Opinião

Sócrates na campanha a favor de Costa?

O que é mais espantoso na acusação feita por Sócrates a Costa e à direcção do PS é a aparente ingenuidade que ela contém.

Com a aura de crescimento económico a superar as expectativas e a aproximar-se dos 3% no final do ano e depois de ver a agência de rating Standart & Poor’s retirar Portugal do “lixo”, para onde o tinha atirado em 2012, em semana de arranque oficial da campanha eleitoral para as autárquicas de 1 de Outubro, o primeiro-ministro, António Costa, foi surpreendido com um inusitado apoio político-eleitoral: o do ex-líder do PS e ex-primeiro-ministro José Sócrates.

Em entrevista ao jornal La Voz de Galicia, publicada a 17 de Setembro, Sócrates fala da sua relação política e pessoal com Costa para, vitimizando-se, afirmar: “Tudo acabou quando me detiveram e tanto ele como a cúpula do PS me viraram as costas.” Ou seja, Sócrates acusa Costa de lhe ter virado as costas quando foi detido na noite de 21 de Novembro de 2014, por suspeita dos crimes de corrupção, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais.

De facto, Costa que seria eleito secretário-geral do PS, em eleições directas a 21 e 22 de Novembro, enviou logo na manhã desse sábado um SMS aos militantes do PS, onde impunha uma espécie de cordão sanitário para evitar a contaminação política da sua liderança e o projecto de ser Governo pela investigação e eventual processo que viesse a incidir sobre Sócrates. Nesse SMS, Costa afirmava: “Caras e Caros Camaradas, Estamos todos por certo chocados com a notícia da detenção de José Sócrates. Os sentimentos de solidariedade e amizade pessoais não devem confundir a acção política do PS, que é essencial preservar, envolvendo o partido na apreciação de um processo que, como é próprio de um Estado de Direito, só à Justiça cabe conduzir com plena independência, que respeitamos. Ao PS cabe concentrar-se na sua acção de mobilizar Portugal na afirmação da alternativa ao governo e à sua política. Um abraço afectuoso do António Costa.”

Como António Barreto já explicou, melhor que ninguém, a 11 de Junho no Diário de Notícias, “A obra-prima de António Costa” foi precisamente a distanciação que conseguiu não apenas em relação ao processo Operação Marquês, mas também, “sem criticar os seus feitos, sem partilhar os erros de Sócrates, sem assumir responsabilidades relativamente aos piores anos de governo de Portugal, António Costa e seus ministros conseguiram, sem nunca o ter feito explicitamente, distanciar-se daquele nefando governo e daquele execrável período”.

A entrevista de Sócrates ao La Voz de Galicia, surge pouco depois de o semanário Sol, a 29 de Agosto, ter feito primeira página com alegadas passagens de escutas a conversas tidas pelo ex-primeiro-ministro, notícia que revelava uma explícita acrimónia deste em relação a Costa. A entrevista torna assim oficial e transparente a azia de Sócrates em relação à actual direcção do PS, numa altura em que está já anunciada a data de 20 de Novembro como limite para a investigação Operação Marquês.

O que é mais espantoso na acusação feita por Sócrates a Costa e à direcção do PS é a aparente ingenuidade que ela contém. Pelo tom em que se vitimiza parece até que Sócrates acha que Costa deveria ter assumido uma atitude de clara promiscuidade do poder político interferindo na esfera da justiça. Mas será mesmo que o ex-primeiro-ministro considera plausível, normal e expectável, que alguém de bom senso possa defender que um líder partidário, depois primeiro-ministro, e a cúpula de um partido de governo se imiscuam numa investigação judicial em defesa de alguém, mesmo de um ex-líder, ainda que acredite na sua inocência?

Será que Sócrates acredita mesmo que com esta declaração prejudica Costa? Não creio que alguém com a experiência política de Sócrates possa admitir que tais declarações são prejudiciais a Costa. É que, aos olhos de uma pessoa normal, as declarações que faz ao La Voz de Galicia mais não são do que um imenso elogio ao actual primeiro-ministro.

Ou será desespero?