Crítica

Uma utopia ambígua

Os livros de Ursula K. Le Guin não são catalogáveis e podem ser apreciados por leitores sem nenhuma predilecção particular pela ficção científica

<i>Os Despojados</i> coloca-nos na perspectiva de quem já nasceu numa sociedade sem Estado
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Os Despojados coloca-nos na perspectiva de quem já nasceu numa sociedade sem Estado

Ao contrário da ficção policial, onde para cada Raymond Chandler se arranjam com facilidade três ou quatro Agatha Christie, Margaret Millar ou Patricia Highsmith, a ficção científica é ainda hoje, em boa medida, um mundo de homens. No alto firmamento dos Ray Bradbury, Stanislaw Lem ou Philip K. Dick, uma só autora brilha praticamente isolada: Ursula K. le Guin. E tal como os melhores do género, talvez de qualquer género, os seus livros não são verdadeiramente catalogáveis e podem ser apreciados por leitores sem nenhuma predilecção particular pela ficção científica. O que vale também para a sua incursão na chamada ficção fantástica, a pentalogia de Terramar, que se recomenda sem reservas a leitores que já não conseguem suportar nenhum dos incontáveis descendentes de J. R. R. Tolkien, George R. R. Martin (bastante) incluído.

Os Despojados (The Dispossessed, 1974), que a Saída de Emergência agora reeditou numa nova tradução de Fernanda Semedo – a primeira edição portuguesa, em dois volumes, foi publicada em 1983 numa colecção de livros de bolso de ficção científica da Europa-América —, é um dos romances do chamado ciclo Hainish, que partilham uma mesma história alternativa na qual a espécie humana tem origem no planeta Hain, cuja civilização colonizou vários lugares, incluindo a Terra. Após o colapso de Hain, essas comunidades humanóides perderam o contacto entre elas e algumas desenvolveram características peculiares. Os habitantes do planeta Gethen, cenário de A Mão Esquerda das Trevas (The Left Hand of Darkness, 1969) têm, por exemplo, a particularidade de ser andróginos, desenvolvendo um dos sexos apenas durante o breve período de acasalamento, e em negociação com o parceiro. Durante a maior parte da vida não têm género sexual, o que, entre outras consequências, torna a discriminação com base no género virtualmente impossível.

A Mão Esquerda das Trevas e Os Despojados são, por ordem de publicação, o quarto e quinto romances do ciclo Hainish, e ambos conseguiram a rara façanha de acumular os dois principais prémios da literatura de ficção científica, o Hugo e o Nebula. A Mão Esquerda das Trevas, que o crítico norte-americano Harold Bloom incluiu no seu Cânone Ocidental, foi mesmo o segundo livro a somar estes dois galardões, logo após Duna (1965), o título inicial da saga de Frank Herbert, também já reeditado pela Saída de Emergência.

Na actual linguagem cinematográfica, Os Despojados seria uma prequela. Os anteriores romances da série, ainda que decorram em lugares e tempos muito distintos e não formem uma narrativa contínua, correspondem a um período em que os mundos humanos outrora dispersos e ignorados uns dos outros, voltaram a reencontrar-se e a relacionar-se graças a um dispositivo, o “ansível”, que permite a comunicação instantânea entre universos distantes. O protagonista de Os Despojados, Shevek, é justamente o cientista que concebe os fundamentos teóricos (a Teoria da Simultaneidade) que mais tarde irão permitir a construção do “ansível”.

Mas a tecnologia nunca é o verdadeiro fulcro dos livros da autora. Filha de um importante antropólogo americano, Alfred Kroeber, e de uma escritora, psicóloga e antropóloga, Theodora Kracaw, Le Guin passou a infância numa quinta tão frequentada por intelectuais europeus como por índios americanos. Não admira que a sua ficção científica deva mais às ciências sociais e políticas do que à astronomia, à física ou à robótica.

Tal como A Mão Esquerda das Trevas nos confronta com um cenário que desestabiliza as nossas convicções e convenções e nos obriga a voltar a pensar desde o princípio as questões de género, Os Despojados faz-nos olhar para o ideário anarquista colocando-nos na perspectiva de quem já nasceu numa sociedade sem Estado e sem propriedade e nunca conheceu outro mundo.

Urras é um lugar de belas paisagens e abundantes recursos, divido em muitas nações, mas dominado por duas potências: uma florescente economia capitalista e um regime autoritário de tipo colectivista. As semelhanças com a Terra nas décadas da Guerra Fria (quando o livro foi escrito) são bastante óbvias, mas os terráqueos também existem nesta história, só que sobrevivem a custo num planeta quase inabitável, cuja ecologia a espécie humana há muito destruiu.

Duzentos anos antes do período que o livro relata, uma grande revolução internacional anarquista, liderada por uma mulher, Odo, abala Urras, cujos líderes, receando que o movimento se torne incontrolável, permitem que os odonianos se instalem em Anarres, a árida lua de Urras. Aí essa primeira comunidade anarquista cria, num cenário de escassez extrema, uma sociedade sem administração central, sem polícia ou prisões, e onde se procura que a propriedade não exista sequer na língua, cirurgicamente despojada de pronomes possessivos.

Um dos grandes méritos de Le Guin foi ter conseguido imaginar uma sociedade anarquista em velocidade de cruzeiro, abordando não apenas as questões mais estruturantes, como a organização do trabalho ou a educação, mas também os mais ínfimos detalhes da vida quotidiana. E embora se intua a sua simpatia pela causa, e pareça ter concebido Anarres de boa-fé, dando-lhe todas as hipóteses de funcionar, nem por isso deixa de descrever um mundo onde os valores libertários se cristalizaram em convenções acríticas e no qual se foi desenvolvendo uma burocracia informal que tende a ostracizar os que pensam demasiado pela sua cabeça. Que o diga o protagonista do livro, Shevek, um genial físico teórico, a quem ninguém proíbe de investigar o que quiser, mas que acaba por sentir que não tem condições para desenvolver o seu trabalho em Anarres, onde é ignorado e não consegue obter os recursos de que necessita, usados para pesquisas menos inconformistas.

Shevek viaja então para Urras, que apesar de todas as suas riquezas e comodidades não o conseguirá demover do seu credo anarquista, nem atenuará a sua genuína repulsa pela propriedade privada e pelo poder instituído, mas que o fará compreender que só o pensamento crítico e uma constante disponibilidade para a mudança poderão evitar a corrupção do seu próprio mundo.

Os Despojados, avisa Le Guin logo no subtítulo do romance, é “uma utopia ambígua”. Mas a prevenção é ela própria ambígua. Parece querer sugerir que o Paraíso é uma questão de perspectiva e tanto Anarres como Urras podem ser desejáveis. “Estive, finalmente, no Inferno”, diz Shevek a um embaixador da Terra, referindo-se à sua estada em Urras, e este reponde-lhe que, do ponto de vista de um terráqueo, esse alegado Inferno “é o mais generoso, mais variado e bonito de todos os mundos habitados”. Outra possibilidade, que talvez seja afinal a mesma, é a de que Le Guin esteja a querer dizer que a linha que separa o Inferno do Paraíso é frágil e que a sociedade anarquista que idealizou para Anarres também pode ser encarada como uma distopia.

Mas o que talvez mais singularize o seu livro – face a uma longa tradição de utopias e distopias literárias de natureza estática, insusceptíveis de aperfeiçoamento ou agravamento —, seja o conceito de uma utopia actualizável, uma ideia de sociedade que só poderá sobreviver na medida em que for capaz de conservar um horizonte utópico em mudança permanente.

Espécie de ficção pensante, Os Despojados, mais do que qualquer outro romance de Le Guin, corre o risco (nem sempre ganho) de que as ideias abafem a história. E há na autora, é verdade, um certo moralismo, um desejo de passar a mensagem correcta, que pode tornar-se muito irritante. Mas são, apesar de tudo, pecadilhos menores perante o considerável feito intelectual que este livro constitui.