Editorial

Mais um triunfo para o medo

Merkel terá já percebido que perdeu as eleições ao mesmo tempo que as ganhou: perder quase 10% dos votos num momento em que o principal concorrente é dizimado diz muito sobre a sua incapacidade em recolher votos ao centro.

Ontem renasceu oficialmente a deriva nacionalista alemã. A tremenda subida eleitoral da AfD dá-lhe credibilidade e fundos federais, facilitando a expansão territorial. Pior, dá notoriedade a um discurso extremista que terá nas eleições europeias de 2019 o terreno perfeito para crescer.

O espaço conquistado pelos extremistas vem a reboque de um discurso populista carregado de ódio por tudo o que não seja alemão. Nisso está incluído o profundo desprezo pela União Europeia e pelas suas políticas, pelo que a ameaça é duplamente grave. E neste primeiro momento interessa pouco saber se o voto na AfD vem só da queda da CDU ou se o protesto que habitualmente estava à esquerda também migrou para a extrema-direita. O que interessa é entender a dimensão do que está em jogo. 

Cas Mudde, o maior estudioso do populismo, afirmou ontem que voltámos quase onde estávamos em Janeiro: com a extrema-direita austríaca à beira do poder e a alemã a condicionar a atualidade, as forças populistas voltam a ganhar peso na Europa e a fazer parte da paisagem de risco no futuro. Somando a isto a crise da Catalunha e o longo processo do “Brexit”, é fácil perceber que a União ainda está em risco e que o grande combate que é preciso travar continua a ser entre nacionalistas e globalistas.

E por isso há duas questões fundamentais a que é decisivo responder. A primeira é que tipo de mandato terá Angela Merkel: um em que olha para fora e projecta os destinos da União em conjunto com Macron, alienando a política interna? Será um gesto difícil de concretizar, tendo em conta que os liberais tiveram um discurso quase tão populista como a extrema-direita e deverão ser parte da grande coligação. Para mais, Merkel terá já percebido que perdeu as eleições ao mesmo tempo que as ganhou: perder quase 10% dos votos num momento em que o principal concorrente é dizimado diz muito sobre a sua incapacidade em recolher votos ao centro, para além de os perder à direita e à esquerda.

A outra pergunta tem que ver com a sucessão da líder do mundo livre. A subida da AfD vai naturalmente puxar o partido para a direita, com um aumento da relevância da CSU e da ala mais conservadora da CDU. Terá Merkel força — e vontade — para forçar um candidato moderado? Ou será o futuro da Alemanha decidido por quem melhor encarnar um nacionalismo moderado e subtilmente antieuropeu? E isto também se relaciona com o novo destino do SPD, que será o novo líder da oposição e terá a obrigação de fazer marcação cerrada a um governo dividido na crença e na ideologia.