista não divulgar a fonte que dá os documentos. Outra coisa é não dizer claramente que documentos são esses, quem os fez e quem os encomendou. A verdadeira notícia do Expresso não é, pois, a existência de um relatório bizarro que concorre com Marques Mendes ao nível do comentário político. É o facto de entre os militares haver, como bem se vê, quem ande a conspirar fervorosamente para demitir Azeredo Lopes. Deus sabe como é nobre essa missão. Só que não compete aos jornalistas alimentarem-na com base em notícias obscuras.