O estranho caso do relatório sobre o roubo de armas em Tancos

Houve ou não roubo em Tancos? Há ou não um relatório que aponta a “ligeireza quase imprudente” de Azeredo Lopes na gestão do caso? O Expresso garante que sim, as Forças Armadas alegam que não.

Azeredo Lopes surpreendeu ontem ao anunciar que apoia Pizarro para a Câmara do Porto e não Rui Moreira, de quem era chefe de gabinete
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Azeredo Lopes surpreendeu ontem ao anunciar que apoia Pizarro para a Câmara do Porto e não Rui Moreira, de quem era chefe de gabinete LUSA/MÁRIO CRUZ

Sem ter aberto a boca, o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, esteve neste sábado debaixo de fogo e viu-se transformado na principal arma de arremesso político entre PS e PSD no 5.º dia de campanha eleitoral, por causa de um relatório sobre o roubo de armas de guerra nos paióis de Tancos que, afinal, o Estado-Maior General das Forças Armadas assegura não existir.

O semanário Expresso fez manchete com um relatório dos serviços de informações militares que acusava Azeredo Lopes de ter gerido o roubo do armamento militar “com ligeireza quase imprudente”, acusando-o ainda de ter proferido “declarações arriscadas e de intenções duvidosas”. Tanto bastou para que a líder do CDS/PP, Assunção Cristas, reiterasse o pedido de demissão do ministro, que tem estado num tem-te-não-caias do Governo desde o roubo do armamento militar, conhecido no dia 29 de Junho. “Não esteve à altura do seu lugar e das suas responsabilidades”, insistiu Cristas. “Numa coisa tão grave para a segurança do país, da Europa, o ministro ou desconversa ou não diz nada”, reforçou logo a seguir o líder do PSD, Passos Coelho, criticando o que considera serem os “tiques de autoritarismo” do Governo.

O relatório secreto que o Expresso diz ter sido elaborado em Julho qualifica o incidente de Tancos como “de extrema gravidade” e tece duras críticas ao poder militar e político, acusando Azeredo Lopes de ter usado de uma atitude de “arrogância cínica” na condução de todo o processo.

O ministro também foi notícia neste sábado por ter decidido explicar porque é que apoia o candidato socialista à Câmara do Porto, Manuel Pizarro, tendo sido chefe de gabinete do rival, o independente Rui Moreira. O PÚBLICO tentou ouvir Azeredo Lopes sobre este assunto e sobre o caso do relatório, sem sucesso.

Disponíveis para falar estavam, já ao final da manhã, os diferentes líderes partidários. Mais cautelosa do que Assunção Cristas e Passos Coelho, a líder do BE, Catarina Martins, disse continuar a aguardar “esclarecimentos cabais do Governo”, mas salvaguardou que não conhecia o relatório. Mais cauteloso ainda, António Costa fechou-se em copas por estar no meio de uma campanha eleitoral: "A única coisa que queria dizer é que desconheço em absoluto esse relatório.”

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, cuja acção de minimização de estragos em Tancos até foi supostamente elogiada pelo documento, garantiu também, a partir de Serralves, no Porto, que não tinha lido o relatório ou sequer a notícia. “Mas também ninguém esperaria que o Presidente comentasse uma notícia sobre um relatório secreto de um serviço secreto que naturalmente tem a sua confidencialidade, se é que existe naqueles termos."

Já com a labareda política acesa, o Estado-Maior-General das Forças Armadas garantiu em comunicado que o seu Centro de Informações e Segurança Militar (CISMIL) “não produziu qualquer relatório” sobre Tancos. Horas depois, o Expresso reiterou que o documento “existe e é verdadeiro” e que a sua autoria nunca tinha sido imputada ao CISMIL mas sim a serviços de informações militares. O porta-voz do Exército, o tenente-coronel Vicente Pereira, limitou-se, por seu turno, que sublinhar que este ramo militar “desconhece o documento”.

Por enquanto, e além da exoneração dos cinco comandantes (entretanto reconduzidos nos cargos) envolvidos na segurança dos paióis, e a crer nas declarações de Azeredo Lopes, terça-feira, no Parlamento, as únicas consequências do caso foram a abertura de três processos disciplinares e o esvaziamento daqueles paióis.

Recorde-se que o ministro declarara, no dia 10, em entrevista ao DN e à TSF que, dada a ausência de provas, “no limite pode não ter havido furto nenhum”. Neste sábado, o Presidente (que é por inerência comandante supremo das Forças Armadas e que, segundo o semanário Sol, está só à espera da remodelação governamental, que deve acontecer após a aprovação do Orçamento de Estado, para ver Azeredo Lopes afastado da Defesa) aproveitou para lembrar: “Há-de chegar o dia em que teremos de apurar efectivamente o que existiu naquilo que se configurou como uma actuação potencialmente violadora das regras fundamentais do direito português. Vamos ver se se prova.”