A mais injusta das mortes

Charles Bradley, génio da soul tardiamente revelado, partiu cedo de mais. Esperou uma vida inteira para chegar à música e deixou-nos clássicos imediatos. Em cada canção encontramos a sua paixão, a sua sabedoria e, acima de tudo, o seu perdão.

Charles Bradley em Paredes de Coura, em Agosto de 2015
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Charles Bradley em Paredes de Coura, em Agosto de 2015 Paulo Pimenta

Quando no final de 2016 o músico soul norte-americano Charles Bradley, cancelou a sua digressão à conta de um cancro no estômago, a maior parte dos seus fãs pensou que nunca mais voltaria a ouvir aquela voz poderosa ao vivo. Mas já no início deste ano, como com tantas outras situações da sua atribulada vida, Bradley parecia ter dado a volta e regressou aos palcos. O milagre não durou: há cerca de 15 dias foi anunciado que o cancro passara do estômago para o fígado, concertos foram de novo cancelados (incluindo em Portugal) e ontem chegou a notícia que os seus admiradores mais temiam: Charles Bradley, músico soul norte-americano, morreu.

Pode dizer-se, sem cair em exagero de monta, que foi a mais injusta das mortes.

Muitos artistas ou profissionais do entretenimento tiveram carreiras curtas mas ninguém teve uma carreira curta como a de Bradley: após uma vida inteira que não raras vezes caiu na indigência, Bradley conseguiu ser finalmente editado aos 63 anos. A editora que o acolheu, a Daptone, foi a mesma responsável pela descoberta e consagração da igualmente veterana Sharon Jones.

Há quem veja a Daptone como um veículo de revivalismo, que se limita a criar discos soul que imitam os grandes êxitos do passado. Mas Bradley está para lá dessas querelas: Changes, editado em 2016, e que é apenas o seu terceiro disco, é um clássico instantâneo; e No Time for Dreaming, a sua estreia de 2011, idem.

A aclamação foi imediata: a sua voz sentida, capaz de traduzir toda a dor mas também toda a esperança que um ser humano pode sentir, ressoou numa multidão de fãs de soul mas não só. Era a voz de um homem vivido, grave, esquinada, impura, cheia de gravilha, mas simultaneamente indomável. Porque é que a dor dos outros nos dá prazer? Impossível responder, mas as novas gerações de melómanos acolheram-no não como uma ave exótica com uma história inesperada mas quase como um sábio que sobreviveu ao mundo e, acima de tudo, a si próprio. E no fim escolheu o amor.

É uma marca que importa realçar, tanto nas canções como no discurso de Bradley: “Um grande artista aprende, com todas as mudanças que sofre, a ser uma pessoa melhor. Um grande artista continua a dar amor e a crescer com honestidade e a olhar para o mundo e a não se deixar encher pelo ódio”, dizia, o ano passado, em entrevista à publicação online PopMatters. Era uma ideia que repisava constantemente.

Entre a rua e o racismo

Charles Edward Bradley precisou de 14 anos para dar com a epifania que mudou a sua vida. Nascido a cinco de Novembro de 1948, na Florida, mudou-se, com a mãe, para Brooklyn quando tinha oito anos. Aos 14 a sua irmã levou-o ao Teatro Apollo, onde tantas estrelas negras despontaram – foi aí e então que assistiu a um desempenho de James Brown que se tornou uma obsessão durante décadas, ao ponto de, mais tarde, ter ganho dinheiro a imitá-lo sob o nome Black Velvet (começou a fazê-lo quando tinha 19 anos).

Esse espectáculo valeu-lhe alguma boa reputação, pelo menos na zona de Nova Iorque. Anos mais tarde, em entrevista, diria que é muito mais fácil ser James Brown do que ser Charles Bradley: "Com o James Brown, subo ao palco, canto aquelas palavras e divirto-me. Mas as palavras que o Charles Bradley canta são verdadeiras e têm muita dor.”

Bradley saiu da casa da mãe mais ou menos na mesma altura da epifania Browniana e durante algum tempo viveu na rua – algo que seria regular na sua irregular vida. No documentário Charles Bradley: Soul of America, editado em 2012, o cantor confessava uma relação atribulada com a progenitora: “Tinha medo que ela me magoasse – foi por isso que saí. Ela culpava-me de tudo, era muito amarga.”

Nos anos subsequentes Bradley acumulou doses massivas de sofrimento, entre as quais a perda do irmão, assassinado por um sobrinho seu (de Bradley). O desemprego foi uma constante na vida deste homem iletrado e azarado; por consequência, a pobreza e a subnutrição também o foram. Entre os seus múltiplos empregos consta o de cozinheiro num lar para pessoas com problemas mentais.

O racismo também foi uma constante: um homem que não conhecia, um branco, bateu-lhe e, quando a polícia chegou, esta encostou-lhe uma arma ao rosto e prendeu-o, deixando o homem branco livre. Bradley ficou atrás das grades durante 30 dias. Depois, e como se isto não bastasse, esteve às portas da morte à conta de lhe injectarem penicilina, à qual era alérgico. Foi nesta altura que se deu o assassinato do seu irmão. A sua vida é, em parte, exemplar do descuido com que a comunidade afro-americana sempre foi tratada.

A morte do irmão Joseph está retratada numa majestosa canção de 2011, Heartaches and pain. Na melhor linha soul clássica, metais sumptuosos e uma voz vinda do fundo da alma humana sobem em direcção à beleza enquanto a maior das dores é cantada. Mas Bradley, o rei da catarse, o homem cuja garganta sabia tudo de purgas emocionais, tinha de homenagear o irmão, pois fora ele que, após Charles perder o emprego como cozinheiro, lhe dissera para fazer aquilo que lhe dava prazer: cantar.

E nisto surgiu o produtor Tom Brenneck, que assistiu a um dos espectáculos de Bradley e ficou encantado ao ponto de ter produzido todos os três discos que o cantor viria a lançar. Uma boa parte das canções incluídas nesses discos têm “love” no título. As restantes são sobre dor: em The world (is going up in flames) Bradley cantava “Don’t tell me how to live my life/ When you never felt the pain”. Todas, e repetimos, todas são absolutamente extraordinárias, todas são emocionalmente investidas de uma vontade arrasadora de pôr tudo cá para fora, perdoar, perdoar, perdoar e amar, amar e amar.

“Todas as canções têm de ser honestas”, disse um dia Bradley, para quem, acima de tudo, era fundamental perdoar a quem lhe havia feito mal, de modo a poder sentir a felicidade. Charles Bradley demorou 63 anos a encontrar o seu lugar – e depois teve apenas cinco anos para fruir do amor que o mundo lhe deu de volta, como agradecimento pela sua voz, a sua paixão, a sua sabedoria e, acima de tudo, o seu perdão.

Talvez esses cinco anos tenham sido os necessários para Bradley criar uma obra de uma intensidade que não só iguala os maiores da soul como (mais importante ainda) ressoa em cada pessoa que alguma vez sentiu alguma dor ou amou um pouco. Bradley deu muito em pouco tempo – e talvez por isso algures alguém tenha escrito que foi “a mais injusta das mortes”.