Opinião

Enquanto a Alemanha vota

Há em Donald Trump uma doutrina que põe abertamente em causa a ordem internacional liberal e os valores sobre os quais foi constituída.

1. Já não vale a pena dizer mais nada sobre as eleições na Alemanha. Os alemães estão a votar. Merkel terá o seu quarto mandato. O que está em jogo depende dos resultados dos outros partidos, para se começar a entender com que coligação contar. Em Paris e em muitas outras capitais europeias, fazem-se figas para que Merkel acabe por reeditar a “grande coligação”. Seria o mais “europeu” de todos os governos possíveis. O mais extraordinário destas eleições, é que hoje podemos dizer delas o que costumamos dizer das eleições americanas: os outros europeus deviam ter também direito a voto. Talvez nunca como hoje, o futuro da Europa dependa tanto de um só país (o que também não é bom). A Europa sobreviveu à sua maior crise de sempre. A partir de agora começa o debate sobre qual será o seu futuro.

2. Emmanuel Macron será um dos mais atentos aos resultados. Liderou uma revolução que mudou radicalmente a paisagem política francesa. Travou o pesadelo do nacionalismo. Ganhou com um discurso positivo sobre a Europa. Quer refazer o eixo franco-alemão, equilibrando o poder da Alemanha e encontrando um compromisso no qual os outros países acabem por se conseguir rever. Não há dois países mais diferentes na Europa. Nunca houve tanta necessidade de que se possam entender. Qual é o seu plano? Diz o Eliseu que não quis ir demasiado longe para não colocar a chanceler numa posição incómoda durante a campanha. Em matéria de reforma da zona euro, deu apenas alguns sinais demasiado dispersos. Decidiu fazer o seu discurso sobre a Europa na próxima terça-feira, apenas dois dias depois das eleições. Quer que as suas propostas sejam levadas em conta na discussão da próxima coligação. Os resultados vão mostrar um país que tem resistido bem às convulsões políticas que abalam as democracias europeias. Mas convém não desvalorizar o facto de, pela primeira vez desde a fundação da RFA, um partido de extrema-direita entrar no Bundestag. A extrema-direita alemã não significa o mesmo que nos outros países europeus. O compromisso de Macron é simples: reformar a França para ganhar poder negocial em Berlim. O novo código do trabalho já está promulgado, depois de uma intensa negociação com patrões e sindicatos. O Orçamento será muito difícil de negociar para cumprir a meta dos 3%. Os cortes serão inevitáveis. A rua, em França, é sempre uma tentação. A popularidade do Presidente caiu dramaticamente. Mas é preciso lembrar que não tem oposição digna desse nome. Os dois grandes partidos estão destruídos. Vão levar tempo a reconstruir-se. Os extremos (Mélenchon e Marine) têm um tecto que se revelou difícil de quebrar. O poder do Presidente francês é muito maior do que o da chanceler.

Merkel quer mudar o menos possível na zona euro, para além daquilo que já foi feito. Vai querer dar prioridade ao segundo grande dossier que a Europa tem pela frente: a segurança e defesa. Paris concorda, mas não desiste de reformar a união monetária, argumentando, provavelmente com razão, de que é necessário prepará-la para a próxima crise. Alguns países (Portugal entre eles) preferem o seu calendário, numa altura em que a retoma da economia europeia e os bons resultados obtidos pelos países que sofreram processos de ajustamento torna mais fácil essa negociação. Entretanto, olhando em volta, é cada vez mais forte a sensação de que a Europa não tem tempo a perder perante um mundo que lhe é cada vez mais adverso e que parece cada vez mais assustador.

3. O discurso de 45 minutos que o Presidente americano leu até ao fim na tribuna da ONU serviu para confirmar que nem tudo se resume à sua imprevisibilidade e impreparação. Há nele uma doutrina que põe abertamente em causa a ordem internacional liberal e os valores sobre os quais foi constituída. A crise maior até pode não vir da Coreia do Norte. Se, como praticamente anunciou, Trump vai mesmo “rasgar” (ou renegociar, o que pode ser a mesma coisa) o acordo com o Irão, a corrida ao armamento nuclear pode transformar-se num verdadeiro pesadelo. A Europa não pode continuar a distrair-se do mundo, abrindo champanhe para celebrar o fim do veto britânico à abertura de um Quartel-General em Bruxelas. Merkel tem plena consciência deste facto. Macron também. Trump não pode ser eternamente uma desculpa. Uma das primeiras coisas que o Presidente disse no seu discurso da ONU foi que o orçamento de defesa dos EUA atingiu os 700 mil milhões de dólares. Não foi por acaso. É mais do que a soma de todos os países europeus, da China e da Rússia, para não falar do alucinante avanço tecnológico. Sem querer fazer demagogia, a Améria cria as empresas que fazem mover o mundo. A Europa prefere taxá-las. Não é uma boa receita.

4. É tentador deixarmo-nos embalar pela conversa de que Donald Trump é uma preciosa ajuda para unir a Europa e fazê-la assumir as suas responsabilidades. Essa é a parte mais fácil. O pior que poderia acontecer era criticar o Presidente americano pela sua perigosa deriva nacionalista e deixar, ao mesmo tempo, que se instalem na Europa politicas que não são assim tão diferentes das suas. Um ou dois exemplos. As novas medidas que Macron adoptou para melhorar a segurança contra o terrorismo, se forem bem lidas, não são muito diferentes das que Trump quer praticar com os imigrantes. O célebre xerife do Arizona que os tribunais condenaram e Trump perdoou reclamava o direito de interpelar na rua quem tivesse cara de imigrante. Escreveram-se dezenas de páginas a denunciar esta intolerável arbitrariedade, incompatível com a democracia. Lendo a imprensa francesa, as medidas que o governo adoptou para reforçar a segurança dando mais poderes à polícia não são muito diferentes. Ver os refugiados que chegam à Dinamarca serem despojados de alguns dos seus bens mais preciosos e pessoais, que lhes permitem manter um mínimo de dignidade, para pagarem os custos da sua permanência, também não é um espectáculo muito recomendável. A Alemanha e a França querem manter os controlos fronteiriços por mais quatro anos. Não é só o Reino Unido que quer controlar quem entra. Há certamente explicações racionais para estas medidas. Mas este não é o “modo de vida” que juramos querer defender de cada vez que somos confrontados com um atentado. É preciso acrescentar que o Brexit, para além da confusão reinante no Governo de Theresa May, é um sintoma, que não pode ser minimizado. O que se está a passar na Catalunha mostra até que ponto é mortal a infecção nacionalista.

5. Trump quer rasgar os acordos comerciais dos EUA com os mais variados países ou regiões do mundo. É um desastre. O nacionalismo costuma vir acompanhado do proteccionismo. A iniciativa da Comissão para criar formas de controlo europeu do investimento estrangeiro em sectores considerados estratégicos ou de alta tecnologia (leia-se da China) pode ter algum fundamento, mas é reveladora de uma tendência que pode crescer rapidamente. Há outras maneiras de regular o impacte da globalização. É tudo isto que os europeus precisam urgentemente de levar a sério. É uma tarefa política ciclópica. Mais uma vez, Merkel e Macron têm de falar claro um com o outro e com os seus parceiros europeus. Talvez por isso, Ulrich Guerot, numa notável entrevista que publicamos no destaque das eleições alemãs, insista tanto na ideia de que a Europa só terá futuro se se transformar numa Europa de cidadãos. É um caminho.