O Circular aprofunda a relação com Vila do Conde – e continua a mergulhar no desconhecido

Entre estreias absolutas e nacionais, a 13.ª edição do festival recebe, a partir desta sexta-feira, criações de Martine Pisani, Miguel Pereira ou Joclécio Azevedo. E um concerto do Drumming em torno da obra de Jorge Peixinho.

Fotogaleria
Noirblue, da brasileira Ana Pi, estará no Circular em estreia nacional Daniel Nicolaevsky
Fotogaleria
Peça para Negócio, de Miguel Pereira, resulta de uma residência do Circular Laís Pereira
Fotogaleria
Undated traz a francesa Martine Pisani de regresso ao festival Laurent Pailler
Fotogaleria
Nova Criação, de Teresa Silva e Filipe Pereira DR
Fotogaleria
A Deriva dos Olhos, nova criação de Bruno Senune FLÁVIO PEREIRA

Há sempre coisas por fazer e por descobrir, mesmo quando se dinamiza um festival numa cidade pequena há mais de uma década. É o caso do Circular – Festival de Artes Performativas, que à 13.ª edição, a partir desta sexta-feira e até dia 30, olha para Vila do Conde, a cidade que o viu nascer e crescer, “de uma outra perspectiva, mais aprofundada”, afirma Paulo Vasques, director artístico do Circular juntamente com Dina Magalhães.

Isso é claro em Relações Públicas, performance colaborativa em estreia absoluta no festival este domingo, no Teatro Municipal de Vila do Conde. Resultou de um projecto de longa-duração desenvolvido entre Maio e Setembro pelo coreógrafo Joclécio Azevedo, um dos artistas residentes da Circular Associação Cultural, em articulação com quatro estruturas do concelho: a Escola de Dança do Centro Municipal de Juventude, a Escola de Dança da JUM – Juventude Unida de Mosteiró, o Conservatório de Música de Vila do Conde e o grupo de teatro Camaleões. “Foi um trabalho que passou por dar a conhecer os nossos objectivos, por conhecer o modus operandi dos vários projectos, por muitos encontros e momentos de experimentação”, enquadra Paulo Vasques.

No fundo, é o cimentar da relação com a cidade, com a sua população e as suas associações culturais. “O Circular sempre estabeleceu essa ligação, mas curiosamente poucas vezes se associou a estruturas no terreno. Isso é revelador: havia aqui duas escolas de dança e nós nunca tínhamos feito um projecto com elas.” Essa inscrição no contexto” resultou também numa joint venture com o Drumming – Grupo de Percussão para recuperar o legado de Jorge Peixinho (1940-1995), um dos mais relevantes e internacionais compositores portugueses de música contemporânea, que durante anos manteve uma ligação estreita com Vila do Conde.

“Dava cursos de composição no conservatório, fazia tertúlias sobre a história da música aos domingos à tarde no centro paroquial e foi aqui que conheceu o Eduardo Luís Patriarca, seu discípulo, compositor que vive em Vila do Conde e é professor no conservatório”, explica Paulo Vasques. O concerto, marcado para dia 30 e antecedido, a 29, por uma conversa em torno de Jorge Peixinho, resgata algumas obras do compositor apenas ouvidas nas suas estreias e inclui a apresentação, em primeira mão, de uma peça encomendada pelo festival a Eduardo Luís Patriarca. Uma nova aventura para o Circular, que apesar de tudo sempre esteve próximo da música, mas numa dimensão mais performativa e experimental.

De resto, este é também o Circular do costume – o festival que faz questão de não perder o rasto a artistas que tem vindo a seguir (e a programar) ao longo dos anos. Martine Pisani, que passou por Vila do Conde em 2006 com o espectáculo Contrebande, está de regresso com a sua mais recente criação, Undated, co-produzida pelo Circular e apresentada no dia de encerramento do festival, 30 de Setembro, em estreia nacional. A coreógrafa francesa, que se destacou na cena da dança contemporânea europeia nos inícios de 2000 e que se apresentou várias vezes no Porto, convoca para este espectáculo intérpretes que a acompanharam nos seus 20 anos de trabalho, questionando como chegou até aqui, questionando a sua própria dança (e aquilo que virá a seguir).

Miguel Pereira é outro caso de cumplicidade – e de auto-interrogação. No solo Peça para Negócio, escolhido para a abertura desta edição, o histórico coreógrafo e bailarino português reflecte, com o humor que lhe é característico, sobre o seu percurso e o estado da experimentação artística num contexto capitalista e capitalizado, onde os próprios circuitos e calendários de criação, programação e apresentação estão reféns de rótulos e dinâmicas velocistas (para esta peça Miguel Pereira esteve em residência em Vila do Conde em finais do ano passado). No departamento dos jovens coreógrafos, o Circular acolhe, num programa duplo no dia 29, as novas criações de dois nomes que já passaram pelo festival enquanto intérpretes: o português Bruno Senune, que agora apresenta, em estreia absoluta, A Deriva dos Olhos, uma “pesquisa de formas de metamorfosear o corpo”, e a brasileira Ana Pi, que chega com Noirblue, “uma navegação atlântica de corpos periféricos”, em estreia nacional.

O programa desta 13.ª edição do Circular fica completo com a peça Nova Criação (dia 23), de Teresa Silva e Filipe Pereira, estreada há uma semana no festival Materiais Diversos, e com sim sim não não (dia 28), espectáculo de teatro de Maria Duarte, Sílvia Figueiredo e João Rodrigues construído a partir de To Tell a Story, a fascinante conversa de 1983 entre Susan Sontag e John Berger. O Circular leva este projecto ao espaço da mala voadora no Porto, em estreia absoluta, firmando assim uma parceria iniciada em 2014 com a companhia. E investindo, mais uma vez, nas apresentações em primeira mão – para a equipa do festival, os mergulhos no desconhecido são sempre bem-vindos. “Fazemos questão de nos associarmos a projectos sem conhecer os resultados”, assinala Paulo Vasques. “É preciso apoiar isso, abrir espaço à criação.”